Brasil colherá em 2020 os frutos de uma política econômica responsável

O economista Silvio Campos Neto avalia como será o ano econômico do Brasil em 2020.
Silvio Campos Neto avalia o 2020 do Brasil
Por Lucas Torres

Depois do clima de otimismo que tomou conta do setor produtivo brasileiro após a eleição de Jair Bolsonaro e a formação da equipe econômica comandada por Paulo Guedes no fim de 2018 e início de 2019, um sentimento de incertezas e frustração se abateu sobre parte da sociedade nos primeiros meses do ano. Entre as razões dessa mudança nos ânimos, fatores como as dificuldades de negociação em torno da Reforma da Previdência, a estagnação dos índices econômicos ao longo do primeiro semestre e as polêmicas permanentes criadas pelo próprio presidente da República e seus três filhos políticos.

Gradativamente, porém, a economia foi mostrando recuperação sólida muito em razão da manutenção de uma taxa de juros reduzida a níveis históricos (5% atualmente) e uma inflação para lá de controlada com um Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) em 3,52.%.

A melhora das ‘bases econômicas’ já começa a impulsionar agregados importantes, como a queda do desemprego – que desceu a 11,6% em outubro – e o índice de consumo das famílias, que, embora não tenha tido seus números do último trimestre consolidados, carrega boa dose de otimismo por parte dos analistas econômicos acerca de um crescimento acentuado no período – basta ver como foi a recente Black Friday.

Como resultado, essa ‘corrente positiva’ impulsionou a expectativa de uma alta do PIB na casa de 1,1% em 2019 e uma previsão de crescimento de 2,24% no próximo ano, desempenho que marcaria a maior alta desde 2013, quando o acumulado das riquezas nacionais avançou 3%.

Nesta edição em que o foco do Novo Varejo está voltado para as perspectivas do ano que se inicia, buscamos entender em que medida o ano de 2020 já começa embalado pelas boas notícias que marcam o segundo semestre de 2019.

Nosso convidado para a entrevista do mês é o economista Sílvio Campos Neto, mestre na disciplina pela FGV-SP e economista-sênior da empresa Tendências Consultoria Integrada.

Para ele, o atual bom momento da economia reflete um trabalho de recuperação e mudança de gestão iniciado ainda em 2016 com uma agenda reformista e de responsabilidade fiscal implementada pela equipe de Henrique Meirelles e continuada pelo time de Paulo Guedes.

Segundo o especialista da Tendências, essa restruturação responsável impulsionará a manutenção de um crescimento gradual e sustentável, com uma dinâmica diferente do que se viu com o ‘boom’ experimentado entre os anos de 2004 e 2012.

Novo Varejo – Nas últimas semanas, o Boletim Focus, divulgado pelo Banco Central, vem elevando suas projeções de crescimento para a economia do Brasil. Em projeção do dia 9 de dezembro, por exemplo, os economistas apontaram que o PIB brasileiro deve crescer 2,24% no próximo ano, resultado que marcaria a maior alta desde 2013, quando o indicador avançou 3%. A que se deve esse otimismo?

Silvio Campos Neto – Basicamente o Brasil vem em um processo de recuperação das bases econômicas. Passamos por uma grande mudança na gestão da pasta desde 2016, com a volta de uma agenda reformista e da responsabilidade fiscal. Isso impulsiona a recuperação da confiança dos agentes e, consequentemente, gera um clima de otimismo. Passados os grandes focos de incertezas que tivemos no final de 2018 e início de 2019 – como as eleições federais e estaduais e as discussões em torno da Reforma da Previdência –, a tendência é que o Brasil passe a colher os frutos desses ajustes importantes que tivemos na política econômica.

NV O dólar americano tem decolado em relação ao real nos últimos dias e na cotação desse mês de dezembro tem flutuado entre R$ 4,15 e R$ 4,20. O quanto o fator cambial pode prejudicar esse ‘impulso’ que nossa economia parece estar dando amparada por elementos como a queda na taxa de juros e os baixos índices de inflação?

SCN – Não acredito que venha a prejudicar. É claro que, se tivermos uma continuidade desse movimento de alta, os efeitos serão negativos, mas a expectativa é que a moeda americana se estabilize nesse patamar que está hoje, paralisando essa ‘escalada’. É bom lembrar que temos um fator externo pressionando essa alta e é daí que vêm os maiores riscos. Mas, mesmo diante dessa ‘ameaça’, é pouco provável que a questão cambial impacte a inflação, que está controlada, e a taxa de juros, que está em 5%, dois dos principais pilares dessa recuperação econômica. A alta do dólar pode, inclusive, servir como um certo alívio para setores que têm na exportação sua principal atividade.

