Incentivar serviço no comércio de peças é bandeira do novo presidente do Sincopeças-SP

Contador por formação, Heber Carvalho substitui Francisco De La Tôrre, que esteve 12 anos à frente da principal entidade de representação do varejo de autopeças paulista

Carvalho destaca importância da reforma tributária para o setor

Lucas Torres

[email protected]

Durante 12 anos, o Sincopeças-SP, o sindicato representativo das mais de 37 mil lojas do varejo de autopeças do estado, teve Francisco De La Tôrre como seu principal dirigente.

Neste início de 2021, ele optou por se licenciar do cargo e deu lugar a Heber Carvalho, então vice-presidente do Sindicato e quem agora, à frente da presidência, terá a importante missão de dar suporte aos empresários do setor em um momento especialmente desafiador da economia do país e do mundo.

Contador por formação, Carvalho atua no comércio de autopeças desde 1997 – é proprietário da Said Autopeças, em Ribeirão Preto (SP) – e tem acompanhado de perto as novas demandas e os velhos gargalos do segmento.

Do lado das demandas, o novo presidente do Sincopeças-SP observa com atenção a quebra da ‘estrutura tradicional’ da cadeia do aftermarket automotivo, com a hibridização dos diferentes elos e um chamado para que os varejistas possam diversificar suas áreas de atuação, incorporando atividades de serviço ao comércio de peças.

Já no campo dos gargalos, Carvalho vê na estrutura do sistema de arrecadação nacional um bloqueio importante para a sustentabilidade dos negócios – cenário que o faz clamar por mais celeridade na aprovação da reforma tributária como medida de apoio estrutural à retomada da atividade produtiva neste momento de dificuldade.

A fim de conhecer algumas dessas ideias do novo mandatário do Sincopeças paulista, nossa reportagem realizou uma entrevista exclusiva com Heber Carvalho. Confira.

Novo Varejo – Como você enxerga o papel do Sincopeças-SP para o fortalecimento e o suporte dos varejos de autopeças do Estado, bem como no fomento de ações que possam impulsionar o setor nacionalmente?

Heber Carvalho – Nosso principal objetivo é ouvir os empresários de autopeças. Vamos, com isso, provocar debates e buscar soluções para o fortalecimento do setor. Entendo que o momento que estamos vivenciando é de cautela, porém, aqueles que acreditarem no seu desempenho com certeza vão superar e comemorar resultados.

NV – Você acredita que o fato de você ser um empresário de grande experiência no comércio de autopeças irá facilitar seu trabalho na hora de reconhecer as dores das empresas do setor?

HC – Acredito que sim. A experiência é sempre um ponto a mais na hora de decidir. O objetivo é sempre olhar e escutar os nossos parceiros. E com eles aprender e trocar informações, com o objetivo de resultados para todos.

NV – Lembro de uma conversa que tivemos acerca da chegada da tendência de lojas que, antes só vendiam autopeças, passarem também a instalar determinados componentes, como uma forma de se diferenciar no mercado e dar mais comodidade ao consumidor. Na ocasião, você se posicionou favorável à incorporação do serviço dentro do varejo de reposição. Agora, à frente do Sincopeças-SP, você pretende comandar ações para popularizar a prática no Estado?

HC – Sempre acreditei que o mercado do varejo de autopeças está aliado à instalação. Isso facilita a comercialização. Podemos ver claramente nas empresas maiores e que praticam essa ideia. Acredito ser uma tendência no futuro para todos os varejistas de autopeças.

NV – Uma das queixas mais recorrentes dos empresários do setor diz respeito à pauta tributária. Gostaria de aproveitar sua expertise como contador para, em primeiro lugar, saber como você enxerga a questão do cálculo da MVA e que preocupações ele traz para as empresas do setor. Em segundo, em um aspecto mais amplo, de que maneira você tem visto os avanços em torno da proposta de reforma tributária?

HC – Bem, quanto a MVA, entendo ser benéfico somente para o arrecadador (Fisco), pois nosso mercado de autopeças é bem complexo e encontrar o índice adequado é muito difícil. Em relação à reforma tributária, entendo ser muito importante, porém, a cada momento, a questão de tributos e como e quando uma empresa tem de sofrer ajustes de adequações precisam ser reformuladas. E isso é um processo que não pode demorar muito tempo para ser praticado. A reforma tem de ser eficaz e rápida.

NV – Como você vê o atual momento do comércio de peças no país? Quais são nossos principais gargalos, desafios e virtudes?

HC – Vejo que, com a pandemia, nosso mercado vem sofrendo muito para se adequar aos gargalos impostos pelo momento que vivemos. Então, alguns buscam soluções nas vendas pela internet. Isso pode trazer resultados, mas não é a solução. Temos de acreditar também na venda presencial, principalmente quando falamos em produtos que exigem instalação. Quase sempre precisam de profissionais com experiência e algumas peças, apesar de sua semelhança, nem sempre se ajustam no veículo no momento da instalação, causando prejuízo ao adquirente (quase sempre o consumidor final).

NV – Como diversos segmentos, o varejo de autopeças tem enfrentado uma queda importante nas vendas neste início de 2021… É possível dizer que este mau momento do setor é fruto de uma questão ‘maior’, conjuntural, e que só a recuperação econômica do país como um todo trará uma retomada consistente?

HC – Concordo em alguns pontos, mas as mudanças estruturais precisam vir tanto dos empresários quanto dos entes governamentais.

NV – Varejistas têm se queixado de uma inflação importante dentro do setor. Como equilibrar um repasse razoável para o consumidor, capaz de manter sua motivação de compra e, ao mesmo tempo, não diminuir a margem de lucro de maneira insustentável?

HC – Entendo que a inflação prejudica a todos, desde o fabricante até o destinatário final. Nesse ponto acredito que precisamos de reforma tributária, controle da arrecadação de impostos e agilidade no processo de vendas. As empresas sofrem com imposições da legislação na arrecadação de impostos, causando insegurança na preparação do preço final de venda. Às vezes nos deparamos com produtos que estamos vendendo com prejuízo, por conta da dificuldade em avaliar o custo correto.

NV – Quais conselhos você daria para o empresário do setor neste momento? E como o Sincopeças-SP pode ajudá-lo a sobreviver aos diferentes desafios com os quais estamos convivendo?

HC – Empresários têm que ficar ligados no momento da compra, controle de estoques, melhor preço, qualidade do produto, pois sabemos pela internet que o consumidor, quando entra na loja, já tem noção do preço do produto que vai adquirir. Sendo assim podemos, através de nossa entidade, fortalecer o empresário de autopeças, ajudando a preparar seus setores e seus colaboradores com cursos, treinamentos e qualificação destes profissionais.