Em artigo, o CEO e fundador da Food To Save, Lucas Infante, afirma que deixar de tratar desperdício como custo inevitável e abordá-lo de maneira estratégica e estruturada é chave que setor pare de depositar potencial lucro no lixo
No varejo, muitos ainda tratam o desperdício como inevitável, como se fosse um subproduto natural de comprar, armazenar e vender. Eu discordo veementemente. Perdas não são um acidente, mas reflexo direto de decisões operacionais, prioridades mal definidas e, em muitos casos, de uma cultura que ainda não entendeu que eficiência e sustentabilidade caminham juntas.

Os números mostram que o problema está longe de ser pequeno. Segundo a Organização das Nações Unidas, cerca de 30% de todos os alimentos disponíveis para consumo no mundo acabam sendo desperdiçados, o equivalente a 931 milhões de toneladas por ano, descartadas em residências, serviços de alimentação e varejo.
Além disso, o desperdício de alimentos responde por 8% a 10% das emissões globais de gases de efeito estufa, o que evidencia que o problema não é apenas econômico, mas também ambiental.
Ignorar esse cenário custa caro, como jogar lucro no lixo. No varejo, não se trata apenas de produtos descartados, mas de capital parado, energia e água consumidas sem retorno e reputação colocada em risco diante de consumidores cada vez mais atentos. Operar sem visão clara de onde os produtos entram, circulam e saem do estoque não é apenas arriscado, é negligente.
A boa gestão começa pela visibilidade. Negócios que monitoram com precisão seus fluxos de estoque conseguem identificar rapidamente onde estão as perdas e agir antes que elas se transformem em prejuízo. Sem dados confiáveis sobre o que entra, o que sai e o que sobra, o desperdício deixa de ser exceção e passa a ser parte do modelo operacional.
Outro erro comum é tratar excesso de estoque como prudência. Comprar “só para garantir” pode parecer uma estratégia de segurança, mas muitas vezes resulta no oposto: produtos que expiram antes de chegar ao consumidor. Com planejamento de demanda, uso de dados e logística mais inteligente, o varejo pode reduzir esse excesso e transformar o que antes era perda em oportunidades.
Nesse contexto, falar de sustentabilidade deixou de ser apenas uma questão de imagem. Integrar práticas ESG à operação é, cada vez mais, uma decisão estratégica. Reduzir perdas, criar rotas para redistribuição de excedentes e reaproveitar produtos que ainda têm valor comercial não é filantropia, é eficiência.
O consumidor também mudou. Hoje, cada vez mais pessoas observam não apenas o preço, mas o impacto das empresas com as quais escolhem se relacionar. Negócios que demonstram transparência sobre suas práticas e assumem compromissos reais com a redução do desperdício tendem a fortalecer a confiança e a fidelização.
Existe ainda um ponto pouco explorado: excedentes não precisam ser prejuízo. Produtos que sobram podem ser redirecionados para canais alternativos de venda, redistribuição ou doação estruturada. Quando bem gerido, aquilo que antes era descartado pode se transformar em receita adicional, impacto social positivo e redução de custos operacionais.
Desperdício, portanto, não é inevitável, é uma escolha operacional de jogar lucro no lixo. Empresas que passam a enxergar eficiência e sustentabilidade como parte da mesma estratégia não apenas reduzem perdas. Elas fortalecem sua marca, se conectam com consumidores mais conscientes e constroem um modelo de negócio mais resiliente para o futuro.

