Endividamento dos lojistas cresce 58% em dois anos

Fátima Fernandes |  varejoemdia.com

Quase dois anos de pandemia, faturamento em queda e custos em alta. Para manter o negócio, não teve outro jeito, os lojistas brasileiros correram aos bancos atrás de dinheiro.

Em setembro deste ano, o estoque de recursos de instituições financeiras destinado ao comércio era de R$ 430,5 bilhões, de acordo com dados do Banco Central (BC).

Este valor é 23,7% maior do que o do mesmo mês de 2020 (R$ 348 bilhões) e 58% maior do que o de setembro de 2019 (R$ 272 bilhões).

O saldo de operações de crédito somente para os lojistas do setor de bens duráveis, que incluem móveis, eletrodomésticos e roupas era de R$ 29 bilhões em setembro deste ano.

No mesmo mês do ano passado, este valor era de R$ 22 bilhões e, em setembro de 2019, de R$ 18 bilhões.

No caso do comércio de bens não-duráveis, que incluem alimentos, medicamentos e combustíveis, o volume de crédito para os lojistas era de R$ 144,9 bilhões.

Neste setor, o salto na busca por financiamento foi ainda maior, alta de 24% sobre setembro de 2020 (R$ 116,7 bilhões) e de 68,7% sobre igual mês de 2019 (R$ 85,9 bilhões).

“Os números revelam o que já se previa: os lojistas estão mais endividados”, diz Fábio Bentes, economista da CNC (Confederação Nacional do Comércio), que fez o levantamento dos dados.

E tudo indica, diz ele, que a corrida por financiamento se deu simplesmente para tocar o negócio, e não para realizar investimentos e expansões.

RENEGOCIAÇÃO DE CONTRATOS

Agora vem outra fase dura para os lojistas, que é a de renegociar contratos firmados em 2020 que começam a vencer, de acordo com comerciantes ouvidos pelo Diário do Comércio.

A expectativa era que, com o avanço da vacinação, as vendas no último trimestre do ano voltariam ao ritmo pré-pandemia, facilitando o pagamento dos empréstimos.

Até o momento, as vendas continuam menores do que as de igual período de 2019.

Último dado da PMC (Pesquisa Mensal do Comércio) do IBGE mostra que, em agosto, as vendas do comércio caíram 4,1% sobre igual período do ano passado e 3,1% sobre julho.

A inflação também chegou em um patamar bem acima do previsto (10,67% em 12 meses), assim como a taxa básica de juros, a Selic, que caminha para os dois dígitos.

CRÉDITO MAIS CARO

Diante deste cenário, as instituições financeiras estão muito mais cautelosas para conceder crédito, exigem mais garantias, querem ver os balanços das empresas, o fluxo de caixa.

“Os bancos querem ter a certeza de que a empresa vai conseguir pagar o empréstimo antes de liberar o dinheiro”, diz Mário Rizk, head de finanças da MOB, rede de roupas femininas.

Mais: e se passar por todas as etapas do processo para ver a cor do dinheiro, os lojistas têm de pagar taxas de juros em patamares bem mais elevados do que os dos últimos anos.

De acordo com Rizk, as taxas de juros cobradas pelos maiores bancos do país dos lojistas variam hoje de 15% a 20% ao ano, e isso com a apresentação de garantias.

“No ano passado, a maioria das operações era feita sem garantias e as taxas eram inferiores a 10%”, diz Rizk.

Com a pandemia, surgiram linhas de crédito, como o Pronampe (Programa Nacional de Apoio às Microempresas e Empresas de Pequeno Porte), muito utilizadas por pequenos e médios varejistas, com garantias do governo.

“Os bancos utilizaram essas linhas para recompra de risco, isto é, o lojista, por exemplo, quitava a dívida antiga e obtinha um novo financiamento”, diz Rizk.

Neste momento, a rede MOB, com 32 lojas, tenta renegociar alguns contratos na tentativa de estender de 48 meses para 60 meses os prazos de pagamento, ganhando um ano de fôlego.

“O exercício que nós e outras empresas precisam fazer agora é saber qual o benefício que temos hoje em ter o dinheiro direto no caixa”, diz ele.

Vale a pena deixar de pagar o principal da dívida, considerando a curva de crescimento da empresa em 2022? Essa é a pergunta que precisa ser feita hoje pelos lojistas, diz ele.

“A questão é acomodar o custo dentro da operação”, afirma.

Não é uma conta fácil de fazer, dizem alguns lojistas ouvidos pelo Diário do Comércio, na medida em que se vê pela frente um ano com crise hídrica, inflação e juros em alta, deterioração da renda das famílias e incertezas políticas.

Em setembro, a taxa média de juros para pessoas jurídicas no país era de 17,1%, quase seis pontos percentuais a mais do que a de igual mês de 2020 (11,5%), de acordo com dados do BC.

“Os desafios não são poucos neste final de ano. O crédito está mais caro e, para girar o estoque, o lojista tem de pagar mais caro, e em um cenário com o consumidor mais empobrecido”, diz Flávio Calife, economista da Boa Vista, empresa de serviços financeiros.

Numa situação como esta, diz ele, a recomendação para os lojistas é muita cautela na hora de recompor os estoques.

Se aprovado o auxílio do governo para a população de baixa renda, a situação pode ser mais favorável neste final de ano, se a inflação, diz ele, se acomodar.

INADIMPLÊNCIA

A boa notícia é que a inadimplência das empresas continua sob controle e até caiu durante a pandemia do novo coronavírus.

A taxa era 5,6% sobre a carteira de financiamento em maio de 2020 e chegou a 4% em junho deste ano, considerando os atrasos de pagamento acima de 90 dias, de acordo com o BC.

Em setembro subiu para 4,25%, mas ainda é considerada sob controle.

No caso das micro e pequenas empresas, a taxa média de inadimplência, que era de 4,6% até o final do ano passado, está agora em 2,5%.