E-commerce forte é realidade e não vai regredir no pós-pandemia, aponta especialista

Lucas Torres [email protected]

Desde março de 2020, o surgimento da necessidade de promover o distanciamento social em razão da chegada da covid-19 fez com que varejistas dos mais diversos portes e segmentos passassem a buscar alternativas para atender seus clientes fora da loja física. Neste contexto, o e-commerce – que, a bem da verdade, já era realidade no país – passou a ser alvo de esforços visando à melhoria do atendimento e mais efetividade na entrega.

Dois anos depois, os números mostram que a estratégia, somada às particularidades de um tempo de pandemia, deu certo. Afinal, as vendas online representavam apenas 5,7% do total faturado pelo varejo brasileiro em 2019 e hoje já ocupam uma fatia de 12,4%. Nos últimos dias, no entanto, as restrições voltadas à contenção da pandemia têm sido afrouxadas como ainda não haviam sido desde a chegada do novo coronavírus. Estados como São Paulo e Rio de Janeiro, por exemplo, já retiraram a obrigatoriedade do uso de máscara em locais abertos e sinalizam com uma retirada completa. Este novo momento mostrará uma fotografia clara sobre a maturidade do e-commerce no país. Será que sua representatividade atual veio para ficar? Ou se mostrará algo situacional, retornando aos patamares pré-pandêmicos aos poucos? Para obter algumas destas respostas, conversamos com Gastão Mattos, responsável pela Divisão de Varejo Online da Câmara Brasileira da Economia Digital.

Novo Varejo – O e-commerce teve um salto significativo em sua representatividade no varejo durante a pandemia. Você acredita que com as reduções significativas das restrições sanitárias no ambiente físico poderemos ter um decréscimo a patamares registrados no período pré-covid-19?

Gastão Mattos – Em 2019, último ano antes do surgimento da pandemia da covid-19, as compras online representavam 5,7% do total de vendas do varejo, segundo o estudo do MCC-ENET (parceria da camara-e.net com a Neotrust). No ano seguinte (2020), já bastante afetado pela situação da pandemia, este indicador subiu para 9,6%, um salto significativo em relação ao histórico de crescimento da penetração das vendas online. Interessante notar o mesmo indicador em 2021, um ano híbrido, onde em grande parte o comércio físico operou com poucos períodos de restrição. As vendas online em 2021 representaram 12,4% do total do varejo, o que demonstra que o patamar de representatividade deste tipo de venda não vai regredir nos tempos pós-Covid.

NV – Vocês acreditam que o varejo brasileiro amadureceu no âmbito das estratégias digitais durante a pandemia? GM – Mais do que amadurecimento, houve uma grande transformação. Lojas que até então não tratavam o canal online foram obrigadas fazê-lo, sob o risco de fechamento. Essa inclusão “forçada”, que no primeiro momento pode ter sido traumática em muitos casos, acabou tendo um efeito positivo, pois agora, mesmo sem as restrições de abertura da loja física, boa parte dos vendedores observa que o canal online é efetivo, pois agrega funcionalidade e comodidade ao consumidor. Lojistas de pequeno porte aprenderam como vender usando mídias sociais e ferramentas de comunicação como o WhatsApp, utilizando mecanismos próprios de entrega, ou mesmo terceirizando a logística. Para as grandes lojas, já atuantes no segmento online, houve aprimoramento significativo e avanço das vendas no canal. A modalidade marketplace (venda de produtos de terceiros, ou pequenos lojistas, através de loja online tradicional) teve crescimento acelerado, dando uma nova amplitude ao canal online pare os lojistas de grande porte tradicionais neste canal.

NV – É possível dizer que vender online hoje está acessível para todos os portes de varejistas ou ainda temos um gap separando as empresas de grande e médio porte das demais?

GM – A venda online é permissível em todos os segmentos. Tínhamos vários gargalos no passado, inibindo a inclusão de pequenos e médios neste mercado. Afinal como uma loja pequena poderia competir com Submarino, Magalu ou Casas Bahia? Já há algum tempo (antes da pandemia) este cenário mudou com o advento dos modelos de marketplace, onde um grande lojista oferece sua plataforma e credibilidade para a divulgação de produtos de terceiros. Assim, um lojista pequeno e pouco conhecido, pode vender através de uma grande loja, com um acordo de comissionamento sobre as vendas. Outro gargalo era a logística que também se desenvolveu muito no Brasil. Hoje, além de provedores como os Correios e vários outros privados, é possível a um lojista de menor porte usar a infraestrutura de entrega de grandes lojistas como Mercado Livre, Magalu, entre outros, para viabilizar a entrega. Portanto, não existe barreira de acesso para uma loja iniciar a venda online.

NV – O que a trajetória dos dados do indicador MCC-ENET tem mostrado sobre o desempenho do varejo online em 2022? GM – O crescimento das vendas online se manterá em 2022, talvez com velocidade menor do que a observada nos últimos dois anos, mas isso não é negativo. Tivemos uma mudança de patamar na curva evolutiva das vendas online em 2020/21 em função da pandemia global. Agora, será mantido o crescimento, contudo em trajetória semelhante ao que se observava no período até 2019.

NV – A Câmara Brasileira da Economia Digital tem feito um trabalho de capacitação junto aos varejistas que querem montar suas lojas online. Quais são os principais perfis de empresas a buscarem estas oportunidades de aprendizado?

GM – A camara-e.net tem uma iniciativa consistente de inclusão – o Ciclo PME, criado há mais de 10 anos. O projeto tem como objetivo a difusão do canal online, através de iniciativas de capacitação – seminários, cursos, eventos – permitindo a um empreendedor interessado entender o caminho crítico para o uso efetivo das vendas online como forma de ampliar seus negócios. No histórico temos empresas de todo Brasil participando e nos mais diversos segmentos. Antes da epidemia, o Ciclo era organizado em diferentes centros com eventos presenciais. No período recente, migramos para um formato totalmente virtual e em breve, voltaremos a contemplar edições presenciais em modelo híbrido.

NV – Marketplace, loja própria ou ambos? Quais são os pontos que o varejista deve pesar na hora de optar por sua estratégia de e-commerce?

GM – Existe muita flexibilidade no modelo de atuação para uma venda não presencial. Hoje é possível vender online, sem um site próprio, usando apenas mídias sociais ou marketplaces para divulgação e operação da venda. Dependendo do negócio e seu momento, pode-se iniciar desta forma, evoluindo para um site próprio, quando os volumes justificarem. O marketplace é um grande gerador de leads para novas vendas, a partir do momento que a loja constituiu uma base de clientes significativa pode-se pensar no desenvolvimento de novos canais, como o site próprio, mas mantendo a operação através do marketplace.

NV – Os antagonistas da proliferação do e-commerce no Brasil costumam desqualificar o movimento ao afirmar que a popularização das vendas nesta modalidade tem impulsionado uma alta taxa de informalidade, sobretudo no que diz respeito aos microempresários. Como você vê a maturidade dos órgãos fiscalizadores do país para evitar que se crie um cenário que, na expressão destes antagonistas, tem sido chamado de ‘camelódromo digital’?

GM – A – Acredito que esta visão da “informalidade” das vendas é bastante superficial. Tivemos alguns problemas neste sentido, há mais de 10 anos. Hoje, a maior incidência das vendas online se dá através de marketplaces que são solidários no processo. Dificilmente uma venda de artigo ilegal, ou com algum vício fiscal, passaria despercebida da sistemática de venda e logística de entrega. Isso não quer dizer que não possa existir desvios, contudo, este tipo de situação parece ser pontual e não significativo