Reduzir a exposição ao dólar e aumentar a precisão da administração do estoque são práticas essenciais para mitigar riscos trazidos pelo tarifaço e outras questões conjunturais
Tarifas comerciais e mudanças nas relações entre países costumam ocupar as páginas de economia internacional com impactos mais imediatamente associados à indústria. Porém, especialistas têm alertado para o fato de que a distância do que acontece na conjuntura econômica internacional e o varejo já não é tão grande assim.
Mesmo quando não incidem diretamente sobre os produtos comercializados no país, movimentos dessa natureza encontram diferentes caminhos até o mercado doméstico. Oscilações cambiais encarecem importações, componentes e insumos utilizados pela indústria; mudanças nos fluxos internacionais podem pressionar custos logísticos; e o aumento da percepção de risco tende a chegar ao consumidor por meio do crédito e da própria confiança para realizar novas compras.
O impacto tampouco se distribui igualmente pelo varejo. Segmentos associados a compras de maior valor, que dependem de financiamento ou envolvem decisões de prazo mais longo, tendem a responder de maneira diferente daqueles ligados a bens considerados essenciais.
Ao mesmo tempo, a reorganização do comércio mundial começa a produzir movimentos que podem alterar as próprias relações de fornecimento do varejo brasileiro. A busca por diversificação ganha importância e aumenta ainda mais o protagonismo da China, algo que, no mercado de autopeças, já é absolutamente notável. China no centro da discussão, sobretudo diante do espaço comercial aberto pelo aumento das tensões entre os Estados Unidos e diferentes parceiros.
Segundo o assessor econômico da FecomercioSP, André Sacconato, a maior ferramenta para o varejista diante desse quadro é entender quais riscos podem ser administrados dentro de casa.

Em entrevista exclusiva à nossa reportagem, ele citou pontos relevantes como a redução à exposição cambial e uma atenção ainda maior à precisão da administração do estoque.
Confira abaixo a íntegra da conversa:
Novo Varejo – O tarifaço pelos Estados Unidos atingem diretamente a indústria. Mas por quais caminhos esse cenário também chega ao varejo brasileiro?
André Sacconato – Então, o varejo não vai passar incógnito sobre os defeitos das tarifas, embora as tarifas não sejam diretas. Se a gente for ver na indústria, o efeito é muito direto. O preço já sobe 50% um dia depois da tarifa. Mas o varejo tem outros canais de transmissão.
Por exemplo, o câmbio. Quando você tem incertezas internacionais, têm tarifas, você acaba tendo uma desvalorização da moeda, o que faz com que você tenha que dar mais reais para comprar produtos estrangeiros, mesmo que eles não mudem de preço lá. Isso impacta tanto a importação quanto a aquisição de insumos por parte da indústria, que repassa esse custo adicional para o varejo.
E, além disso, tem o frete, né? Que também acaba ficando mais caro.
Novo Varejo – Além desses efeitos sobre os custos, a instabilidade internacional também pode afetar o comportamento do consumidor brasileiro?
André Sacconato – Sem dúvida, esse efeito sobre o consumidor é um impacto indireto. Imagina o seguinte, o consumidor vê essas tarifas, vê essas brigas, essa desestruturação da globalização, e começa naturalmente a ficar com medo e menos propenso a consumir. Essa incerteza também tem um outro efeito importante, que é o encarecimento do crédito.
Novo Varejo – Nesse contexto, medidas domésticas de estímulo ao consumo conseguem compensar os efeitos de um cenário externo mais adverso?
André Sacconato – Na realidade, para ilustrar, vamos usar a pandemia. Quando você teve a pandemia e tudo ficou fechado, o governo tentou, alguns programas para tentar atenuar o efeito da pandemia. Crédito mais barato, facilidade de acesso, diminuição de impostos, etc. Mas isso são tudo efeitos paliativos.
O efeito principal da pandemia, ou seja, não vender, já aconteceu. E mesmo que o governo diminuísse a taxa de juros ou aumentasse o prazo, a pessoa ia ter que pagar aquele empréstimo. Eu vejo isso muito também nesse caso. Todos os programas do governo são paliativos. Eles tentam atenuar o efeito final de algo que é irreversível. Como a pandemia, eu não consigo convencer o governo Trump de que ele está errado, está fazendo besteira. Vai acontecer, independente da vontade do empresário e independente da vontade do governo brasileiro.
Então, todos esses programas são paliativos, eles só atenuam o efeito. Mas o efeito principal, quando nós falamos de, todos esses que eu falei vão continuar.
Novo Varejo – O varejo é bastante heterogêneo. Quais segmentos tendem a sentir primeiro os efeitos desse aumento da incerteza?
André Sacconato – Como nós falamos na primeira questão, quais são os caminhos em que essa crise chega no varejo? Câmbio, confiança do consumidor, crédito. Então, a gente começa a perceber que os setores que estão influenciados por uma compras ligadas a decisões de mais longo prazo vão ser os mais afetados.
Automóveis, linha branca e construção civil, principalmente – esses são os que sofrem os efeitos que são mais imediatos.
É óbvio que varejos ligados a compras mais básicas como os supermercados também são afetados em algum grau. As importações vão ficar mais caras, o custo do prédio vai aumentar e etc.
Novo Varejo – Para além da disponibilidade do crédito e do prazo do compromisso de compra, que outros fatores definem quais segmentos serão mais ou menos afetados?
André Sacconato – Na economia nós temos um conceito que chama elasticidade de preço.
Quando uma categoria é elástica, significa que pequenas variações de preço geram grandes variações do consumo. Já quando ela é inelástica, significa que grandes variações de preço geram pequenas variações de consumo. Ou seja, produtos inelásticos geralmente são produtos mais necessários.
Por exemplo, se o arroz, o feijão ou a a carne subirem muito, as pessoas vão fazer um esforço para não deixar de consumir. Então, assim, eles têm menos efeito de crise.
Por outro lado, se ela não trocar a televisão, não trocar a geladeira, ela não vai ‘morrer’. Ela vai ter menos prazer no consumo, sim, mas não vai sentir que tem um problema sério ao deixar de fazer aquela compra. Então, essas categorias acabam ficando muito mais sensíveis a preço.
Novo Varejo – Diante dessa instabilidade, o que está efetivamente ao alcance do varejista para reduzir sua exposição aos riscos externos?
André Sacconato – O primeiro passo é não se expor ao câmbio. Isto é, não fazer nenhum tipo de obrigação para daqui a um ano em dólar, ou se tiver que fazer por ter um negócio ancorado nas importações, precisa buscar fazer algum hedge no mercado financeiro. Por exemplo, comprar moeda estrangeira para garantir que, daqui a um ano, você não tenha um problema de caixa muito sério em caso de subida do dólar.
Outro ponto importante é trabalhar com o menor estoque possível, porque o estoque é custo. A ideia é trabalhar ao máximo com o conceito just-in-time e tentar diversificar fornecedores.
E um pouco mais do que isso é rezar (risos).
Novo Varejo – Essa diversificação de fornecedores já está acontecendo? Que mercados vêm ganhando espaço nesse movimento?
André Sacconato – Sim, a diversificação já é uma realidade, principalmente nas grandes redes. E o que eu chamo de diversificação? Geralmente, China. O varejista brasileiro está redirecionando muito das suas importações e exportações para a China.
E a China, muito esperta e percebendo esse espaço deixado pelos Estados Unidos, está fazendo um movimento contrário aos americanos. Ela está diminuindo algumas tarifas de importação em alguns produtos que são muito necessários para ela.
Novo Varejo – Mesmo quando o fornecedor está na China, o dólar continua necessariamente intermediando essas transações?
André Sacconato – O dólar ainda é uma moeda que faz intermediação mundial, mas como o Brasil já tem reserva em moeda chinesa e a China já tem reserva em moeda brasileira, hoje já é possível fazer transação sem o dólar.
Não são todos os países com os quais isso é possível, acho que, além da China, temos também a Argentina.
E, assim, tem algo além da moeda. Vamos supor que a negociação com a China fosse em dólar. Você tem o efeito do câmbio, mas não tem o efeito das incertezas do governo Trump.
Você sabe que a tarifa não vai aumentar ou diminuir hoje pra amanhã por conta de uma dor de dente ou porque o cachorro decidiu fazer xixi na casa.
Novo Varejo – Trazendo essa discussão para o varejo de autopeças, que já convive com uma presença relevante de produtos chineses, essa participação tende a crescer enquanto persistir a atual instabilidade comercial?
André Sacconato – Sim, sem dúvida nenhuma. Porque o governo Trump quer isolar a China, mas briga com os amigos dele que poderiam ajudar a isolar a China com movimentos como o tarifaço. É uma estratégia completamente sem sentido.
Então, a China, muito esperta e inteligente, percebeu isso. E, percebendo, ela abre os braços justamente para os países que o governo dos Estados Unidos está desestabilizando, caso do Brasil, do Canadá e até da Europa.
Então, enquanto tiver o governo Trump, a tendência é você ter um aumento das transações com a China.

