Mercado de autopeças está favorável às gigantes globais

Por Claudio Milan

Esta é a avaliação de Edison Vieira, gerente de Marketing da recém-chegada DRiV, que fala também sobre os planos da empresa para o Brasil e analisa outras tendências do mercado de reposição

NOVO VAREJO – O que o mercado precisa saber sobre a chegada da DRiV ao Brasil?

EDISON VIEIRA – Com a DRiV surge uma nova empresa, mas com marcas que contabilizam mais de 100 anos de existência. É originária da aquisição da Federal-Mogul pela Tenneco. A DRiV já nasce como uma das maiores do aftermarket global e vai focar principalmente em peças de suspensão, com toda a solução que nós temos somando os produtos da Tenneco mais os produtos originários de outras empresas globais do grupo, como MOOG, Champion e FP Diesel.

NV – A DRiV complementa ou substitui o portfólio da Monroe?

EV – Os produtos advindos da aquisição da Federal-Mogul complementam o nosso portfólio. Além dessa complementação, a DRiV contribui também com produtos que nós podemos fornecer ao mercado nacional a partir de importação, como, por exemplo, bieletas ou bandejas trazidas da Europa para atender carros europeus. Com isso, a DRiV vem para agregar.

NV – O Brasil tem recebido marcas novas e muitas indústrias estão apresentando diversificação de portfólio. Existe mercado para todo mundo?

EV – Essa é uma boa pergunta. Se existe mercado para todo mundo o tempo dirá. Mas eu posso garantir que as grandes empresas vão se estabelecer. Existe espaço para itens que agreguem valor sobre outros. Estamos vivendo um mundo de terra de gigantes. As grandes multinacionais vêm agregando portfólio e, de certa forma, pressionando empresas menores para nichos de mercado. É uma briga que o tempo dirá quem vai ganhar, mas nesse momento a conjuntura está favorável às empresas globais, aquelas que têm soluções para a diversidade da frota atual.

NV – As empresas globais têm facilidade para trazer produtos de fora. E o Brasil vem enfrentando um processo de desindustrialização precoce. Uma questão crucial hoje para conter a desindustrialização é a inovação. Os produtos feitos aqui precisam estar adequados à complexidade dos novos automóveis. É possível que o Brasil se torne produtor local das autopeças para esses veículos e, consequentemente, um exportador de componentes ou cada vez mais caminhamos para ser um mero importador?

EV – Acredito que o cerco vai se fechando para algumas empresas. Nem todas vão sobreviver, principalmente a indústria nacional de pequeno porte – esta vai ter maior dificuldade para sobreviver em meio à complexidade que é hoje fornecer peças para uma montadora ou acompanhar o grau de inovação requerido. Nós temos, além de outras várias marcas, a Monroe Axios e a Monroe. O que temos visto na Europa e que caminha para o Brasil é a suspensão eletrônica. Nós já temos os amortecedores eletrônicos, somos fornecedores globais. E em breve nós vamos ter carros já fabricados no Brasil com suspensão eletrônica. Quem vai fornecer para a montadora local? São aquelas empresas que já estão participando desse processo de desenvolvimento do veículo. E eu posso garantir que nós estaremos presentes. Temos também uma empresa especifica, que nós chamamos de nossa startup de suspensão, que é totalmente voltada para a suspensão eletrônica. E a suspensão eletrônica não está sozinha nisso, ela vem com outras tecnologias para a segurança do veículo. A suspensão abrange toda uma gama de produtos, pois não se trata apenas do fornecimento do amortecedor. Isso certamente vai restringir a algumas indústrias a participação no mercado nacional. Então eu entendo que o que vem pelo Rota 2030 vai fazer com que o mercado se feche mais em torno das empresas globais. Porque as soluções têm de ser globais. Posso citar que a nova geração do VW Golf que vem para 2020 já tem a suspensão eletrônica como opcional. Quem vai participar disso? São empresas que estão, lá fora, envolvidas no desenvolvimento desses produtos.

NV – O mercado começa a enfrentar um momento disruptivo também em razão de transformações culturais de usos e costumes. Há em curso um fenômeno de concentração de veículos em frotas graças ao transporte por aplicativos e futuras iniciativas de carros por assinatura, como o programa piloto que a Amazon lançou na Espanha. Esse movimento pode resultar em quais impactos para o mercado independente?

