Especialistas refletem sobre inflação setorial e macroeconômica

Lucas Torres [email protected]

Da indústria à ponta da cadeia de comercialização de autopeças, o cenário de alta na inflação tem se colocado como um dos principais fatores de pressão para a sustentabilidade dos negócios no mercado de componentes automotivos nos últimos meses. Não bastasse a queda na demanda decorrente da diminuição da mobilidade e, claro, da renda da população em meio à crise sanitária, varejistas relatam alta próxima dos 20% na compra das autopeças, valor este que se deriva de um repasse inevitável por parte dos fabricantes, pressionados com a alta de insumos como o aço. Com o objetivo de oferecer uma abordagem 360 graus – setorial e macroeconômica – sobre a pauta da inflação, convidamos o economista sênior da consultoria internacional Prospectiva, Adriano Laureno, e o conselheiro do Sindipeças para o mercado de reposição e coordenador do GMA – Grupo de Manutenção Automotiva, Elias Mufarej, para uma série de esclarecimentos sobre as causas do atual cenário e a projeção de perspectivas sobre a escalada dos preços na atividade produtiva brasileira. Confira abaixo nossa conversa exclusiva com Laureno e, logo a seguir, a entrevista com Mufarej.

Novo Varejo – Como você avalia o atual cenário de inflação?

Adriano Laureno – Temos um cenário de incerteza e heterogeneidade setorial. A pandemia afetou de formas ao mesmo tempo drásticas e diversas os diferentes setores econômicos. Enquanto setores como o de artigos residenciais viram sua demanda crescer – e com ela os preços, IPCA de 6% em 2020 –, outros, como o setor de vestuário (-1,13%), sofreram com uma redução importante de demanda. A menor previsibilidade também afetou as cadeias globais de valor, gerando escassez de alguns insumos e excesso de outros. Essa desorganização produtiva se somou ao Auxílio Emergencial e ao aumento dos preços das commodities, como elementos de pressão inflacionária. Uma vez que outros setores, como os serviços, viram sua demanda cair drasticamente, o resultado foi uma mudança de preços relativos: bens precificados em dólar se tornaram mais caros, enquanto bens que só podem ser consumidos domesticamente mantiveram preços mais estáveis. NV – Quais são os principais fatores de pressão sobre o aumento de preços de insumos como o aço?

AL – A desvalorização cambial. O real se desvalorizou mais de 20%, em 2020. Como os preços do minério de ferro, e das demais commodities, são formados no mercado internacional e em dólar, é inevitável que a desvalorização se traduza em pressão inflacionária sobre os setores que utilizam esses insumos. Além disso, no caso específico do aço, a impressionante retomada da economia chinesa foi determinante para levar os preços desse insumo a níveis recorde. Embora produza mais da metade do aço do mundo, respondendo por metade da oferta global, a China também é a principal importadora do produto. Assim, os incentivos fiscais do governo para a retomada da economia chinesa – a única a crescer 2,3% em 2020 – pressionaram ainda mais os preços internacionais do minério de ferro.

NV – Por que a inflação real, projetada a uma taxa de 3,7% para 2021 pelo IPEA é significativamente menor do que a percebida? Varejistas de autopeças alegam aumento de 20% na compra das peças; famílias com renda até cinco salários mínimos ‘percebem’ uma inflação superior a 6%.

AL – A pressão inflacionária em 2020 foi muito mais heterogênea setorialmente do que estamos habituados. Isso fez com que varejistas de alguns setores tenham sido muito mais afetados por alterações nos preços dos seus insumos do que outros. A consequência também foi sentida pela população, em especial a de menor nível de renda. Isso porque enquanto os serviços – mais consumidos pelos mais ricos – puxaram a média da inflação para baixo, com alta de 1,73% em 2020, os alimentos para consumo em casa, que pesam mais na cesta de consumo dos mais pobres, tiveram inflação de 18,15%. Essa mudança de preços relativos foi significativa e acabou sendo responsável por uma redução do poder de compra dos mais pobres.

NV – Temos visto uma desvalorização constante do real no cenário internacional. A que se deve esse movimento? E o quanto esse cenário pressiona a inflação por aqui?

AL – A desvalorização cambial foi o principal fator de pressão inflacionária, em 2020. Para 2021 esse canal de pressão deve se atenuar. Afinal, para que o real sofresse uma desvalorização semelhante à de 2020 a cotação do dólar precisaria passar dos R$ 6,20 em 2021. De qualquer forma, não me parece que a desvalorização ocorrida em 2020 será revertida rapidamente. Isso porque essa desvalorização foi intensificada pela pandemia, mas suas causas são bastante mais estruturais. A incerteza sobre o horizonte econômico brasileiro é considerada muito alta pelos investidores internacionais. Sem clareza sobre quais serão as políticas econômicas de longo-prazo do governo, os investidores tendem a atrasar qualquer decisão de investimento no Brasil. Além disso, a manutenção da taxa SELIC em seu patamar mais baixo da história, implicando em taxas de juros reais negativas no Brasil, também ajuda a afastar o capital internacional e pressionar pela desvalorização do câmbio.

