ANDAP completa 50 anos atenta à transformação digital no mercado

Claudio Milan [email protected]

Em 1971, os empresários mais atuantes da distribuição de autopeças no Brasil decidiram unir o segmento fundando uma entidade capaz de estruturar a comercialização de autopeças no País. Nascia assim a ANCAP – Associação Nacional do Comércio de Autopeças. A entidade desde cedo reuniu as maiores empresas do mercado, que até então apenas se misturavam com os varejistas nos sindicatos. Um dos princípios de atuação era fortalecer o modelo de cadeia de venda dos componentes automotivos, então organizada nas etapas da indústria – distribuição – varejo – aplicação/reparação. Ao longo de meio século muita coisa mudou.

A começar o nome da entidade, que migrou para ANDAP – Associação Nacional dos Distribuidores de Autopeças, dando mais destaque ao foco de atuação do grupo. Bem como o próprio mercado. A cadeia de comercialização de componentes automotivos se tornou muito mais flexível; as outrora atraentes margens de lucro deram lugar a uma busca incessante pelo volume; e os automóveis gradativamente viram os sistemas mecânicos serem substituídos por dispositivos eletrônicos.

E agora chegamos à era da conectividade e da digitalização, que traz novos e inéditos desafios ao Aftermarket Automotivo. Estes certamente merecerão atenção por parte ANDAP, que segue em seu compromisso de trabalhar pelo aprimoramento dos distribuidores e do mercado de reposição como um todo. Para comemorar os 50 anos de atuação da entidade, entrevistamos seu presidente, Rodrigo Carneiro, que encerra o mandato no próximo dia 23 de janeiro de 2022.

Na conversa com a reportagem do Novo Varejo, o executivo fala das conquistas de sua gestão, da reposição independente em tempos de pandemia e dos próximos desafios que se apresentam ao mercado.

Novo Varejo – Quais foram as principais conquistas da Andap em 50 anos de história? Rodrigo Carneiro – Muitas são as conquistas ao longo de meio século em todas as áreas que envolvem a distribuição de autopeças, seja gestão, tributária, capacitação, entre tantas outras. A Andap reuniu as principais empresas do setor e as manteve unidas e fortalecidas, passando por os mais diferentes planos econômicos acompanhando a evolução do mercado. As empresas se fortaleceram e criaram uma rede de distribuição forte e altamente produtiva com uma fabulosa capilaridade para atender todo o território nacional. O mercado de reposição no Brasil tem peculiaridades únicas, sendo responsável por 80% da manutenção da frota circulante estimada em mais de 45 milhões de veículos.

NV – Quais são as ações da entidade para comemorar esse ano tão  especial?

RC – Há uma série de ações que envolvem mudanças na comunicação e eventos online – buscando principalmente o desenvolvimento e divulgação de conteúdo voltado para atualização em gestão – que marcarão esse ano especial para a entidade, que congrega os maiores e mais representativos grupos da distribuição de autopeças do País. Reunindo empresas tradicionais que fizeram história no aftermarket brasileiro presentes com suas filiais em todo o território nacional, bem como importantes fabricantes, a ANDAP promove um avanço e começa a comemoração de meio século de atividade com a criação do selo alusivo a esta data. A escolha do selo foi realizada por meio de votação digital dos associados que participaram ativamente do processo e que, agora, podem usá-lo em materiais de comunicação. O site da entidade está sendo reformulado e também terá um novo visual em breve. A logomarca foi repaginada, com alteração sútil das letras. Tem muita novidade pela frente na área de comunicação, trabalho realizado pela agência Coral Marketing. Além de criar um plano para intensificar a comunicação que vai atender os canais digitais, a ANDAP está realizando eventos mensais online em celebração aos 50 anos. Em função da pandemia que assola o País e praticamente todo o planeta, os eventos e ações programados no País e no exterior –como Automechanika, Autop, Automec e outros tantos – deixaram de ser realizados.

