Ciclo de crescimento à vista

Dan Ioschpe é presidente do Sindipeças e deu sua opinião no Painel Inova Perspectivas 2020 sobre o Brasil.
Por Dan Ioschpe*

As expectativas no Sindipeças para 2020 são de um bom ano na nossa atividade, puxado pela produção de veículos, que deverá manter a sequência de crescimento no Brasil. Seria o quarto ano de expansão, após a grave crise de 2014, 15 e 16 – a partir de 2017, engatamos um bom ritmo.

Também deveremos ter um crescimento razoável na distribuição e na reposição. Na exportação, seja de veículos ou autopeças, ainda temos que lidar com a crise da Argentina. O país teve uma queda significativa a partir do meio de 2018 e uma queda muito forte em 2019. E não estamos prevendo recuperação já a partir de 2020 e sim a manutenção do nível de 2019, que é baixo, é um mercado que se reduziu pela metade e que respondia por quase 70% da exportação de veículos a partir do Brasil e por cerca de 30% no caso de autopeças fora dos veículos.

Na economia, esperamos uma aceleração do crescimento, o que é muito importante para toda a nossa atividade. Um fator fundamental da recuperação neste momento é a questão dos juros, que também está ancorada na inflação e na melhoria do quadro fiscal. Esse é ainda um grande desafio que o Brasil precisa enfrentar nos próximos vários anos. Termos concluído a reforma da Previdência, mesmo que com uma demora significativa, nos aponta que há um bom caminho para o equacionamento da questão fiscal em médio e longo prazo já a partir de 2020. E isso ajudará muito a ancoragem das expectativas inflacionárias e, portanto, da taxa de juros e do próprio câmbio. Isso tudo traz uma tranquilidade macroeconômica que é fundamental para o crescimento de qualquer atividade.

Lá fora é um mundo mais turbulento pelas discussões essencialmente comerciais lideradas pelos polos China e Estados Unidos. Mas também temos o Brexit, questões do Oriente Médio, enfim, não vai ser um ano tranquilo lá fora – inclusive o Brasil será um dos poucos países que deverá ter crescimento da produção e da venda de veículos em 2020. Um pouco na contramão do mundo, mas positivamente na contramão desta vez.

Sobre a continuidade das reformas e do avanço das políticas em curso no Brasil, a gente deve seguir com alguma reforma estruturante, seja a tributária, a administrativa ou ambas, e também a relação entre federação e estados, o marco federativo. São discussões relevantes. Eu diria que, para o nosso setor e a economia em geral do país, a reforma tributária é muito importante. A simplificação na forma de prestação dos tributos, a redução da insegurança jurídica e maior neutralidade do sistema tributário, em que a gente não aja operacionalmente em razão da forma de tributação e sim ao reverso, seriam avanços positivos para o país. Assim como no caso da Previdência, não há resolução do dia para a noite e esperamos que se inicie, a partir das duas reformas propostas no Senado e na Câmara, um movimento para que isso ocorra e que seja dado um prazo de transição provavelmente longo para que não haja quebra do sistema e de determinados setores de atividade nesse interim. Mas inciar e ancorar as expectativas é muito importante e, por isso, a gente espera que esse tema tenha um avanço significativo em 2020, preferencialmente no primeiro semestre, porque no segundo há eleições municipais e a agenda se perde um pouco.

Outro assunto importante, que talvez nos ajude mais em 2021 e 22, é a infraestrutura. Há um movimento de se lançar projetos, concessões e alienação de ativos públicos, o que leva tempo. Existe uma série de requerimentos para que isso seja feito sem insegurança jurídica para qualquer das partes. Provavelmente teremos um movimento mais robusto de estradas, portos, aeroportos, saneamento, energia elétrica, petróleo e gás e outras atividades mais ao final deste ciclo de governo, nos anos 2021 e 22, o que deve ajudar bastante a economia e o emprego.

Se houver a continuidade desse cenário macroeconômico equilibrado, a recuperação de empregos e a melhoria das questões estruturais no Brasil – como as que eu mencionei neste texto – caminharemos na boa direção e provavelmente continuaremos tendo anos de crescimento no setor automotivo.

E, por fim, a importante abertura do Brasil, que está em curso. Vemos com bons olhos a necessária integração do Brasil ao mundo, é claro que feita com horizontalidade, gradualismo e transparência. Entendemos que essas condições são essenciais para que isso ocorra de forma adequada. Temos algumas diferenças eventuais em relação à forma que se pretende fazer certos atos, como, por exemplo, ações unilaterais em que a gente não vê que as três condições estejam sendo preenchidas, mas a direção é boa.

Tudo isso dito, estamos razoavelmente otimistas para mais um ano de crescimento em 2020 e, provavelmente, um ciclo de crescimento que se estenda além do ano que vem, o que será muito positivo para todos.

*presidente do Sindipeças