NV – Um dos índices positivos que causam maior controvérsia na atual conjuntura é a queda do desemprego, que, em outubro, foi reduzida para 11,6%. Mas ainda acompanhada de uma parcela importante de informalidade. Como vai a empregabilidade no Brasil e que impacto essa conjuntura pode ter na recuperação da economia?

SCN – Tradicionalmente o mercado de trabalho é a última questão a ser recuperada depois de uma recessão ou crise econômica. A gente, porém, já tem visto uma recuperação. São sete meses seguidos de resultados positivos em relação à criação e preenchimento de vagas formais apontados pelo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged). Essa recuperação, se olharmos com mais cuidado para os últimos três meses, tem produzido um aumento no consumo das famílias. Recuperação lenta, mas que vem acontecendo de maneira gradual, impulsionada também pela melhora da situação do crédito, devido à diminuição das taxas de juros. São situações que aos poucos vem se encaixando. Primeiro se estabeleceu uma linha positiva para a política econômica, agora vemos o mercado de trabalho recuperando e a confiança dos consumidores começando também a se recuperar.

NV – Falando ainda de confiança do consumidor, que é o ponto muito sensível para a atividade varejista, é possível vislumbrar uma melhora nesse atributo e um consequente aquecimento do consumo em 2020?

SCN – A confiança do consumidor e as vendas no comércio vêm apresentando uma melhora gradual. Tenho certeza que seus leitores varejistas já vêm sentindo esse movimento. O Black Friday, por exemplo, que aconteceu há poucos dias, já mostrou essa tendência de melhora no consumo. Claro que, de novo, é algo que vai ocorrer de maneira gradual. Não vamos experimentar novamente aquela ‘festa’ vivida entre os anos de 2004 a 2012, mas o consumo vai retornar à medida que a economia avance e se consolide. E isso já está acontecendo de uma maneira sólida, ancorada no aumento da massa de renda, dos juros e da concessão de créditos, da responsabilidade fiscal.

NV – Depois da batalha para a aprovação da reforma da previdência em 2019, o próximo ano terá, provavelmente, o protagonismo das discussões mais acentuadas em torno da reforma tributária. O quanto o andamento desse tema no Congresso deve repercutir o humor de nossa economia, para o bem ou para o mal?

SCN – Não vejo o debate em torno da questão tributária com potencial para abalar o crescimento econômico que estamos vendo, pois, apesar de ser uma questão importantíssima para a atividade empresarial, ela não tem o caráter de ‘vida ou morte’ que tinha a Reforma da Previdência. Se passar no Congresso, no entanto, será algo muito bom e vai tornar o país mais eficiente.

NV – E qual é sua expectativa quanto à aprovação da reforma tributária?

SCN – Eu não espero que o Brasil aprove uma reforma tributária ambiciosa, vejo muita dificuldade nesse sentido. Se conseguirmos passar algo positivo, vai ser até melhor do que a gente espera. É entendimento unânime que a questão dos impostos – federais, estaduais e municipais – é bastante complexa. Penso que é até mais difícil que se alcance um consenso em torno do tema em comparação ao que ocorreu em relação à Previdência. Para que a reforma passe, terá de haver um esforço conjunto entre o Congresso, que tem mostrado apoio a uma agenda reformista, e a equipe econômica. Pois o governo, em si, não tem uma base formal.

NV – Diante deste cenário que mistura otimismo quanto a uma retomada aos níveis pré-crise de 2013 e alguma incerteza quanto a qualidade dos empregos, o cenário internacional e a habilidade de negociação do governo em torno de temas sensíveis para a consolidação desse ‘momento de respiro’, você acredita que 2020 será, para o empresário (sobretudo o do varejo), um ano de sobrevivência, estabilidade ou investimento?

SCN – Eu creio que esse é um ano com um viés muito mais para investimento por conta desse ajuste que o Brasil vem passando após um longo período de excessos e irresponsabilidades na política econômica. Os ajustes já foram feitos e o momento é, sem dúvida, de uma recuperação mais graduada do que acelerada. Mais sustentável. Já está bastante evidente uma mudança de cenário em relação ao que a gente viveu entre 2014 e 2017. Como eu disse anteriormente, não vamos ver um ‘boom’ como o que se viu entre 2004 e 2012, mas a retomada vai acontecer. Aliás, já está acontecendo. Números já têm mostrado isso. O ponto da maior facilidade e melhores condições para se conseguir crédito para pessoa física é destaque nesse processo.