Digitalização e os riscos de invasão virtual

Por Claudio Milan

Macrotendências do setor automotivo em todo o mundo, a digitalização e a eletrificação vêm se mantendo entre os assuntos mais presentes também nos debates brasileiros. No Seminário da Reposição, não foi diferente e as questões foram tratadas sob diferentes ângulos. A vulnerabilidade na segurança de dados e metodologia e qualidade dentro da manufatura foram discutidas no painel “Os impactos da digitalização e eletrificação nos automóveis”, ministrado por Bruno Neri, representante do Instituto de Qualidade Automotiva (IQA) e Danilo Lapastini, CEO da Hexagon Manufacturing Intelligence, que também teve a participação de Antonio Fiola, presidente do Sindirepa-SP e Nacional, como mediador; Gerson Prado, da SK Automotive: Rodrigo Carneiro, da Mercadocar, e Silvio Cândido, da Peghasus.

Neri ressaltou que, ao chegar à rede CAN correta por meio das vulnerabilidades, é possível usar técnicas para obter controle do veículo a níveis dramáticos. “Os componentes eletrônicos já são o segundo maior causador de ações de recall no Brasil, mesmo com eletrificação de powertrain incipiente”, destacou o palestrante. Assim como os celulares, os carros precisam ainda mais de mecanismos e dispositivos de segurança, pois poderão impactar a integridade das pessoas. Segundo Neri, sem esses mecanismos, a manipulação da dirigibilidade, por exemplo, pode ser feita por meio da comunicação wireless, registros na ECU e na interface de diagnose EOBD. Assim, o smart car precisa de smart security. “Os pontos mais vulneráveis são aqueles que se comunicam com o meio externo”, enfatizou. Por isso, fabricantes de veículos e de componentes, em conjunto, precisam olhar com atenção para a segurança de dados.

Durante a palestra, o especialista pontuou quatro frentes possíveis de ataques com relação à segurança: por comunicação remota, por software manipulado, ataques físicos à ECU e ataques físicos sofisticados aos microcontroladores.

Há mais de um ano, o Novo Varejo tratou do assunto a partir da experiência que envolveu, em 2015, Andy Greenberg, jornalista da revista norte-americana Wired, especializada em ciência e tecnologia. Ele dirigia um Jeep Cherokee a 110 km/h pela rodovia Interstate 64, no estado do Missouri, quando, sem qualquer ação do motorista, o ar-condicionado entrou em funcionamento, o rádio sintonizou sozinho e no volume máximo uma emissora não desejada, o limpador de para-brisa foi acionado e um corte na transmissão resultou na perda total da função do acelerador. No display do sistema multimídia surgiram as imagens dos pesquisadores Charlie Miller e Chris Valasek, responsáveis pela experiência. Confortavelmente sentados a 16 quilômetros da cena, precisaram apenas de um laptop e uma rede de internet sem fio para invadir o utilitário e assumir o comando dos sistemas veiculares.

Em relação à manutenção desses veículos, o sensoriamento e a indicação da peça a ser reparada serão questões centrais. Nesse sentido, Danilo Lapastini mencionou a entrada do 5G. “Tenho quase certeza que os micro sensores vão indicar a peça que será substituída”, comentou. As montadoras terão o acesso a todas informações do veículo.

Gerson Prado, da SK Automotive, acrescentou que, com o avanço da digitalização, a cadeia de valor do setor de reposição será alterada e que, junto com a telemática, mudará a maneira como se consomem peças. Ressaltou que quem mais corre risco são as marcas, pois o sistema decidirá qual peça será reparada.

Na prática, para as oficinas a concorrência será desleal, conforme opinou Silvio Cândido, da Peghasus. “Não conseguiremos chegar ao consumidor para vender a peça”. Já sob o ponto de vista do varejo, Rodrigo Carneiro, da Mercadocar, foi otimista, mas com ressalvas. Disse que o varejo tem enorme capacidade de se renovar, mas voltou a manifestar preocupação com o gap entre a evolução tecnológica e a informação de qualidade. “Todos os elos devem produzir informação com qualidade”.

Encerrando a questão, Gerson Prado lembrou que há alguns anos Europa e Estados Unidos se organizaram e pressionaram o Parlamento e o Congresso para regulamentação das informações geradas. “Não vejo esse movimento no Brasil e isto é preocupante. Se o sistema decidir que peça será substituída, a marca e o mecânico serão os setores que mais sofrerão”.