Cartão personalizado avança no varejo brasileiro e já impacta todos os portes de empresas

Lucas Torres [email protected]

De acordo com a Sociedade Brasileira de Varejo e Consumo (SBVC), os chamados cartões ‘Private Label’ – isto é, voltados ao uso específico para compras em determinada empresa – cresceram 16% no ano de 2019, último em que a entidade realizou o levantamento. A solução tem por objetivo atender a três demandas bastante presentes no país: oferecer uma alternativa à escassez de oferta de crédito por parte de grandes players do setor financeiro; aumentar o acesso a serviços desta natureza a cidadãos tradicionalmente excluídos do movimento de bancarização; dar aos varejistas uma nova alternativa de fidelização.

É dentro deste movimento que empresas como a Uze têm se consolidado como parceiras populares de médios e pequenos varejistas em todo o território nacional, bem como surgido como uma ferramenta para oferecer crédito personalizado nas operações B2B entre microempresas e negócios maiores. Para conhecer um pouco mais do mundo da solução de cartões personalizados para o setor varejista, seus benefícios sociais e corporativos, bem como posicionar nossos leitores sobre possíveis oportunidades neste sentido, o Novo Varejo traz uma entrevista exclusiva o CEO da Uze, Luciano Brito.

Novo Varejo – Como o cartão ‘Private Label’ democratiza o acesso ao crédito para perfis que não necessariamente são contemplados pelos grandes bancos e players financeiros do país?

Luciano Brito – Quando levamos o nosso cartão personalizado para o mercado varejista, estamos automaticamente trazendo para esse mercado pessoas que não têm muita habilidade com produtos bancários ou que nunca tiveram a condição de ter esse acesso. A gente foca muito no público C, D e E, que é exatamente onde estão os desbancarizados. Assim, essas pessoas – muitas vezes profissionais autônomos para os quais as portas do crédito tendem a estar fechadas – podem comprar suas necessidades em um supermercado, em uma loja de material de construção ou em uma loja de autopeças com um cartão de crédito. Este é um trabalho que fazemos com muito orgulho. Estamos sempre recebendo relatos de pessoas agradecendo essa oportunidade, o que é muito gratificante e prazeroso.

NV – E para o varejista, quais são os principais benefícios da solução direcionada ao empresário do setor? LB – Um dos principais benefícios para o varejista é a fidelização do cliente. Sempre que fazemos uma pesquisa neste sentido, percebemos que toda vez que existe uma oscilação de mercado as lojas acabam diminuindo o percentual de venda na maior parte dos meios de pagamento. Já no meio personalizado, que está oferecendo um crédito especial e exclusivo, as vendas tendem a se manter ou até aumentar – a depender da ocasião. Outro benefício importante diz respeito ao aumento do tíquete médio. Você imagina uma pessoa que chega ao supermercado e tem apenas o dinheiro que sobrou naquele mês – apertado e contadinho. Quando você disponibiliza uma oferta de crédito especial com a qual o consumidor pode parcelar a compra, assim como ter descontos específicos e exclusivos, você acaba permitindo que ele compre mais produtos. Saliento ainda o benefício da melhora da reputação e do fortalecimento da marca, já que estes clientes satisfeitos tendem a disseminar essa informação, atraindo novos potenciais clientes para o varejo que oferece o cartão  personalizado.

NV – Pelo que você relata, o cartão personalizado funciona em uma dinâmica parecida com aquela em que antigos carnês operavam, não? Quais são seus diferenciais na comparação com aquele modelo?

LB – Com certeza, o carnê também é uma oferta de crédito. O cartão replica este fator, mas, claro, sendo uma etapa mais evoluída. Antigamente, o consumidor ia até a loja com aqueles papéis todos na mão. Hoje não. Hoje ele entra com um cartão com a marca daquela empresa varejista, aumentando sua praticidade e organização. Além disso, isto é fundamental, saliento que o cartão Private Label funciona tanto no meio físico quanto no online.

NV – Em geral o público para o qual vocês miram suas ações tende a ter a aquisição de crédito dificultada em razão do chamado risco de crédito. Ou seja, os bancos acabam enxergando nestas pessoas uma probabilidade maior de ocorrer a inadimplência. Como vocês veem este limiar delicado? O varejista está completamente coberto em caso de inadimplência?

LB – O varejista está completamente coberto. Afinal, nosso produto funciona como um cartão de crédito normal, com as mesmas funcionalidades. A única diferença é que, no lugar do consumidor poder utilizá-lo em rede aberta, ele só pode comprar especificamente nos estabelecimentos do varejista que emitiu o cartão. Quanto à avaliação de riscos, destaco que possuímos métricas importantes de administração de risco a partir do uso de ferramentas de mercado e modelos estatísticos de risco. É verdade que os grandes bancos e grandes players do setor financeiro não oferecem crédito para essas pessoas. A gente, por outro lado, confia que este cliente irá ter uma boa relação conosco, aprendendo a usar aquele crédito de maneira consciente a fim de usá-lo para pagar suas compras com recorrência.

NV – Gostaria que você falasse um pouco sobre o perfil dos clientes da solução da Uze. Os varejistas com os quais vocês trabalham consistem, em sua maioria, em grandes, médios ou pequenas empresas? Como está essa distribuição atualmente?

LB – Um foco importante que a gente tem é naqueles varejistas regionais. Isto é, eles podem estar em qualquer lugar do Brasil, mas, em geral, possuem uma força muito especial naquela região em que atuam. Às vezes tendemos a enxergar apenas São Paulo como grande propulsor da economia nacional, mas quando a gente chega a outros centros, notamos que existe uma empresa ali que é referência. Sempre tem, nesses lugares, aquela empresa que está ali há 20, 30, 40 anos e continua crescendo – a despeito da chegada de players gigantes. Este varejista é nosso principal foco. Nós atuamos com muita força no mercado regional – de norte a sul e o nosso varejista é muito forte regionalmente. Mas também conseguimos atender outros perfis. Do médio ao pequeno e, hoje, até mesmo ao micro. A dinâmica com este microempresário, no entanto, acaba sendo um pouco diferente. Ela é mais voltada para o B2B. Oferecemos a ele acesso a um cartão personalizado de uma empresa maior, aquela que o abastece, de modo que ele possa ter condições especiais na hora de preencher o seu estoque.