Pandemia acelerou mudança dos meios de pagamento no varejo

CARLOS THADEU DE FREITAS GOMES*

adesão ao Pix vem crescendo exponencialmente. Em 7 de julho, o volume de transações atingiu a máxima de R$ 31,3 bilhões, superando o recorde anterior de R$ 27,9 bilhões transacionados em um único dia, no final de junho. O dado é um bom indicativo da aceitação da população às modernidades implementadas pelo Banco Central (BC) no sistema de financeiro, e indica ainda como o cliente bancário estava mal atendido ao pagar taxas elevadas nos moldes tradicionais de transferências, pagamentos, e demais serviços.

O fato de ser o BC a instituição operacionalizadora e garantidora do Pix dá maior credibilidade ao sistema, é mais um motivo para que os cidadãos recorram ao sistema. Em junho deste ano, mais de 626 mil transações foram feitas pelo Pix, aumento de 1.767,9% em relação às 33 mil realizadas em novembro de 2020, quando o sistema foi implementado.

A facilidade do Pix, como também o maior uso da tecnologia e das redes sociais, acirrados durante a pandemia, explicam a adaptação cada vez mais rápida das pessoas ao Pix, e o ganho de importância em relação aos demais meios de pagamentos. Já em maio, o Pix foi utilizado na maioria das transferências de crédito, representando 57,2% do total de operações, enquanto em novembro do ano passado representava 5,4%.

A maior quantidade de transações via Pix vem se dando na região Sudeste, que responde por 48,7% das operações no sistema, enquanto na região Norte, temos o menor percentual de transações, 8,3% do total. Contudo, o Norte teve um aumento de 1,4 pontos em relação ao observado no início de sua implantação.

O uso do Pix pelo varejo também é crescente. Segundo estudo realizado pela Fecomércio de Minas Gerais, 55,6% das empresas mineiras do comércio varejista já utilizam o Pix, número bastante representativo.

A vantagem mais relevante para o empresário de pequeno porte hoje é a melhor dinâmica no fluxo de caixa da empresa, com recursos disponíveis na conta no ato do pagamento. Esse benefício será ainda maior com o Pix cobrança e o Pix garantido.

Além de organização financeira mais eficiente, também já comentamos neste espaço sobre o caso das lojas que estão no e-commerce. Para elas, o Pix traz um ganho adicional na gestão dos estoques, em que os pagamentos das compras online via Pix otimizam a rotatividade dos produtos nas prateleiras.

O Pix Cobrança entrou em operação neste 2º semestre e permite que a empresa agende um Pix para pagamento em data futura, incluir juros, descontos e outros abatimentos. O Pix Garantido vai em breve possibilitar o parcelamento das compras via Pix e será um grande concorrente para o cartão de crédito, acelerando ainda mais a adesão ao sistema instantâneo de pagamentos.

Considerando que grande parte dos consumidores utilizam o pagamento a prazo (com 82% das famílias brasileiras endividadas no cartão de crédito hoje) o comércio deve ter um grande incremento de negociações quando essa modalidade estiver em funcionamento, o que deve acontecer no 2º trimestre do próximo ano.

Um dos efeitos dessa revolução digital nos meios de pagamento é a redução da utilização do papel moeda, a qual caiu 4,8% em 2 de julho, relativamente ao mesmo dia do ano passado. Com isso, o estoque de moeda na poupança vem aumentando, e em maio de 2021 estava +10,8% acima do que em maio de 2020. Isso acontece pela mudança de hábitos e comportamentos das pessoas, mas especificamente pela facilidade que o pagamento instantâneo traz, aumentando a velocidade de circulação da moeda.

A implementação do Pix veio no momento certo, pois incentiva o consumo em uma fase ainda cautelosa na economia. O último dado do comércio divulgado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), mostra que o volume de vendas do varejo ampliado cresceu 3,8% em maio, pelo segundo mês consecutivo. E a adesão acelerada ao Pix ajuda a explicar esse resultado, que está em conjunto com o aumento nos índices de mobilidade no país, bem como as bases de comparação baixas em maio do ano passado.

Os brasileiros convivem em um mundo cada vez mais digital, e a pandemia apenas acelerou toda a agenda do Open Finance. O Pix é uma parte desse novo arranjo, que vai somar ao Open Banking e à moeda digital do BC.

O potencial dessas transformações é evidente com o incremento no uso da tecnologia e das redes sociais. No início dos anos 1920, 35% das casas nos Estados Unidos possuíam telefones, e levou mais de 40 anos para as linhas telefônicas estarem em 80% dos domicílios norte-americanos. Em contrapartida, a internet alcançou o mesmo percentual de adoção no país em 13 anos. Mais recentemente, smartphones e mídias sociais alcançaram a mesma participação em menos de uma década, como mostrado pela diretoria do FED do Estados unidos, ainda em dezembro de 2019.

Por aqui, o Banco Central está se reposicionando, deixando de ser o financiador de última instância do mercado, e se conduzindo para ser o garantidor de todas as operações financeiras. Isso em consonância com a autonomia conquistada recentemente.

A adaptação ao Open Finance no Brasil será uma revolução no mercado financeiro, no crédito, nos juros, na forma como as pessoas e empresas transacionam bens e serviços. Os bancos tradicionais já estão repensando, reorganizando seus modelos de negócios, e cooperando entre si, pois estão ávidos para captar investidores e mostrar esses novos modelos aos clientes. E a sociedade já sente os ganhos de toda a disrupção que estamos experimentando.

* é economista-chefe da CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo)