Evento reuniu mais de 150 executivos para discutir como o crédito no varejo se tornou um dos principais motores de crescimento e fidelização do setor
“O grande desafio do varejo não está no novo, mas em como fazer o novo conviver com o
legado”. A provocação feita por Paula Mazanék, CEO da Realize, durante um dos painéis do
Crédito Digital 2026, resume bem o tom do evento realizado pela GIRO.TECH, no último
dia 25 de março, no Cubo Itaú, em São Paulo.
Com uma proposta mais técnica e aprofundada, a segunda edição do evento reuniu mais
de 150 profissionais entre varejistas, C-Levels, executivos financeiros e líderes de produto
e tecnologia.
O encontro trouxe discussões práticas sobre como estruturar, escalar e rentabilizar
operações de crédito no varejo, em um momento em que a digitalização deixa de ser
tendência e passa a ser uma necessidade competitiva.
Do crediário físico ao digital: a evolução que impulsiona vendas
A abertura do evento ficou por conta de Alex Marques, Diretor Comercial da Data
System, que trouxe uma visão clara sobre como o crediário continua sendo uma alavanca
relevante de crescimento, principalmente quando combinado com tecnologia.
Em sua palestra, Marques apresentou dados que mostram que os varejistas que mais
cresceram em 2025 têm forte presença do crediário. Em 80% dos casos, ele chega a
representar a maior parte do faturamento.
O Diretor Comercial da Data System também trouxe outro dado relevante, sobre o impacto
no ticket médio: no varejo de moda e calçados, compras realizadas no crediário chegam a
ter um valor até 60% maior em comparação ao cartão de crédito, reforçando o papel desse
meio de pagamento como alavanca direta de faturamento.
A principal mudança do modelo físico para o digital está na jornada. No modelo tradicional,
o crédito é operacional e reativo. Já no modelo digital, ele passa a ser proativo, integrado à
jornada do cliente e disponível de forma instantânea, com limite pré-aprovado e uso
omnichannel.
“O crediário digital traz conveniência para o cliente e aumenta diretamente a capacidade de
venda do varejista”, destacou. Segundo Marques, o varejista que deseja potencializar suas
vendas, deve olhar para as possibilidades que esse novo modelo traz.
Pix, dados e Open Finance: a nova infraestrutura do crédito
Outro destaque foi a palestra realizada por Victor Duek, Co-fundador da Iniciador, que
destacou a evolução do Pix na concessão de crédito no varejo, que deixou de ser
apenas um meio de pagamento e passou a atuar como infraestrutura financeira.
Com crescimento relevante nos últimos anos (34% no período de 2024 a 2025), o Pix já
deixou de ser apenas meio de pagamento e passou a influenciar diretamente a forma como
o crédito no varejo é estruturado ao:
● Reduzir custos transacionais
● Diminuir a dependência da antecipação de recebíveis
● Permitir liquidação imediata ao varejista
Na prática, a combinação do Pix com o Open Finance abre espaço para um novo modelo
de concessão de crédito baseado em dados, ampliando acesso e eficiência.
“Não é mais necessário ser banco para participar do Open Finance. Novas funcionalidades
do Pix, como Pix automático, por aproximação ou biometria contribuem para as estratégias
de Embedded Finance”, ressaltou Victor Duek.
Para ele, quem controlar os pagamentos e dados financeiros no varejo controlará a próxima
geração de crédito ao consumidor.
Crédito do Trabalhador: a nova fronteira do varejo financeiro
Entre os novos produtos discutidos, o crédito Consignado Privado, viabilizado pela carteira
de trabalho digital, aparece como uma das maiores oportunidades do momento, sendo tema
da palestra de Ronaldo Oliveira, CEO da GIRO.TECH.
Segundo o Governo Federal, aproximadamente 12,2 milhões de contratos de crédito
Consignado Privado foram registrados em 2025, com as contratações beneficiando cerca
de 7,1 milhões de trabalhadores.
O novo modelo do Crédito do Trabalhador passou a operar dentro de uma infraestrutura
centralizada mais aberta.
Assim, o trabalhador autoriza o uso dos seus dados, disponibiliza sua margem consignável
e passa a receber propostas de diferentes instituições financeiras, podendo escolher a
melhor condição para contratar o crédito.
