2020 começa em clima de otimismo para o comércio brasileiro

Guilherme Dietze, assessor econômico da Federação do Comércio de São Paulo, falou sobre as expectativas para 2020 no comércio brasileiro.
Guilherme Dietze avaliou o 2020 para o comércio brasileiro
Por Lucas Torres

O início de um círculo virtuoso para a economia brasileira com a recuperação de empregos, aquecimento do comércio e responsabilidade fiscal. Assim o assessor econômico da Federação do Comércio de São Paulo, Guilherme Dietze, descreve suas expectativas para 2020.

De acordo com o especialista da principal entidade representativa dos comerciantes paulistas, o cenário composto por uma taxa básica de juros de 4,5% e esforços contínuos da atual equipe econômica para incentivar o investimento privado já tem surtido efeitos positivos no comportamento do cidadão brasileiro.

No aspecto profissional, esses efeitos têm, para Dietze, se dado a partir de uma maior disposição para a atividade empreendedora. O especialista destaca também o crescimento da confiança do consumidor no que se refere às suas perspectivas financeiras – o que facilita uma abordagem mais ativa por parte do lojista. A alta de 2,2% no Índice de Confiança do Consumidor registrada em dezembro de 2019 no comparativo com o mês de novembro é exemplo dessa espécie de ‘embalo’ em que o setor varejista ingressa em 2020.

“Vimos a partir do mês de setembro o início dos efeitos positivos de uma política econômica que visa a impulsionar uma recuperação sólida e sustentável. A tendência é que, em 2020, daremos sequência a esse ambiente de recuperação.”, afirma o entrevistado.

Novo Varejo – A taxa de juros básica inicia o ano em uma baixa histórica de 4,5%. Na prática, como essa redução pode impactar positivamente o comércio brasileiro ao longo de 2020?

Guilherme Dietze – Esse cenário de estabilização e queda de juros já está produzindo efeitos positivos. Os bancos, por exemplo, estão soltando crédito com muito mais facilidade no mercado tanto para as empresas quanto para os consumidores – já que, com a Selic neste patamar, eles se sentem pressionados a buscar mais rentabilidade e assumir um pouco mais de riscos.

NV – O sistema financeiro brasileiro tem passado por uma modernização e tentativa de democratização, com incentivos sendo concedidos a fintechs e bancos digitais. De que maneira esse ‘novo cenário’ pode contribuir para o varejo na tentativa de buscar crédito com condições mais favoráveis?

GD – É inegável que essa perspectiva tem mexido no mercado. Cada vez mais observamos pessoas optando pelos bancos digitais com o objetivo de deixar de pagar mensalidade/anualidade, algumas tarifas de transação, etc. Acredito, porém, que se observarmos pela ótica da ‘grande escala’, esse movimento ainda tem tido um impacto incipiente. No último mês de dezembro, participei de um evento na FIESP no qual foi discutido o potencial absurdo das fintechs em contraste com nossa cultura ainda tradicionalista e conservadora, que faz com que as pessoas até migrem em alguma proporção para esse ambiente novo, mas sempre mantenham um pé nos bancos tradicionais. Se estivermos em busca de um impacto real e imediato na concessão de crédito para os comerciantes, precisamos informar que, por exemplo, existe Crédito Financiado pelo BNDES, pelo movimento Desenvolve São Paulo com condições ainda mais favoráveis que as Fintechs. Nesse momento inicial, vejo o impacto macro das fintechs muito mais na luta pela redução da burocracia do que propriamente pela oferta de taxas mais ‘amigáveis’.

NV – E quanto à escalada do dólar, que tem se mantido acima dos R$ 4,10. O quanto de prejuízo você acha que pode trazer para alguns setores da nossa economia como, por exemplo, o de autopeças – altamente ancorado na importação de insumos e até produtos acabados?

GD – Eu vejo um prejuízo sim, ao menos no curto prazo. No Brasil a gente vive uma desvalorização um pouco acima da média das outras moedas, pelo fato de convivermos com constantes instabilidades políticas, dúvidas quanto ao direcionamento de algumas pautas importantes como a reforma tributária… Isso também é precificado e agrava um ambiente já propenso a essa alta do dólar devido à desaceleração da economia mundial como um todo e à guerra comercial entre Estados Unidos e China, ambos fatores que aumentam a procura mundial pela moeda americana, por seu caráter de ‘moeda segura’. Setores como veículos, higiene e beleza certamente serão os mais afetados em 2020. Acredito, porém, que se o Brasil fizer seu dever de casa com privatizações e outras ações que aumentem o fluxo de entrada de capital estrangeiro, passaremos a estar menos vulneráveis a essas intempéries. A nossa sorte é que a economia está andando bem, com a inflação bem controlada e sem excesso. Para o comércio, esses efeitos, apesar de inevitáveis, vão ser reduzidos de alguma forma a partir da busca de produtos alternativos e da redução de margem.