EV – Traz duas situações. Uma de oportunidade para quem tem soluções completas e uma rede credenciada. É muito bem recebido quem chega com informações, com produto, com treinamento, com disponibilidade de portfólio. Levar esse pacote para uma rede credenciada ou um setor organizado traz vantagem para a indústria também porque é possível mostrar o diferencial dos produtos e serviços. Por outro lado, é um risco muito grande para aquele reparador autônomo, acaba sendo um fator disruptivo, uma ameaça muito grande. É uma situação a que o mercado vai se adequar com o tempo, mas que certamente não será aquilo que estamos vivendo hoje. Vai ser diferente. Quando a gente fala do Uber e outros aplicativos é preciso que nos adequemos rapidamente às mudanças para que possamos sobreviver. Não dá para ficar esperando que as coisas aconteçam para começar a agir. Temos que estar juntos e isso é um desafio porque as indústrias, em geral, também estão aprendendo. Como vamos fazer? Esse é o grande desafio, mas proximidade, conhecimento, portfólio e pessoas capacitadas para atender esse mercado serão fundamentais. A gente vem procurando se adequar, mas tudo isso envolve outras situações, como a questão do e-commerce e esse efeito Amazon. Uma grande missão que temos para 2020 é o e-commerce e o trabalho com as redes credenciadas.

NV – Há quem questione o e-commerce de autopeças técnicas. Nos Estados Unidos o índice de devolução de peças compradas com erro na Amazon é de 30%. No Brasil, sequer temos um catálogo. Qual a perspectiva do comércio eletrônico de autopeças no mercado brasileiro?

EV – Realmente é desafiador. Poucas empresas hoje ganham dinheiro com e-commerce. Mas ninguém deixou de acreditar, pelo contrário, continuam investindo no comércio eletrônico. Eu vejo que no Brasil a dificuldade nem começa pela ausência do catálogo, mas saber qual é nossa frota de veículos e onde ela está localizada. Isso para que a gente possa oferecer a peça correta pelo e-commerce. Imagine vender uma peça em São Paulo para entregar em Belém do Pará. Se essa peça voltar o prejuízo será enorme com a logística reversa. Quem tiver um banco de dados muito bem construído vai entregar uma solução boa na ponta. Apesar de toda essa dificuldade, no setor de autopeças já há empresas que trabalham muito bem, como o Mercado Livre e o Canal da Peça, entre outras. E com peças técnicas. Nós temos que estar preparados para contribuir com a redução do custo da logística reversa. É um desafio para as indústrias porque parte de nós também precisa disponibilizar a aplicação correta para o veículo. Esse é o grande desafio. Acredito que não tem uma indústria que pode dizer que está tranquila com isso. Todas estão preocupadas com a questão da aplicação. Mas que o e-commerce vai ficar, é fato. E tem um detalhe importante: muitas vezes quem compra na internet é quem não encontra a peça facilmente nas lojas físicas. Aquela peça que de repente é curva C de vendas na loja, no e-commerce por ser curva A ou B. E ela tem importância porque traz rentabilidade maior do que um item best seller.

NV – Os brasileiros começaram o ano com expectativa de crescimento de 2,5%, mas isso se deteriorou e hoje estamos com pouco mais de 0,9%. Ao mesmo tempo a indústria de autopeças e montadoras vêm apresentando crescimento e recuperação, ainda que eventualmente a níveis discretos. Qual é sua expectativa para o Brasil e o setor automotivo?

EV – A expectativa para o Brasil é que parte da lição já foi feita após a reforma da Previdência; agora temos a reforma administrativa e a tributária pela frente. Isso tudo vai abrir uma janela de crescimento para o país nos próximos anos. Apesar de todas essas dificuldades, somos um mercado imenso, que tem grandes demandas. Este último trimestre de 2019 vai nos alavancar para uma sequência positiva nos próximos anos, tanto para o fornecimento às montadoras como para o mercado de reposição. Sabemos também que é preciso aumentar as exportações de veículos para termos um parque industrial saudável. Perdemos grande volume de exportação em razão dos problemas na Argentina e temos que reduzir a dependência da América Latina, exportando para o mundo inteiro. E quem vai proporcionar essa competitividade são as reformas, especialmente a tributária e administrativa. Precisamos de tecnologia e competitividade, às vezes temos a tecnologia, mas não somos competitivos. Isso leva um tempo para acontecer, mas pode ter certeza que o Brasil é um mercado do presente e vai continuar sendo um mercado de futuro porque a Europa é uma região madura e países de oportunidade são poucos. E o Brasil está entre eles por sua população, sua capacidade de produzir, sua diversidade de produção e os serviços. Apesar da baixa taxa de crescimento do país, nós estamos fazendo nosso trabalho. A gente sempre planeja crescer acima do que o mercado está crescendo e ocupar espaços. Nossa matriz nos Estados Unidos elegeu dois países como prioritários: México e Brasil. Então, estou feliz por participar desse processo de crescimento e investimento para os próximos anos.

Confira a íntegra da entrevista com Edison Vieira: