Nunca visto no Brasil: Reliant, a marca das três rodas

Nunca visto no Brasil, o Reliant. A marcas das três rodas fez fama no Mr.Bean com seus modelos peculiares.
Por Bruno Núñez

Eternizado por alguns programas de TV de maneira cômica, por conta dos seus modelos de três rodas, a Reliant Motor Company foi uma montadora britânica que esteve ativa entre 1935 e 2002. As aparições desses automóveis em Mr. Bean e Top Gear criaram uma fama ambígua para a fabricante, que produziu carros curiosos e estranhos para olhares mais conservadores, mas também construiu uma legião de fãs fiéis a esses veículos, principalmente no Reino Unido.

Para saber mais sobre a Reliant, entramos em contato com Elvis Payne. Membro do The Reliant Motor Club, clube de entusiantas da marca no Reino Unido, ele escreveu diversos livros sobre o fabricante. Você conhecerá mais sobre esses veículos na série Nunca Visto no Brasil do Novo Varejo.

O início da Reliant foi no ano de 1935, quando Tom Lawrence Williams, ex-funcionário da Raleigh Bicycle Company, marca que criou veículos de três rodas até 1934, resolveu criar seu primeiro protótipo em seu jardim junto a E. S. Thompson. Seu antigo empregador decidiu parar a fabricação de carros com três rodas por achar uma ideia não muito rentável, porém Williams acreditava no conceito e decidiu continuar por conta própria.

O protótipo que inaugurou a marca era uma van de três rodas com chassi de aço e uma estrutura de madeira com painéis de alumínio. Dizem que, como Williams havia usado muitas peças da Raleigh, algumas delas estavam estampadas com a letra R e, portanto, o nome Reliant foi concebido para corresponder à inicial. A partir daí, a montadora fez fama com seus modelos “únicos”, como o Regal, o mais produzido pelos britânicos em suas fábricas.

“No total foram fabricados cerca de 220.500 veículos entre os anos de 1935 e 1998. O modelo mais produzido pela marca foi o Regal, veículo de três rodas, com aproximadamente 110 mil unidades dele. A Reliant tinha sua principal planta industrial em Tamworth, Staffordshire, no Reino Unido, além de outros dois lugares menores, um focado em motores e eixos e outro em carrocerias”, conta Payne.

O Reliant Regal foi eternizado na cultura por conta de programas e filmes.
O Reliant Regal

Fabricado entre 1953 e 1973, o Regal foi eternizado na cultura por conta de programas e filmes. Na série Mr. Bean, o protagonista, dono de um Mini Cooper, rivaliza com o proprietário de um modelo de três rodas da Reliant, criando situações cômicas por conta da suposta falta de instabilidade do veículo, como capotar sem fazer muito esforço. O filme Carros 2 também retrata um personagem baseado nesse veículo. Além disso, uma unidade desfilou no encerramento dos Jogos Olímpicos de 2012, em Londres.

Sobre Mr. Bean, Elvis Payne mostra que existiram sentimentos diferentes às esquetes do humorístico: “Há duas visões sobre isso, alguns acham que isso prejudica a imagem do carro e outras acreditam que é sempre bom ver um Reliant na TV. Quando os veículos ainda estavam sendo fabricados, há evidências de que, quando esses programas eram vistos, as vendas da marca aumentavam. Portanto, mesmo que possam ser tratados como uma piada naquela ocasião, isso contribuiu no conhecimento sobre a companhia e no desempenho comercial desses automóveis”.

O sucessor do Regal também causou muito impacto. Fabricado desde 1973, o Robin foi um dos automóveis feitos de fibra de vidro mais populares da história. Algumas versões contavam com um motor de 850 cc que fornecia uma aceleração de 0 a 100 em 14 segundos, alcançando a velocidade máxima de 135 km/h. No programa Top Gear, o jornalista Jeremy Clarkson fez um teste com o carro, e capotou diversas vezes. Depois, o próprio apresentador assumiu que o veículo tinha sido modificado para “virar” com mais facilidade.

O Reliant Robin foi o sucessor do Regal na marca.