NV – Em entrevista ao Novo Varejo por ocasião de sua posse na Presidência da entidade os três pilares anunciados como prioridade para a gestão foram: relações institucionais, desenvolvimento de mercado, aprimoramento e ampliação de serviços. Quais foram os avanços em relação a cada um destes pilares até o momento?

RC – Avançamos bastante em todas as questões propostas, esse está sendo o foco desta gestão e temos trabalhado para isso. Evoluímos nas relações institucionais com entidades de classe e em todas as esferas governamentais; no desenvolvimento de mercado temos nos empenhado muito em levar informação de qualidade, objetivando manter o segmento atualizado; e na ampliação de serviços realizamos eventos nacionais e internacionais no caso do workshop que fizemos durante a Automechanika de Frankfurt, onde compartilhamos a visão do aftermarket nacional com o europeu.

NV – De que forma o segmento da distribuição vem atravessando o período da pandemia e quais serão os principais desafios a superar quando a crise sanitária acabar?

RC – Num primeiro momento foi uma situação delicada, complexa e inusitada, mas, aos poucos, o mercado foi se adaptando e o segmento conseguiu se estabilizar a partir do momento que foi classificado como atividade essencial através de decreto federal. Fizemos vários encontros online durante a pandemia para prestar serviços sobre as mudanças impostas pela situação, procuramos dar suporte e estar próximos dos associados nesse momento tão atípico. A Distribuição cumpriu muito bem o seu papel de manter a frota brasileira – transporte de passageiros, serviços essenciais como saúde e segurança e carga, suportando a manutenção de serviços e atividade econômica.

NV – Como vai a mobilização do Aftermarket Automotivo visando à representatividade do setor em defesa de interesses legítimos, como, por exemplo, a inspeção veicular?

RC – Esse trabalho que é realizado junto com as outras entidades que formam o GMA – Grupo de Manutenção Automotiva, que está na pauta permanente e demanda esforço contínuo para que o tema seja visto pelas autoridades como relevante, uma vez que tem como objetivo reduzir os acidentes de trânsito. O programa de Renovação da Frota (Reciclagem Automotiva) que vem sendo discutido contempla a inspeção técnica veicular que vem sendo aventada há mais de 20 anos e ainda não saiu do papel. A frota está envelhecendo e é importante que exista uma forma de fiscalizar as condições dos veículos que trafegam em ruas e estradas do Brasil, medida importante para ajudar a reduzir acidentes, uma vez que a falta de manutenção é uma das causas que levam ao elevado índice de mortes no trânsito.

NV – O mercado vem atravessando forte movimento inflacionário. De alguma forma, ao final do processo, esta onda de reajustes pode contribuir para a recomposição de margens na distribuição?

RC – Esse processo se dá por conta do aumento dos insumos, despesas com transporte durante a pandemia, principalmente de insumos importados que desregularam os mercados. Com o tempo, a tendência é que a situação se estabilize, esperamos.

NV – Em relação ao desabastecimento que vem interferindo nos negócios desde o ano passado, qual a situação atual e quais são as perspectivas de regularização no fornecimento?

RC – É importante destacar que a pandemia trouxe situações adversas, como paralisação de fábricas no início da quarentena não só no Brasil, mas no mundo inteiro. A China, primeiro país afetado com a doença, é o maior polo produtivo do setor e também reduziu as atividades no período, a alta do dólar e o momento de disputa comercial acirrada entre Estados Unidos e China acabaram afetando o setor de autopeças no Brasil. Somado a isso, o mercado se recuperou rapidamente, aliás, a reposição é bem resiliente em crises, uma característica muito positiva. Por conta de todos esses fatores, a situação deve se normalizar totalmente até os primeiros meses de 2022. Ficou um gap entre produção e demanda, isso leva um tempo para se reestabelecer, o que é natural em uma condição tão diferente como a que estamos vivendo este ano. A boa notícia é que o mercado não parou na pandemia, as oficinas continuaram atendendo, o que refletiu positivamente em todos os elos da cadeia produtiva, ao contrário de setores que pararam por completo. Insisto em afirmar que mesmo assim a Distribuição conseguiu, com sacrifício de estoques reguladores e margens, manter a frota brasileira de veículos.