NV – O Índice de Confiança do Consumidor (IDC) é visto pelos economistas como um termômetro importante para mensurarmos o humor dos brasileiros e sua percepção sobre as perspectivas de renda e condições econômicas do país. Ao observarmos seus números de dezembro de 2019, temos duas possibilidades diferentes de interpretação. A primeira, mais pessimista, é que o IDC caiu 1,4 ponto em relação a 2018, ilustrando um ano de estagnação da vontade de consumo. Já a segunda, mais otimista, indica o avanço de 2,2% em relação ao mês de novembro, o que pode ilustrar uma tendência de que os efeitos positivos da recuperação econômica estejam ganhando embalo para ‘decolarem’ ao longo de 2020. Entre as duas interpretações, qual é a que mais se aproxima da sua?

GD – Com certeza da segunda. Divido 2019 em três períodos: o da euforia que se criou após a eleição do presidente Jair Bolsonaro – que durou até o carnaval; o de um desânimo generalizado a partir da percepção de que o cenário era muito mais desafiador – que perdurou até o final de julho; e o do início dos efeitos positivos de uma política econômica que visa a impulsionar uma recuperação sólida e sustentável, a partir do mês de setembro. A tendência é que, em 2020, daremos sequência a esse ambiente de recuperação.

NV – Alguns especialistas argumentam que, apesar da melhora significativa na questão do emprego, o IDC é influenciado negativamente pela alta taxa de informalidade que acompanha esses novos postos de trabalho. Como você avalia essas interpretações?

GD – Acredito que a gente, hoje, já está em um momento diferente. Depois da crise, o cidadão viu que dá para fazer as coisas por conta própria. A partir do empreendedorismo, dos aplicativos, é possível ganhar um dinheiro e sem os descontos das relações empregatícias tradicionais. É fato que a tecnologia está mudando essa questão do trabalho de uma maneira que ela já o fez com a alimentação delivery e está fazendo com a mobilidade. Consigo ver um lado positivo nesse novo modelo e acredito que as pessoas estão começando a ver também. Apesar da maior instabilidade, dá oportunidade para elas ganharem mais dinheiro e terem mais flexibilidade.

NV – 2020 marcará a intensificação das discussões em torno da reforma tributária, um assunto que há muito tem protagonismo na agenda dos varejistas brasileiros. Nesse sentido, qual é a importância você do engajamento dos comerciantes e suas entidades representativas durante as negociações da reforma? Qual a posição da FecomercioSP sobre o tema?

GD – Essa reforma está muito complexa. Difícil. Uma proposta da Câmara, outra do Senado… O que a gente está esperando é uma ampla discussão em torno dos diversos pontos de divergência existentes em todos os modelos propostos. A Fecomercio espera que não haja aumento de impostos e sim uma redução. Que tenhamos uma primeira união dos impostos federais, para depois dos estaduais. Tudo com muita calma. Não vejo, por exemplo, uma abertura para o IVA nesse momento. É preciso ver setor por setor. O setor de serviços, por exemplo, tem uma alíquota de 5% de ISS e não pode ver isso passar para 15%, 16% como foi ventilado. Pela complexidade do tema, acredito que – mesmo se não conseguirmos mexer nas taxas propriamente ditas – uma conquista no âmbito da simplificação, da diminuição de documentos e da burocracia em geral já ajudaria muito. É isso, aliás, que esperamos que aconteça. Um passo em direção à simplificação e desburocratização sem aumento de alíquotas.

NV – Para o varejo e as empresas do setor, 2020 será um ano de: luta por sobrevivência; estabilização; ou expansão e novos investimentos?

GD – Expansão e investimentos. Tudo levando a crer para isso. Estamos com uma taxa de juros muito baixa, que naturalmente impulsiona investimentos. O mercado de maquininha é outro ator que também tem facilitado muito o fluxo de caixa das empresas e antecipação de pagamentos, diante de tudo que teve esse ano. Taxa 0 para cartão de débito, depósito em até dois dias em operação de crédito ao invés dos 30 dias que eram a prática antigamente. Tudo isso facilita o empreendedor nas tarefas de pagar imposto, pagar funcionário. Agiliza e organiza o processo. No geral, estamos vendo tudo de maneira muito positiva. Tanto em termos de ações do governo e política econômica quanto no aspecto cultural do país. Mais incentivo ao empreendedorismo, menos amarras do Estado, protagonismo da iniciativa privada… Vejo 2020 como o início de um ciclo virtuoso semelhante ao que a gente viveu na primeira metade dos anos 2000, mas com mais sustentabilidade, já que estaremos ancorados no superávit primário e no juro baixo.