Casas Bahia e Marabraz se somam a uma lista de redes varejistas que enfrentam dificuldades para equilibrar dívidas, custos e fluxo de Caixa. Especialista explica os fatores por trás da crise
A Braskem protocolou recentemente um pedido de recuperação extrajudicial para reestruturar cerca de R$ 56 bilhões em dívidas. Na semana passada duas importantes empresas do varejo nacional recorreram à recuperação judicial: a Casas Bahia, para reestruturar dívidas de R$ 17 bilhões, e a Marabraz, com um passivo de R$ 140 milhões. São empresas que se somam a outras grandes redes que buscaram recuperações judiciais ou extrajudiciais nos últimos anos: Tok&Stok, Grupo Pão de Açúcar, Grupo Dia, St. Marche, entre outros. O especialista em direito tributário pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), Fabrício Tonegutti, explica como redes que vendem tanto podem entrar em uma crise tão grave.
“O faturamento alto não significa necessariamente lucro alto. Os varejistas trabalham com margens muito pequenas. Nos supermercados, por exemplo, a margem líquida média é de 2,9%. Em cada R$ 100 vendidos, sobram menos de R$ 3 depois do pagamento das despesas. Por isso, qualquer aumento de energia, aluguel, salários, transporte ou preço dos fornecedores pode consumir rapidamente esse lucro. A empresa tenta repassar a alta, mas os varejistas muitas vezes não criaram esse aumento. Ele é apenas a última ponta da cadeia a dar a má notícia ao consumidor. E existe um limite: se repassar tudo, pode perder vendas. Se não repassar, perde margem.”, pontua o diretor da Mix Fiscal, empresa com 20 anos de experiência em inteligência tributária para o varejo.
O profissional ainda esclarece o motivo da situação ter ficado mais grave justamente agora. “Os juros altos apertam os dois lados do balcão. Para a empresa, fica mais caro financiar estoque, capital de giro e dívidas antigas. Para o consumidor, as prestações também ficam mais pesadas. Mesmo depois da recente redução, a Selic ainda está em 14% ao ano. Ao mesmo tempo, 82% das famílias brasileiras possuem algum tipo de dívida. Isso não significa que todas estejam inadimplentes, mas mostra que boa parte da renda já está comprometida. Quase 30% têm contas atrasadas. Forma-se, então, um cabo de guerra: de um lado, custos e juros empurrando os preços para cima; do outro, um consumidor dizendo que não consegue pagar mais. As empresas mais endividadas, com muitas lojas e custos fixos elevados, são as primeiras a perder o fôlego”, afirma Fabrício.
Quando uma empresa pede recuperação judicial, não significa que ela quebrou. “Recuperação judicial não é falência. É uma tentativa de evitar a falência. A empresa procura a Justiça para negociar dívidas e continuar funcionando. Varejistas como Casas Bahia e Marabraz apresentaram pedidos. Tok&Stok e Mobly já tiveram o processamento autorizado. Mas recuperação é uma oportunidade, não uma garantia. O Dia fechou centenas de lojas, reorganizou sua operação e conseguiu encerrar a recuperação judicial. Já a Livraria Cultura não conseguiu se recuperar e encerrou as atividades. Para o consumidor, a orientação é simples: não deixe de pagar parcelas ou carnês por causa da recuperação judicial. Se o produto ainda não chegou, acompanhe o prazo e guarde nota fiscal, comprovantes e protocolos. Os direitos de entrega, troca e garantia continuam valendo. E qualquer pagamento ou renegociação deve ser feito somente pelos canais oficiais, porque momentos como esse também são utilizados para aplicar golpes.”, ressalta Tonegutti.

