Apesar de bom momento, mercado de carros usados não tem crescimento garantido em 2021

Ilídio dos Santos
Por Lucas Torres

A rápida reação do mercado de veículos usados foi um dos principais destaques do setor automotivo no ano de 2020. Mesmo em um ano marcado pela pandemia da covid-19 e toda a dramaticidade econômica trazida por ela, o segmento apresentou altas significativas no decorrer de todo o segundo semestre, culminando com um crescimento de 23,6% no volume de vendas registrado em dezembro de 2020, no comparativo com o mesmo período de 2019.

Embora traga expectativas positivas para os lojistas e, claro, todas as áreas que se correlacionam com o mercado de veículos usados – com destaque o aftermarket automotivo, beneficiado em todos os seus elos pela expansão dos negócios envolvendo os carros usados –, o fechamento ‘com chave de ouro’ do último ano não garante a continuidade de um crescimento ininterrupto para 2021. De acordo com o presidente da Fenauto, Ilídio dos Santos, a escalada de bons resultados ao longo deste ano depende da solidificação da recuperação econômica, bem como de questões ligadas à celeridade da resolução do cenário de crise sanitária e a necessidade de se adotar, ou não, medidas de isolamento social e fechamento do comércio. Além das incertezas características do momento, o dirigente destaca o temor do setor em relação ao impacto do aumento expressivo do ICMS no Estado de São Paulo – iniciativa que, segundo ele, poderá provocar o fechamento de empresas e demissões massivas entre os players que operam no território paulista.

Novo Varejo – De acordo com dados da Fenauto, as vendas de veículos usados em dezembro de 2020 superaram em 23,6% as registradas no mesmo período em 2019. Este dado, de certa forma, surpreende – tendo em vista as dificuldades econômicas vividas pelo país em um ano marcado pela pandemia?

Ilídio dos Santos Sim, nosso setor foi muito rápido e sofreu menos na retomada dos negócios. Isso porque focamos muito nas vendas em ambiente digital, já que estávamos todos em quarentena. A FENAUTO, em “lives” produzidas com o setor, incentivou esse tipo de ação criativa e inovadora a fim de oferecer soluções para os lojistas continuarem gerando negócios. O resultado foi que, com o início da flexibilização, os números de vendas começaram a crescer e atingiram patamares muito além de nossas expectativas, já que no começo da pandemia, prevíamos um cenário bem mais dramático.

NV – Vocês têm dados capazes de mensurar a influência do auxílio emergencial na venda de veículos usados? Ou, se não a partir de dados, alguma percepção do setor sobre o impacto dessa ‘renda excepcional’ neste mercado?

IS – Não podemos afirmar objetivamente que os clientes fizeram uso do auxílio emergencial para a compra de veículos, mas sabíamos que eles não tinham desistido da compra, apenas adiado o momento de adquirir um carro. Nossa previsão foi tão acertada que fizemos até uma campanha publicitária na TV com o mote “Carro seguro é o seu carro”, prevendo que após o período crítico da pandemia as pessoas iriam evitar o uso de transportes coletivos, táxis e aplicativos, preferindo adquirir um veículo. As vendas mês a mês e o resultado do ano comprovaram nossas previsões.

NV – O fato de o mercado ter encerrado 2020 em uma curva ascendente oferece a projeção de uma continuidade de aquecimento ao longo de 2021?

IS – Com os números positivos contínuos nos últimos meses, acreditamos que poderemos ter, sim, um ano melhor em termos de resultados – lembrando que dependemos da recuperação da economia como um todo e de que não haja um novo retrocesso na situação de isolamento social, com fechamento do comércio.

NV – Temos visto grande mobilização das entidades ligadas ao comércio de veículos usados em relação ao aumento de mais de 200% no ICMS imposto pelo governo paulista ao segmento. O quanto essa alta pode prejudicar as empresas do setor?

IS – Se o governo de São Paulo não revir essa situação, vai inviabilizar a própria sobrevivência do setor no estado. Só no Estado de São Paulo são 12.500 lojas multimarcas de veículos seminovos e usados, que empregam perto de 300 mil pessoas. Um aumento de 207% no ICMS é brutal e os lojistas não têm como absorver ou mesmo repassar para o consumidor final. Essa medida, se continuada, vai promover, ao invés do aumento da arrecadação como pretende o governo, a evasão fiscal, o fechamento de milhares de lojas e o desemprego em massa, entre outros pontos negativos, como a possível informalidade. Estamos prevendo que perto de 40 mil pessoas ficarão desempregadas nos próximos dois meses, além de atingir, também, outros setores que dependem do comércio de carros usados, como mecânicas, autopeças etc. Entendemos que o governo do Estado de São Paulo deveria promover um ajuste fiscal em suas contas e não jogar nas costas dos empresários.

