Heber Carvalho reflete sobre os principais temas do cotidiano do varejo de autopeças

Lucas Torres [email protected]

Falta de peças, alta de preços, complexidades contábeis, nova norma ABNT para os vendedores… Os últimos dois anos têm colocado em pauta estas e tantas outras questões que desafiam o trabalho do empresário do varejo de autopeças do país. Neste contexto, mais do que nunca é fundamental que entidades representativas como o Sincopeças-SP possam dar um passo à frente a fim de guiar o setor na direção de águas mais calmas e prósperas, a despeito das dificuldades.

Para atualizar a pauta do comércio de componentes automotivos, o programa Diálogo Automotivo, da A.TV – o canal de conteúdo para o mercado de reposição no YouTube – convidou o presidente do Sincopeças de São Paulo, Heber Carvalho, para um bate-papo amplo e que, mais do que teorizar sobre o atual momento, buscou priorizar uma abordagem que observa o cotidiano de nossas lojas de autopeças. É esta conversa que trazemos aqui também para os leitores do Novo Varejo Full Digital.

Confira a íntegra da entrevista conduzida pelo jornalista Claudio Milan.

Novo Varejo – As pesquisas do After.Lab, núcleo de inteligência de mercado e pesquisas da Novo Meio, têm indicado quase dois anos consecutivos de alta de preços e falta de produtos no mercado de autopeças. Desde 2020, os varejos continuam se queixando deste problema. Afinal, o preço das peças está aumentando e está faltando produtos no mercado?

Heber Carvalho – A falta de peças ficou muito agravada pela indústria. Faltaram peças para a indústria automotiva. Inicialmente, isso afetou a fabricação de veículos. Depois, porém, começou a afetar o aftermarket. Em resumo, posso dizer que a falta de peças existiu, existe e vai continuar existindo. A fábrica normalmente produz aquilo que interessa para ela e nem sempre está empenhada em socorrer o mercado. Ao mesmo tempo em que essa é uma realidade, tenho percebido nas minhas conversas com distribuidores e varejistas que há uma tendência de se falar que está faltando peças porque com isso você valoriza o produto. Tem coisa mais gostosa do que dizer “está difícil essa peça, está difícil vender”? Fica mais fácil você vender assim do que fazê-lo com aquele produto que está sobrando e não tem escassez. Sobre a questão dos preços, o que acontece é que nós, brasileiros, temos esse hábito. Recentemente, por exemplo, tivemos aumento de combustível e as autopeças aumentaram junto. Aí você pergunta: “essa peça chegou ontem?”, e o varejista responde: “não, chegou faz três meses”, mas justifica o aumento de preços pela alta do custo dos transportes.

NV – A gente observa que as oficinas estão cheias. Isso tem se refletido em movimento grande também no varejo?

HC – Olha, não tenho do que reclamar. Hoje eu comentei com o meu assessor sobre a quantidade de veículos que estão andando nas ruas e o fato de ser inevitável que esses carros uma hora precisem de manutenção. Todos eles têm peças que quebram e peças de desgaste. Essas que se desgastam, sobretudo, vão precisar ser substituídas periodicamente.

NV – Como aproveitar essa demanda?

HC – O que eu tenho dito é que não é porque tem demanda e você está com a sua porta aberta que o cliente vai te escolher. É preciso, sobretudo, se preocupar com a qualidade do atendimento. Isso é fundamental!

NV – Como você vê a flexibilização da nossa cadeia de negócios no setor de autopeças? Já que hoje é muito comum observarmos mecânicos comprando de distribuidores, varejistas comprando com a indústria e até mesmo alguns mecânicos conseguindo comprar da fábrica.

HC – É um caminho sem volta. Eu comecei com uma oficina mecânica há 35 anos e me recordo que o primeiro problema que eu tive foi quando fui comprar de um distribuidor e ele me disse que não vendia para oficina. Então, o que eu fiz? Como sou contador, mudei meu CNAE para comércio de peças e no outro dia ele passou a me vender. A partir daí, muita gente descobriu isso e passou a fazer. No entanto, por azar, eu comprei uma loja de autopeças e só então percebi que não deveria ter iniciado esse movimento. Hoje, se você observar, os distribuidores chamam as oficinas de autocenter. E esses estabelecimentos conseguem, sim, comprar da indústria, dependendo do poder de compra. Você imagina que chega uma oficina mecânica que tem 10 lojas espalhadas no Brasil e diz para uma indústria que vai comprar 100 mil reais dela. Será que a indústria vai dizer não? Não vai, ela vai aconselhar esse empresário a mudar seu CNAE para comércio de peças e passar a vender para ele.