Algo que contribuiu para a popularização dos modelos de três rodas da Reliant foi que eles acabaram não sendo considerados automóveis pelas autoridades do trânsito. “No Reino Unido o veículo acabou sendo tributado como uma motocicleta, isso deixou o imposto e o seguro mais baratos. Além disso, o custo de operação era extremamente baixo”, afirma Payne. Depois do Robin, a marca lançou o Rialto, produzido entre 1985 e 1998.

As três rodas não foram as únicas que moveram a Reliant. Carros convencionais, com quatro rodas, também fizeram parte do catálogo da empresa. “O esportivo Scimitar GTE foi bem nas vendas. A montadora chegou a fazer veículos pequenos e econômicos de quatro rodas, como o Rebel e o Kitten, embora eles não tenham sido um sucesso. A companhia faturou muito mais com os carros de três rodas”, analisa o entusiasta da marca.

O Reliant Scimitar GTE sai do padrão da marca. É um esportivo de quatro rodas.
O Reliant Scimitar GTE

A Reliant não arriscou apenas construindo carros fora do seu padrão. A marca não quis ficar presa apenas ao mercado britânico e se expandiu. Payne explica que a montadora foi importante na formação da indústria de países da Ásia: “Ela exportou carros para o mundo todo. Os primeiros veículos a serem fabricados em Israel e na Turquia foram desenhados e desenvolvidos pela marca. A companhia criou um pacote completo industrial de motores para a produção de automóveis nessas nações”.

Os anos 90 foram um período turbulento para a Reliant, que foi colocada sob um administrador de falência em 25 de outubro de 1990 e teve diversos proprietários temporários. Em 1996, a marca foi comprada por “um consórcio de empresários” liderado por Jonathan Heynes. Desse ponto em diante, os negócios haviam retornado ao normal e, no final de agosto daquele ano, a produção do Robin havia retomado. A fábrica de Tamworth foi fechada no final de 1998 e em janeiro de 1999 a empresa mudou-se para novas instalações em Burntwood, também no Reino Unido. Após um anúncio em 2000, a montadora deixou de fabricar veículos de três rodas em fevereiro de 2001.

O último capítulo da marca começou em abril de 2001. A Reliant mudou suas instalações para Cannock, no Reino Unido, e no mesmo mês a B&N Plastics anunciou que continuaria a fabricar o Reliant Robin (agora chamado Reliant Robin BN-1) sob licença da montadora. A produção começou oficialmente em 30 de abril de 2001, com os veículos sendo lançados oficialmente em 12 de julho de 2001. Infelizmente, devido a vários problemas, a produção foi suspensa no final de 2002 e nenhum outro veículo Reliant foi fabricado.

O Reliant Robin teve diferente versões durante o período que foi fabricado.
Uma das últimas versões do Reliant Robin.

O fim da Reliant não significou o fim do legado desses veículos. “Definitivamente, há muita nostalgia, mas muitos vêem injustamente o Robin como uma “piada”. Felizmente, existem muitos entusiastas da Reliant, com muitos deles possuindo mais de um modelo da marca, que ajudam a manter os veículos na estrada. Você pode encontrar os Reliant em muitos museus ao redor do mundo. Também há vários clubes dedicados ao Reliant, como o Reliant Motor Club no Reino Unido”, explica Payne.

Sobre os Reliant, Payne afirma que muitos ficariam espantados, de maneira positiva, ao dirigir um modelo de três rodas. “Acho que as pessoas geralmente esperam um veículo muito básico, embora quando se sentam em um, especialmente os últimos Robins, ficam surpresos com esses carros e como são bem equipados. Dirigir um automóvel de três rodas Reliant é como dirigir qualquer outro carro, embora você só precise se lembrar de que existe apenas uma roda na frente e não duas. O maior problema é a percepção da mídia, retratando-os como instáveis. A maioria das pessoas que falam sobre o Reliant ser inseguro e instável nunca conduziu um deles. Dirigido adequadamente com 3 rodas é tão seguro quanto qualquer outro carro”, finaliza.