NV – Há expectativas reais de conseguir, assim como o agronegócio, reverter o aumento? Ou, ao menos, suavizá-lo?

IS – a Fenauto, aliada a outras entidades do setor automotivo, tem trabalhado intensamente desde fevereiro de 2020 nesse assunto, buscando uma solução satisfatória para evitar o risco de fechamento de lojas e o desemprego de profissionais. Nossa entidade está atuando em uma ampla frente, junto com outras entidades, buscando alternativas judiciais para tentar barrar essa decisão, já que foram esgotadas as tentativas de diálogo para adiar essa medida até que chegássemos a um acordo satisfatório. Esperamos que essas medidas surtam o efeito suspensivo que desejamos, até que as negociações avancem e cheguemos a uma solução menos prejudicial. Além dessas ações, a Fenauto apoia as manifestações dos lojistas multimarcas no Estado de São Paulo, desde que realizadas de forma cívica, pacífica, com respeito às leis e todos os cuidados sanitários previstos pelas autoridades.

NV – O governo paulista alega que o aumento de ICMS reflete a necessidade do ‘reacordo de um pacto de solidariedade’ dentro do qual o setor de vendas de automóveis – beneficiado, segundo o governo, por uma série de isenções fiscais nos últimos anos – deverá participar com uma fatia maior de seus lucros para auxiliar o estado no cumprimento com suas obrigações de pessoal e com a cobertura dos gastos com a pandemia. Como vocês enxergam esse aspecto ‘social’ da medida?

IS – A afirmação do governo de São Paulo, de que a reivindicação da redução da base de cálculo é um “benefício fiscal”, não condiz com a realidade, pois o veículo já foi tributado integralmente antes e, quando usado, é o único bem usado que conhecemos que sofre essa tributação. A nosso ver, ele deve ser tributado apenas sobre a margem de sua revenda, o que seria uma carga fiscal justa para os lojistas. O governo fala em “pacto de solidariedade”, mas nunca, nas poucas discussões que tivemos com ele, nos propôs alternativas menos impactantes. Simplesmente colocou as suas condições sobre a mesa e estabeleceu que seriam assim. Ou seja, quando se fala em pacto, presumimos que haja uma convenção entre duas ou mais partes, com a anuência delas para o que foi combinado. Mas não foi isso que aconteceu. O governo do Estado de São Paulo simplesmente está impondo condições draconianas ao setor automotivo e isso vai gerar graves consequências em todos os sentidos, inclusive no campo social com um desemprego imenso depois de uma pandemia cruel que já ceifou milhares de empregos.

NV – Um dos principais efeitos deste aumento substancial do ICMS, de acordo com a Fenauto, é a demissão de uma parcela significativa da mão de obra do setor, como alternativa encontrada pelas empresas para ‘compensar’ a redução da margem de lucro a partir de agora. Vocês já receberam sinalizações dos empresários do setor nesse sentido ou é apenas uma relação lógica de ‘causa-e-efeito’?

IS – É provado que todo efeito tem uma causa. A causa das demissões será a impossibilidade de os lojistas arcarem com esse aumento do ICMS sobre a parca margem de lucro que têm na venda de veículos usados (que gira em torno de 8% a 10¨% do negócio). Já recebemos muitas sinalizações de vários empresários, afirmando que, além desse aumento brutal, têm gastos com outros impostos como PIS, Cofins, aluguel, folha de pagamento etc. É inviável manter um negócio legalmente estabelecido com essa carga de impostos. Boa parte está sendo empurrada para a informalidade, ou seja, um tiro no pé do governo.

NV – Podemos chegar ao extremo de vermos lojas abandonando o Estado de São Paulo para operar apenas em unidades federativas com regras tributárias mais ‘amigáveis’?

IS – Com certeza, como já dissemos, muitos lojistas multimarcas irão realizar negócios em outros estados onde a tributação é menos onerosa. Deixarão São Paulo, que hoje é responsável por perto de 35% dos carros usados vendidos no Brasil, para realizarem negócios. Afinal, eles precisam sobreviver.