Variáveis positivas ratificam perspectiva de um 2018 melhor

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Guilherme Ditze, assessor econômico da FecomercioSP, analisa o momento favorável da economia brasileira

Por Claudio Milan

claudio@novomeio.com.br

Inflação e juros em queda, recuperação gradativa do consumo das famílias e Produto Interno Bruto com variação positiva marcaram o segundo semestre do ano passado e são fatores que sustentam a recuperação da economia brasileira daqui pra frente, na opinião de Guilherme Ditze, assessor econômico da FecomercioSP. Em entrevista ao Novo Varejo, o especialista faz uma análise da conjuntura nacional e destaca o momento favorável para o comércio.

 

Novo Varejo – Quais são os fatores que sustentam a recuperação da economia brasileira?

Guilherme Ditze – É um conjunto de variáveis positivas. Não há somente um ou outro segmento impulsionando o crescimento da economia. No ano passado, tivemos no primeiro e no segundo trimestres um resultado positivo do agronegócio, que foi muito importante; no terceiro, começou a entressafra, por isso o desempenho em relação ao segundo trimestre foi negativo, mas comparado com 2016 foi positivo. Se observarmos a demanda – e eu estou olhando o lado do comercio –, as condições de consumo das famílias melhoraram muito, temos inflação equilibrada e redução da taxa de juros; no primeiro semestre do ano passado, houve injeção de recursos do FGTS; no segundo, do PIS PASEP e, posteriormente, a injeção do 13º – tem mais gente empregada agora, então tivemos uma injeção de 13º maior do que em 2016. O conjunto de variáveis está muito positivo, o que permite esse aumento do consumo das famílias e aumento de confiança dos empresários do comércio, que estão vendo o faturamento crescer mês a mês. E o nível de confiança maior pode projetar mais vendas para o futuro, gerando novas contrações e investimentos.

 

NV – O crescimento é sustentável?

GD – Esse conjunto de fatores favorece o crescimento de curto e médio prazos. As famílias estão consumindo mais devido ao poder de compra maior, há uma capacidade ociosa da indústria, do comércio, tem gente desempregada que pode voltar ao mercado ainda sem grandes problemas para a economia. O risco para o crescimento sustentável é no longo prazo, porque depende de investimentos em infraestrutura. Esse vai ser o calcanhar de Aquiles da economia, e aí entram questões como reforma da Previdência e o déficit das contas públicas no futuro. Mas, no curto prazo, o crescimento da economia tende a consolidar porque as variáveis que definem consumo e investimento de curto prazo estão favoráveis, ou seja, uma geração de emprego muito positiva, especialmente no segundo semestre do ano passado, alastrada nas mais diversas atividades. E agora em 2018 isso tende a aumentar, ou seja, essa captação de quem estava fora do mercado favorece o crescimento da economia numa base de comparação mais fraca. Só que vai chegar um ponto, talvez daqui uns dois ou três anos, em que vamos pensar em como aconteceu o erro do passado – uma matriz de consumo via crédito em que os investimentos não acompanharam, resultando em inflação, pois você tem uma demanda muito grande para uma capacidade limitada da economia. Mas, no curto prazo, eu defendo que o crescimento é consolidado.

 

NV – Estamos em ano de eleição presidencial e as primeiras pesquisas mostram a liderança de um projeto que retoma conceitos que resultaram no desastre econômico que vivemos até recentemente. Que choque esse retorno poderia trazer para o mercado e a recuperação da economia?

GD – Estamos num momento crucial. Não vejo a menor possibilidade de tentar qualquer inovação. Ou a gente vai para um lado ou vai para outro. Não tem meio termo. A plataforma que está liderando as pesquisas propõe o aumento de gastos públicos, o aumento da participação do Estado – e aí a gente não tem capacidade, no momento, para isso. O ideal seria que houvesse a continuidade das políticas econômicas adotadas no momento. A reforma da Previdência precisa ser feita, e não somente a postergação, mas dificilmente será votada este ano em razão das eleições, então será votada no ano que vem. A grande questão é ter um candidato com plataforma minimamente adequada à necessidade atual. Porque qualquer outra tentativa – seja para um autoritarismo de direita, seja para uma coisa mais de esquerda com aumento de poder do Estado – vai desencadear em aumento de gasto público e a gente não tem essa capacidade, nossa divida PIB está entrevada, quase 80% do PIB. Então, é preciso um planejamento de redução de déficit público, redução da máquina pública, tirar muitas estatais ineficientes, de reduzir o gasto de custeio e pensar na Previdência. Porque o grosso está na Previdência, é necessário reduzir os privilégios. Tem que ser de forma justa, estabelecendo equivalência entre os setores publico e privado. Caso contrário, teremos uma reforma para inglês ver, sem qualquer consequência positiva para as contas públicas.

 

NV – Um fato positivo em 2017 foi a redução dos juros. O que essa queda representa para o comércio?