Com um mercado estimado em centenas de bilhões de reais, o modelo se destaca por:
● Baixo risco de crédito
● Alta taxa de aprovação
● Taxas mais competitivas
● Potencial de nova receita para o varejo
Para Ronaldo Oliveira, o crédito com desconto em folha representa uma oportunidade
estratégica para os varejistas que buscam criar novas fontes de receita através de
produtos financeiros.
Em sua visão, o Crédito do Trabalhador surgiu de uma demanda por inovação, sendo o
produto mais estratégico do momento, pois resolve um dos principais desafios do setor:
oferecer crédito com escala e controle de risco.
Velocidade, experiência e dados como diferencial competitivo
Os painéis também exploraram como a tecnologia vem transformando a relação entre
varejistas e clientes.
Os cases apresentados por varejistas como Studio Z, Tenda Atacado e Koerich
reforçaram um ponto em comum: a experiência do cliente é o principal fator de sucesso.
“Olhar a jornada com os olhos do cliente destrava muita coisa e faz com que gere mais
valor para o negócio”, destacou Sérgio Abel, Gerente de TI da Vox, braço financeiro do
Tenda Atacado.
Fábio Calabria, Gerente de Produtos Financeiros da Kredilig, braço financeiro da Lojas
Koerich, resumiu: “O cliente quer evitar constrangimento. Quando ele passa a ser assistido
de ponta a ponta, é possível identificar clientes com perfis totalmente diferentes. Isso deixa
as consultas mais rápidas e a oferta de crédito mais personalizada”.
Isso vai de encontro com a fala de Waldemar Oliveira, CTO da Studio Z, que destacou
que a participação do cliente no e-commerce foi de 5% para 20%: “O cliente está no
checkout. A Studio Z melhorou essa jornada, com biometria em 30 segundos, é possível
fechar uma compra. O cliente da financeira vem 2 vezes mais à loja. É um cliente fidelizado,
que o varejista tem contato”.
Oliveira também deixou um conselho aos CTOs do varejo que desejam implantar um
aplicativo de crédito digital: “Vocês devem treinar as lojas para implantar essa tecnologia,
preparar a área de dados, identificar o CPF e trackear ele. Isso ajuda a identificar os
gargalos e facilita o processo de transação, da compra até o pagamento final”.
Buy Now, Pay Later: o equilíbrio entre crescimento e risco
O tema também apareceu com força no painel Buy Now, Pay Later: Case Casas Bahia e
Lojas Renner, que trouxe uma das discussões mais profundas do evento, especialmente
sobre os desafios da digitalização do crédito.
Um dos principais pontos foi a semelhança estrutural entre o crediário tradicional e o
BNPL, com a grande diferença sendo o uso intensivo de dados e tecnologia no digital.
Felipe Teixeira, Diretor de TI das Casas Bahia, destacou que 55% dos clientes vão até à
loja para pagar o carnê, mas que o cliente digitalizado não tem essa proximidade. Por
isso, a tomada de decisão precisa ser instantânea, com o menor atrito possível.
No caso da Lojas Renner, a transformação digital exigiu a construção de uma jornada
integrada entre a loja física e online, garantindo consistência na experiência do cliente.
Paula Mazanék, CEO da Realize, reforçou um ponto central: o crédito precisa servir ao
varejo, e não o contrário.
“O core da financeira não é produto. É o cliente, o relacionamento e o contato que ninguém
tem”.
A CEO da Realize também fez um alerta importante sobre risco. Para ela, o varejista não
deve tentar “virar banco”, pois uma instituição financeira pode quebrar o varejo se não
for bem administrada. A gestão de risco é algo crítico, por isso, o varejista precisa
entender o que o cliente se interessa e o que ele vai comprar.
Além disso, Fábio Chamon, Head de Parcerias Estratégicas da MAPFRE também
destacou a importância de parceiros estratégicos na concessão do seguro prestamista.
Na visão do executivo, a oferta de seguros em uma jornada digital não deve ser um
obstáculo. Por isso, o seguro deve ser do varejista, mas pensado e personalizado para o
seu cliente.
Ao longo de todo o evento Crédito Digital 2026, um consenso ficou claro: o futuro do
crédito no varejo não está no produto, mas na capacidade de entender o cliente.
Isso se traduz em ofertas personalizadas, integração entre canais, uso inteligente de dados
e produtos financeiros contextualizados, pois quem dominar o cliente, dominará o crédito, e
não o contrário.

