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    Especialista contábil reflete sobre lições do ‘caso Americanas’ para as empresas varejistas

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    Em entrevista exclusiva, Fabio Garcez reforçou a necessidade da adoção de processos voltados à mitigação de riscos nos âmbitos contábil e tributário

    Lucas Torres

    [email protected]

    Há pouco mais de uma semana, no dia 14/01, a Americanas emitiu um comunicado que, por conta de inconsistências contábeis, estava em face de um rombo de cerca de R$ 20 bilhões em seus balanços.

    Tal cenário, que teve como efeito imediato as renúncias de Sergio Rial e André Covre, CEO e CFO da empresa, ocasionou um verdadeiro choque no mercado e iniciou uma batalha entre a gigante do varejo e players importantes do mercado financeiro, com destaque paro BTG Pactual.

    Para as demais empresas do varejo, o cenário causou uma espécie de crise reputação generalizada e, sobretudo, um alerta quanto à sensibilidade da temática da gestão fiscal.

    A fim de contribuir para empresas dos mais diferentes portes com uma espécie de guia de boas práticas deste trabalho, conversei com o especialista contábil do NWGroup, Fabio Garcez.

    Leia abaixo a íntegra da entrevista:

    NovoVarejo – Na prática, qual foi o erro contábil cometido pelas Americanas responsável por ocasionar o rombo financeiro e a consequente crise?

    Fabio Garcez – Apesar de não ter sido esclarecido pela empresa em detalhes qual foi a origem desse rombo, o que se sabe até o momento, é que a operação de Risco Sacado realizada há vários anos foi o motivo, já que a contabilização dos pagamentos aos fornecedores que eram assumidos pelos bancos, e que deveriam ter sido registrados como dívidas financeiras, não aconteceram, acumulando juros e passivo com bancos que culminaram em mais de R$ 40 Bilhões em dívidas “escondidas” no resultado da empresa.

    NovoVarejo – Na sua visão, quais foram os pontos que permitiram que os erros cometidos pelas Lojas Americanas passassem despercebidos por uma auditoria tão capacitada como a PwC? Este case ilustra, de alguma forma, a magnitude do desafio enfrentado por empresas menores na hora de checar a saúde de suas contas e balanços – ou empresas menores possuem uma fiscalização menos complexa?

    Fabio Garcez – Acredito que o ponto principal que deverá ser levado em consideração nas empresas que são obrigadas a contratar auditorias externas é o grau de independência que terão para realizar seu trabalho, definir se as auditorias têm total liberdade é fundamental, levando em consideração que a contratação acontece pelas próprias empresas interessadas em mostrar ao mercado um resultado saudável. Quanto às empresas menores temos um cenário ainda mais obscuro, pois elas não são obrigadas a auditar nem publicar seus balanços e muitas vezes operam em ramos que ainda não tem regulação.

    NovoVarejo – O problema ganhou proporções enormes por conta da representatividade das Lojas Americanas no varejo e na economia nacional como um todo. Mas, de acordo com sua experiência, gostaríamos de saber o quanto questões como essas ocorrem no dia a dia de empresas menores, PME’s – por exemplo?

    Fabio Garcez – Em outra proporção, empresas menores também precisam ter controle de suas receitas e custos, a falta de controle muitas vezes é o motivo da baixa vida útil de pequenas empresas que ainda precisam lidar com a dificuldade de obtenção de crédito no mercado financeiro, negociação com fornecedores além de se manter competitiva frente às empresas maiores muito mais capitalizadas e com capacidade de investimento.

    Novo Varejo – Você acredita que o ‘caso Americanas’ fará com que a Receita Federal e outros órgãos fiscalizadores apertem o cerco sobre a gestão das empresas?

    Fabio Garcez – Com certeza um rombo tão significativo em uma gigante de um setor como o varejo vai pressionar os órgãos regulamentadores e fiscalizadores a se tornarem mais rígidos e atuantes, na contramão ao que o mercado deseja de menos governo para uma atuação empresária mais livre focada na geração de capital e emprego. Nesse caso, os órgãos reguladores podem sofrer pressão do próprio mercado levando em consideração os prejuízos em praticamente todos os níveis de investidores que amargam perdas gigantescas em suas ações.

    Fabio Garcez é especialista contábil do NWGroup

    Novo Varejo – Cite, por favor, de 3 a 5 boas práticas a serem adotadas pelos varejistas a fim de evitar problemas contábeis/fiscais.

    Fabio Garcez: Posso citar:

    • Procedimentos adequados e amplamente divulgado a cultura da empresa;
    • Processos focados na mitigação de riscos e boas práticas contábeis e tributárias;
    • Comunicação clara dos resultados às partes interessadas;
    • Governança e auditorias internas atuando de forma independente.

    Em empresas de menor porte, onde a falta de estrutura não possibilita a implementação de tantas medidas, controles simples e detalhados, podem ser um diferencial para um crescimento sustentável e de longo prazo.

    NovoVarejo – Por fim, uma questão menos técnica e mais voltada ao seu feeling como profissional experiente. Qual você acredita que será o futuro das Lojas Americanas após a aprovação do pedido de recuperação judicial? É possível que ela se recupere sem ter de vender ao menos parte de suas operações?

    Fabio Garcez – A empresa já está sofrendo com a avalanche de notícias negativas, as quais podem impactar de forma imediata seu caixa e consequentemente a sua imagem. O pedido de recuperação judicial pode ter sido a única alternativa, mas dificilmente empresas nessa situação se recuperam sem reduzir seus custos e operação, principalmente por negociações com fornecedores e bancos dificultarem a reposição de estoque e investimentos.

    Tudo leva a crer que a novela Americanas terá mais episódios que o esperado. As ações de curto prazo devem focar nos esclarecimentos necessários e demonstrar que todos os responsáveis pela empresa estão alinhados em torná-la grande e rentável novamente ou até mesmo preparar a empresa para uma aquisição.

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