Paredão de som se populariza como instrumento de democratização do entretenimento popular

O Paredão de som Megatron
Foto: Divulgação/Club 3

Das festas de pagodão e arrocha no nordeste aos chamados ‘fluxos’ do estado de São Paulo, o paredão de som tem se tornado mais do que apenas um aparelho destinado a tocar os hits das estrelas da música e se consolidando, em si mesmo, uma própria estrela.

Seu tamanho é imponente – podendo chegar a até quatro metros de altura e outros três de largura, e sua estrutura é composta por um conjunto de mais de 80 caixas de som enfileiradas conta também com luz neon e outros penduricalhos estéticos para chamar a atenção dos presentes na festa.

Como diria o consagrado poeta brasileiro João Cabral de Melo Neto, no entanto, esses acessórios destinados a impressionar pelo visual são ‘mera perfumaria’. Afinal, a essência da rosa em si está no barulho estrondoso que o paredão de som é capaz de reproduzir.

Do mais simples ao mais sofisticado, todos eles têm a capacidade de ultrapassar com conforto a medida dos 120 decibéis, número que ultrapassa em muito o não-recomendado volume de 75 decibéis que, de segundo o Ministério da Saúde, é capaz de provocar perda de audição se experimentado por 8 horas diárias.

O paredão de som e a cultura automotiva

O paredão de som faz parte da chamada cultura automotiva

Muito antes de ser protagonista de festas na rua e até a atração principal de casas de show em diferentes localidades do território brasileiro, o ponto originário daquilo que hoje é conhecido como ‘paredão de som’ já embalava as festas de cidadãos em busca de diversão urbana, além de ser utilizado pelos mais diferentes objetivos.

Em seu núcleo, esse equipamento de som hoje glamourizado na cultura pop dos jovens é uma espécie de ‘som de carro hiper-envenenado’, não apenas por ser utilizado até hoje nas caçambas dos automóveis, mas por carregar em seu DNA a tradição iniciada pelos veículos.

A cultura da utilização do sistema de som dos automóveis para além dos limites auditivos de seus tripulantes se consolidou ao longo do século XX no país ao permitir que as pessoas passassem mensagens diversas para um grande número de pessoas.

Essa capacidade de veicular mensagem em massa atraiu, por exemplo, o interesse de políticos e comerciantes.

Os primeiros usavam do som automotivo para disseminar suas propostas pelas ruas das cidades a partir de discursos e jingles que pudessem reforçar suas chances de sucesso no pleito que se aproximava.

Já os segundos tinham a propaganda como suas mensagens. Promoções, sortimento de produtos à venda, endosso da qualidade desses produtos, mudanças excepcionais no horário de funcionamento do comércio… Tudo podia ser comunicado a partir de um som relativamente potente de um carro.

Mais do que esses ‘primos distantes’ do paredão de som, porém, a utilização da sonoridade automotiva para festejar, reunir os amigos e até ostentar é que marcou época em diferentes décadas.

Muito antes do quase-glamour dos bailes funk, veículos com os porta-malas abertos na frente de bares e adegas já faziam sucesso das capitais até as cidades mais interioranas – predominantemente nas regiões sudeste e nordeste.

Tamanha representatividade do som automotivo para a cultura nacional e propulsor da consolidação de ritmos que transpuseram os limites de seu estado para se tornarem nacionais como o paraense tecnobrega ganhou importante documentação formal no dia 4 de setembro do ano de 2017.

Nesta data, a Câmara Municipal da cidade de Belém reconheceu o som automotivo como patrimônio cultural e imaterial da cidade – reconhecimento que citou em sua dissertação de justificativa uma referência às competições de potência sonora e estilização, duas das características intrínsecas à natureza do que hoje é o paredão do som.

Além de ganhar da esfera institucional o reconhecimento que há muito já o é concedido pela cultura popular, a inclusão do som automotivo na galeria dos patrimônios culturais da cidade representou um verdadeiro giro de 180º em relação ao cenário com o qual lidava há pouquíssimo tempo, em 2011.

Naquela época, ouvir o som do carro a qualquer volume que o permitisse sair do ‘ambiente interno’ chegou a ser proibido pela mesma Câmara Municipal.

Autor do projeto que impulsionou essa mesma câmara a alterar drasticamente sua postura e referendar o som automotivo seis anos depois – o autor do projeto, vereador Mauro Freitas afirmou, afirmou que os cuidados com os excessos não implica na proibição total do som automotivo recreativo, comercial ou festivo, podendo ser atendido a partir de uma maior fiscalização dos limites de 80 decibéis estabelecidos pela legislação local.

Paredão de som: do nascimento ao apogeu atual

O equipamento de som é importante para a qualidade do aúdio.

Os ‘super-sistemas sonoros’ em que se constituem os paredões de som definitivamente revolucionaram o lugar dos automóveis na cultura festiva de diversas localidades do território brasileiro.

Não sem razão, a temática tem ganhado cada vez mais a atenção de pesquisadores e instituições acadêmicas sobre sua relação com as transformações sociais borbulhantes no país.

Um dos principais exemplo dessa penetração do paredão do som na academia é o artigo “‘Baixaria’: O Paredão-Dispositivo”, produzido pelo antropólogo e professor da Universidade Federal do Recôncavo Baiano – Osmundo Pinho.

O artigo documenta aquilo que, segundo seu autor, foi um dos primeiros aparecimentos notórios do Paredão de Som em uma festa no estado da Bahia – no ano de 2009.

Em seu trabalho, Pinho descreve o paredão como um aparelho que emite som ensurdecedor que – ao reproduzir o ritmo do ‘Pagodão Baiano’ – é capaz de criar um ambiente de vibração e sensualidade de maneira móvel.

“O Paredão de pagode, com sua estrutura móvel, portátil, opera como um dispositivo (…) que produz a sua própria ambiência. Convencionalmente conectado ao chamado ‘som-automotivo’, a estrutura tecnológica de produção do som em grande potência destina-se a amplificar e espetacularizar a experiência (…) em condições de mobilidade”, afirmou Pinho – antes de complementar com relatos dos locais nos quais o paredão se popularizava à época.

“Na praia, nos finais de semana, em postos de gasolina, ou como eu testemunhei tantas vezes na orla da Ribeira, em Salvador, onde centenas de jovens se reuniam para dançar pagode, beber e se divertir ao som dos carros”.

Desse surgimento surgido no final da primeira década do século XXI para os dias atuais – muita coisa mudou.

A febre do paredão de som como amplificação do sistema de som dos veículos automotivos e não mais apenas em estruturas profissionais de show como o cenário do icônico DVD da cultura funk ‘Furacão 2000’ transpôs os limites do pagode nordestino e se tornou personagem central de outro ritmo que tem por característica ser canal de expressão da população de periferia – em sua maioria negra: o funk.

Sem possuir poder aquisitivo e, ainda mais profundo que isso, sem realmente ‘pertencer’ ao ambiente social do centro expandido paulistano e suas baladas – a população de periferia passou a utilizar ritmos nascidos de sua cultura como o rap e o funk para criar seu próprio nicho de entretenimento, onde a comunidade pudesse se congregar.

Dentro desse contexto, primeiro os paulistanos – e depois os paulistas do interior do estado – passaram a promover festas ‘espontâneas’ nas ruas do bairro em que moravam, em eventos que hoje são universalmente conhecidos como ‘fluxos’.

Muitos sons automotivos vão acoplados a engates.
Foto: Divulgação/MN Sound Blog

Pela característica do ambiente em que ocorriam – a rua, onde quase nunca existem questões básicas de estruturas como uma tomada com ligação à energia elétrica, possuir mecanismos sonoros móveis era questão imperativa.

Os carros rapidamente passaram a ser a primeira opção. Afinal, como contamos no início desse texto, eles já faziam esse papel nas esquinas de bares e adegas Brasil afora.

Tamanha a proporção que esses fluxos ganharam a partir da metade da década de 2010, porém, fez com que somente o ‘som automotivo tradicional’, ainda que potente, passasse a não dar conta de produzir o ambiente que aquela grande concentração de pessoas demandava.

A união de diversos carros com seus porta-malas abertos, competindo entre si não apenas em volume – mas também na música tocada, até foi solução temporária – mas rapidamente aquele ambiente de ‘confusão’ impulsionou os participantes a procurarem solução mais eficiente.

Foi nesse momento que o paredão de som chegou e logo se tornou atração indispensável nos fluxos mais badalados.

Como, embora não pertencerem ao ambiente interno do carro – esses paredões são projetados como uma espécie de ‘plug-in’, uma extensão à composição do veículo – foram os varejos e oficinas especializados em som automotivo os ‘herdeiros’ desse novo e promissor mercado.