NV – Você tem uma empresa de autopeças, mas também trabalha com contabilidade. Queria aproveitar essas suas duas expertises para te perguntar: o que é mais difícil no Brasil, vender peça ou entender o nosso sistema tributário?

HC – Quando eu entrei no comércio de peças, o pessoal começou a me dizer “agora você virou vidraça”, e isso realmente aconteceu. Já como contador, minha dificuldade maior é passar para os meus clientes as mudanças de legislação. Essa semana eu tive a visita de um cliente, mecânico, e ele me procurou para fazer sua declaração de imposto de renda. Ele fez um comentário comigo: “eu sei apertar parafuso, mas não entendo a legislação”.

NV – Em função disso, erra-se muito no recolhimento de impostos no varejo de autopeças?

HC – Olha, infelizmente, sim. Quando nós abrimos o escritório há 50 anos, qualquer erro que o funcionário cometesse, ele perdia o emprego. Hoje, se eu for usar essa prática, eu vou ser o primeiro que vou ter que parar de trabalhar. Não tem mais jeito, a legislação está tão complexa que você não consegue acompanhar. Mesmo com todos os aparatos que nós temos, com a tecnologia e etc. Para um mecânico substituir uma peça de um veículo, por exemplo, ele precisa descobrir o número da peça, o ano do veículo, o chassi do veículo – tudo isso pra poder fazer uma substituição. Outra questão, antigamente você abria sua loja e colocava as peças lá. Hoje, é preciso classificar os produtos com suas várias nomenclaturas e numerações. Isso faz com que mesmo uma pequena loja de autopeças precise de uma consultoria robusta na área contábil. O que, em alguns casos, torna a abertura dessa empresa uma questão inviável.

NV – O mecânico sempre teve um relacionamento muito próximo com o varejo. Mas hoje temos um componente novo chegando às lojas que é o dono do carro. Como está essa rede de relacionamentos no balcão?

HC – Essa aproximação com o consumidor final que você citou é muito legal. O mecânico chega ali no varejo com uma sacola, uma bolsa, com as peças que ele desmontou, põe ali no balcão e fala “eu preciso de todas essas peças, você se vira aí”. E nós temos que lavar as peças, procurar o número… Com isso o reparador perde uma ou duas horas no meu balcão. Vendo esse cenário, eles começaram a dar as peças para o cliente e pedir para que ele compre as peças. Nesses casos, o atendimento passa a ser diferente. Afinal, dependendo do que eu pergunto para o cliente, ele nem sabe onde vai aquela peça. Então, temos que ligar para o mecânico, colocá-lo no intercâmbio pra negociar e etc. Mas é muito legal isso. É esse cenário que deixa muito clara a diferença do atendimento do varejo para o atacadista. Este segundo, de modo geral, não recebe a peça para comparar no balcão. Ele vende pelo número

NV – Você acha que a nova norma ABNT para o vendedor de autopeças vai gerar resultados para esse profissional? O vendedor está bem suprido de treinamentos e informação para exercer o seu trabalho da melhor maneira possível?

HC – A norma anda muito bem. O grande problema que eu vejo é na hora de mostrar isso para o vendedor, principalmente os mais experientes, ao passo que os mais novos buscam informações, treinamento e usam a norma pra isso. Os mais experientes tendem a achar que sabem de tudo e não precisam de outras informações. Particularmente, eu tenho um conceito: todo dia eu estou aprendendo uma coisa nova, porque quando a pessoa pensa que sabe tudo é quando ela está começando a aprender. A norma traz segurança para o vendedor de que é preciso se aperfeiçoar constantemente. Isso é muito legal para o mercado.

NV – Para finalizar, gostaria que você contasse um pouco sobre seu trabalho à frente do Sincopeças-SP. HC – O meu objetivo no Sincopeças-SP é fazer com que o varejista sinta segurança nas nossas ações para representálo. Por exemplo, as convenções trabalhistas são decididas pela classe trabalhadora e pela classe dos empregadores, que nós que representamos. É um desafio muito complexo para nossa entidade e para mim como presidente. Por isso, nós tomamos decisões colegiadas para trazer esse conforto às empresas do setor. Trabalhamos também com outras pautas, como a climática. Eu sou muito favorável a essa questão da sustentabilidade e descarte consciente de resíduos.