GD – O índice em 2018 deve permanecer muito parecido com o patamar atual, de 7%, no máximo subir para 7,5% pois a inflação deve ter um ligeiro aumento este ano, para algo em torno de até 4,5% porque a safra agora não deve ser tão boa como a espetacular safra anterior. Haverá um aumento de preço de demanda, da energia, alguns fatores que podem pressionar a inflação, o que talvez faça com que o Banco Central alinhe uma taxa minimamente acima do que está hoje. Para o consumo e o comércio há um efeito muito significativo. A gente já nota um alastramento da concessão de crédito, ou seja, as famílias estão cada vez mais contraindo crédito no sistema financeiro, e não somente em uma modalidade, mas nas mais diversas: crédito para veículos crescendo mais de 20%, crédito pessoal, crédito consignado; mesmo o cheque especial, com maior taxa de juros, está crescendo, assim como o cartão de crédito. O crédito é fundamental para a recuperação da economia e manter os juros em patamar baixo é o que vai favorecer o comércio em 2018. Agora, isso favorece os grandes varejos, e aí o produto na ponta fica até mais em conta. Já o pequeno e o médio têm grande dificuldade de adquirir crédito no mercado financeiro para investimento.

 

NV – Em relação aos empregos, especialmente os formais, há expectativa de retomada este ano?

GD – Eu acho que se acelera o processo que já está havendo. Segundo o CAGED, começou com uma geração positiva no setor agropecuário, mas a partir do segundo semestre de 2017 o fenômeno já começou a se alastrar para outras atividades, iniciando-se ainda no segundo trimestre pela indústria de transformação, principalmente de alimentos e bebidas, e agora já está indo para o setor de serviços, o comércio varejistas já está empregando mais. Então os dados estão muito positivos, acredito que este ano a tendência é que 100% das atividades estejam gerando empregos, o que é fator crucial para o aumento de consumo. Iniciamos o ano passado com inflação e juros em queda, mas estávamos esperando, em meados de julho, que a confiança das famílias só retornaria quando houvesse de fato a geração de empregos. E é isso que estamos vendo agora, estimulando as vendas no varejo em todo o Brasil.

 

NV – A reforma trabalhista contribuirá para a geração de empregos?

GD – É muito positiva na teoria. Mas não sabemos, na prática, como vai ser, porque não se conhece ainda a jurisprudência a ser formada para esse assunto, muitos empregadores terão um pouco de cautela, principalmente no trabalho intermitente. É uma tendência que deve ajudar a empregabilidade no país todo, mas eu vejo com um pouco de cautela porque a justiça do trabalho sempre foi muito difícil, muito pró-empregado, e não havendo ainda jurisprudência o empresário fica com certo receito para agir. Tudo indica que as contratações tendem a aumentar, mas os empresários aguardam para ver o novo cenário e contratar com mais certeza.

 

NV – Em 2018 teremos eleições e Copa do Mundo, situação que ocorre a cada quatro anos, além de uma série de feriados prolongados. Especificamente para o comércio, quais impactos podemos esperar?

GD – Esses eventos não alteram muito a dinâmica do varejo, vai ter emprego, vai ter inflação baixa, vai ter crédito, talvez um aumento na venda de eletrônicos em razão da Copa do Mundo, mas o mercado tende a ter o mesmo comportamento. A eleição também não é um fator que muda muito o comércio, o que muda é que o investidor que está olhando a infraestrutura em 10 ou 15 anos tem muito receio do que vai acontecer, mas na medida em que formos chegando mais perto da eleição será possível enxergar com mais clareza.  E eu creio que o cenário não será como está hoje, o que vemos é um retrato do momento, com os candidatos que são conhecidos. De qualquer forma, isso não altera o consumo do dia a dia, talvez afete as decisões de investimentos de longo prazo. Para este ano prevemos um aumento de 5% nas vedas do varejo, com todas as atividades em crescimento, não prevemos nenhuma mudança significativa no quadro atual.

NV – Qual seria sua mensagem de ano novo para o gestor de varejo?

GD – Cada varejo tem sua particularidade e há muitas diferenças entre os setores, por isso não há como deixar uma mensagem padronizada, mas eu acho que é importante dar um voto de confiança aos empresários, até porque nós, que analisamos o varejo, sofremos muito nesses últimos três anos tentando passar algo positivo, sem conseguir encontrar boas notícias. Quando a gente vê a consolidação de praticamente todas as variáveis que afetam o poder de compra das famílias, isso é algo muito positivo, eu como analista tento levar essa mensagem para o varejista. O cenário mudou, agora é aproveitar as vendas, mas, de qualquer forma, a crise trouxe muitas oportunidades e aprendizado, mostrou que o consumidor tem o poder da compra, passamos do tempo em que o cliente ia direto à loja e o varejista ficava só esperando por ele. Há uma nova dinâmica, que é o varejista ir ao encontro do consumidor, seja em mídias sociais, programas de fidelização, aplicativos, promoções, ou seja, o varejista vai ter que incorporar essa tecnologia nova para conseguir atrair clientes porque a concorrência está cada vez maior, a competitividade e o ingresso de tecnologia farão a disputa se acirrar. É um bom momento para o varejista recuperar suas vendas, mas é importante ficar atento às novas tendências que vêm com a tecnologia.

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