NV – O que precisa ocorrer para que o real volte a patamares mais equilibrados na relação com as moedas de maior peso na economia, como o dólar e o euro?

AL – A balança de transações correntes do Brasil parece relativamente equilibrada, com o câmbio no patamar atual. Para que o real voltasse a se valorizar, precisaríamos ver um aumento persistente no preço das commodities exportadas pelo Brasil em dólar ou uma retomada dos investimentos estrangeiros no país. Para esse último ponto, seria importante que o governo elaborasse um plano crível e consistente de retomada econômica de longo-prazo e que o cenário político nacional se estabilizasse, permitindo um horizonte de menos incerteza para os investidores. Por fim, o início de um novo ciclo de elevações da taxa SELIC também deve contribuir para entrada de dólares no país.

NV – Quais são suas perspectivas para os próximos meses? Sobretudo no que diz respeito à inflação ligada a produtos industriais, insumos e etc. Como as autopeças.

AL – O IGP-M, que é um índice de inflação com peso maior para os insumos industriais que o IPCA, chegou a 25,7% em janeiro, no acumulado de 12 meses. Esse comportamento não deve se repetir ao longo de 2021 e, embora o índice deva seguir maior que o IPCA, não devemos vê-lo terminar 2021 com dois dígitos. Esse arrefecimento deve reduzir a pressão sobre as margens dos varejistas, que também poderão contar com uma pressão bastante contida por aumentos no nível de salários – dada a manutenção de um alto nível de desemprego na economia. Os preços administrados pelo governo, por outro lado, devem pressionar os índices de inflação mais em 2021 do que pressionaram em 2020. Após evitar elevações de tarifa no ano de pandemia, entes federativos devem precisar reajustar suas tarifas de transporte público e o governo seguirá pressionado por elevações nas tarifas de energia e dos combustíveis. Em um cenário em que o nível de renda da população seguirá em baixa, o ambiente econômico tende a seguir bastante desafiador.

Elias Mufarej

Novo Varejo – Varejistas e distribuidores têm relatado um aumento substancial do preço das autopeças nos últimos meses. Qual a percepção do Sindipeças sobre esse cenário?

Elias Mufarej – Estamos em um momento complicado em todos os aspectos da economia mundial. O setor automobilístico e autopeças têm volatilidade em função de uma série de matérias-primas e componentes que possuem dependência de importações. Nesse momento da pandemia de forma aguda, houve paralisação mundial de atividades comerciais e extração de matérias-primas, até a navegação foi prejudicada em âmbito mundial. Situação atípica nem vivida na época de guerra mundial. Vai haver acomodação mundial no âmbito de indústria, suprimentos, locomoção e questão sanitária para voltar a patamares mais aceitáveis. A pressão dos preços se deve à desvalorização do dólar e dependência de matériasprimas importadas. A produção chegou a níveis baixos, a demanda voltou a ritmos normais e os preços foram pressionados pela falta de produtos, de matérias-primas e componentes. Há possibilidade de os preços serem equalizados em médio prazo. Vivemos uma situação típica de oferta e demanda que é sentida em todos os setores.

NV -Existe previsão de normalização ou a questão está mais ligada a um contexto amplo, conjuntural?

EM – Não há previsão, por enquanto. Tudo está ligado ao problema conjuntural, até transporte de container custa cerca de 10 a 15 vezes mais do que se pagava em dólar. Isso influencia os preços. A escalada do preço do petróleo e das embalagens devido ao excesso de demanda do delivery também são outros fatores que pressionam os preços. Há excesso de demanda e carência de fornecimento.

NV – A escassez de insumos tem alguma relação com a insegurança da indústria de base que, incerta sobre a solidez da demanda do mercado, está produzindo ‘quase sob medida’, ou seja, diminuindo a utilização de sua capacidade produtiva a fim de evitar prejuízos? Você vê a possibilidade de a indústria e das entidades poderem se articular para criar uma maior segurança para esses fornecedores?

EM – Não acredito que possa haver essa variável no mercado de reposição, não haverá restrição de venda para aumentar os preços. Encontramos vários caminhos e variáveis na indústria nacional, além do surgimento de novos fornecedores em outros países com condições melhores do que os países asiáticos. Essa questão é comercial e não há como as entidades interferirem. Existe a necessidade de acompanhamento claro de custos fixos e as vendas no último ano. As empresas devem atuar comercialmente para oferecer serviço de qualidade para quem adquire as peças ter segurança de que a situação atual é passageira. Isso vai levar à consolidação das empesas que sabem atuar corretamente nesse momento. Faço um apelo para não buscar o oportunismo, as empresa precisam simplificar a maneira de trabalhar, agregar mais quantidade de informações pela digitalização e prestar serviço melhor ao consumidor, varejistas e aplicadores, assim os distribuidores dão a sua contribuição ao mercado.