Lojas hoje rebatizadas para enfatizar suas atuações no mercado de paredão de som como a ‘Sound Pancadão’ e a ‘Paredão Megatron’ são exemplos de varejo que iniciaram suas trajetórias como estabelecimentos tradicionais do setor de som automotivo e, percebendo a oportunidade, acoplaram a nova atração em seus sortimentos de produtos.

Em entrevista concedida ao portal Kondzilla, o proprietário da segunda – Helber Dias, conta que está no ramo de som de carros há mais de 15 anos – quando seu pai montava sistemas de som até hoje conhecidos como ‘Bazuca’.

“Ele quem começou essa paixão, daí eu e meus irmão seguimos. Hoje temos o [paredão] Megatron. Começamos num Gol e agora temos um caminhão”, relatou Dias em reportagem que destaca a ‘invasão’ do paredão de som na cidade de São Paulo.

O paredão produzido pela empresa de Dias, aliás, conta hoje com o equipamento mais famoso e cobiçado pelos admiradores do funk em todo o país.

‘Megatron’, como é chamada a estrutura luminosa e que tem mais de 100 caixas de som acopladas a ela, vem sendo cantada como uma espécie de ‘iguaria rara’ por funkeiros e só nos últimos dois anos foi citada por dois hits de grande sucesso do ritmo: “Rave do Megatron”, de MC GW; e ‘Bailão’, parceria de MC Kevin e MC Davi.

O sucesso do paredão de som ‘Megatron’ é tamanho que a página oficial da atração na rede social Instagram conta com mais de 60 mil seguidores.

Legislação de trânsito coíbe o uso

A legislação no Brasil não é favorável aos proprietários desses sons automotivos de grande proporção.
Foto: Divulgação

Apesar do grande sucesso popular da utilização do som automotivo como alimentador de estruturas que o propaguem a um número extenso de pessoas em locais abertos – estruturas estas conhecidas popularmente como ‘paredão de som’, o aparato tem contado com resistência severa de legisladores.

Sob a justificativa de que ele incentiva o distúrbio da ordem e do conforto urbano, o paredão de som teve sua utilização vedada pelo Conselho Nacional de Trânsito (Conatran) no ano de 2019.

A resolução – publicada no Diário Oficial do Governo Federal – foi peremptória ao deixar claro que a estrutura tem sua utilização permanentemente proibida independentemente do volume sonoro que está produzindo no momento. Ou seja, ainda que respeite os 80 decibéis máximos determinados pela maioria dos municípios do país.

“Fica proibida a utilização, em veículos de qualquer espécie, de equipamento que produza som audível pelo lado externo, independentemente do volume ou frequência, que perturbe o sossego público, nas vias terrestres abertas à circulação”, estacou a resolução.

Como punição àqueles que desobedecerem a nova regra, o Conatran tipificou a prática como ‘infração grave’ – que custa ao proprietário do veículo 5 pontos em sua carteira de habilitação, multa em um valor de R$ 195,23 e retenção do veículo.

Na prática, além de determinar a proibição ampla da utilização do paredão de som – independente de seu volume – o fato do equipamento passar a ser considerado uma infração de trânsito tem efeito direto sobre a capacidade das instâncias governamentais fiscalizarem sua utilização.

Antes da medida, a maioria das cidades delegavam às suas secretarias de urbanismo a missão de fiscalizar e apreender possíveis irregularidades advindas desse ‘mega-som automotivo’. A partir da resolução do Conatran, em 2019, essa tarefa passou a ser de responsabilidade também dos agentes de trânsito.

O custo para se fazer um paredão de som

Um pequeno paredão de som.
Foto: Divulgação

Apesar de representar uma espécie de ‘democratização do entretenimento’ ao criar verdadeiros clubes de festa em ruas e calçadas, os paredões de som – enquanto equipamentos – não são lá assim tão acessíveis à média da população nacional.

De acordo com o portal Kondzilla, o dinheiro investido nesse tipo de equipamento gira em torno de R$60 mil, entre a chamada carretinha (que dá suporte ao paredão), a parte elétrica do equipamento e as próprias caixas de som.

“Se tratando de um equipamento pesado, o veículo que carrega a carretinha não pode ser qualquer um – daí já vem mais um dinheiro pra investir”, afirma o site.