Rota 2030 “empurra inspeção com a barriga”

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Prevista no Código de Trânsito Brasileiro, inspeção veicular ainda é peça de ficção

Política setorial que substituirá o Inovar-Auto prevê inspeção nacional, o que pode representar um entrave para a implantação do próprio programa

Claudio Milan

claudio@novomeio.com.br

O novo regime setorial automotivo brasileiro, inicialmente prometido para outubro, tende a ser apresentado apenas no fim do ano. Batizado de Rota 2030, o programa substituirá o Inovar-Auto, que está encerrando seu ciclo de vida condenado pela Organização Mundial do Comércio em razão de práticas tidas como protecionistas.

O atraso se deve à complexidade do programa, que tem exigido debates aprofundados envolvendo diferentes setores da sociedade e órgãos do governo federal. Mas é preciso correr contra o tempo, já que o Inovar-Auto termina em 31 de dezembro e o país não pode se dar ao luxo de ficar sem uma política para o setor.

O Rota 2030 foi um dos temas centrais do 5º Fórum IQA da Qualidade Automotiva, realizado em 9 de outubro em São Paulo. Sob o tema “O Avanço da Qualidade na Revolução Automotiva”, o evento dedicou um painel ao mercado de reposição. Entre os principais tópicos abordados, a inspeção veicular surgiu como uma necessidade urgente, não apenas para impulsionar os negócios do aftermarket, mas também para reduzir o número de acidentes nas vias brasileiras e, assim, preservar vidas.

No entanto, a notícia trazida no Fórum IQA por Elias Mufarej, representante do Sindipeças no evento, não foi das mais animadoras. Segundo o executivo, que também coordena o GMA – Grupo de Manutenção Automotiva, as discussões sobre a implantação da inspeção estariam travadas em razão da própria disposição do Rota 2030 em tornar a abrangência do programa nacional já em sua implantação. “O Rota 2030 começou com um aceno muito importante, que deságua exatamente no mercado de reposição: uma das questões em pauta foi a renovação de frota e a outra seria a inspeção técnica veicular, que antecederia a própria renovação. Mas as notícias que nos chegaram não são muito agradáveis porque houve, por parte da própria coordenação do programa, uma suspensão temporária da discussão sobre a renovação de frota e, também, um impedimento com relação ao estabelecimento de metas para a implantação da inspeção veicular. Surgiram restrições por parte do Ministério das Cidades, através do Denatran e Detrans, em razão de um entendimento de que seria impraticável implantar a inspeção técnica veicular parcialmente nos estados e que ela teria que ser em âmbito nacional. Para ter essa abrangência nacional, haveria uma meta quase impossível de ser atingida. E não foi colocado nenhum termo definido sobre quando haveria o início ou, ao menos, os ensaios para implantação da inspeção técnica veicular. Usando um termo popular, o programa foi ‘empurrado com a barriga’ e não se colocou isso como um ponto importante do Rota 2030. Lamentável”.

A seguir reproduzimos os melhores momentos do debate envolvendo a inspeção veicular no painel dedicado ao mercado de reposição no 5º Fórum IQA da Qualidade Automotiva. O encontro foi mediado por Sérgio Alvarenga, diretor executivo do Sindirepa Nacional e de relações governamentais e institucionais do Sindirepa-SP e contou com os debatedores Elias Mufarej, conselheiro do Sindipeças para o mercado de reposição e coordenador do GMA – Grupo de Manutenção Automotiva; Renato Giannini, presidente da Andap e do Sicap;  Antonio Fiola, presidente do Sindirepa Nacional e Sindirepa-SP; e Marcelo Cyrino, vice-presidente da Fenabrave – Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores.

 

SERGIO ALVARENGA – Estamos na era da indústria 4.0, que é espetacular. A sociedade brasileira deveria aproveitar esse novo momento para uma reflexão. Uma coisa é o que a indústria produz e vai para o carro, é tudo maravilhoso, mas, quando vai para a rua, a coisa muda de cenário. Temos problemas institucionais e com o governo, o governo brasileiro nunca teve entendimento de pós-venda, o setor terciário lamentavelmente não é visto como deveria. Os norte-americanos, por exemplo, têm uma postura muito forte em relação ao pós-venda junto com o governo, e o Brasil lamentavelmente discute questões de sobrevivência de indústria, de empregos do setor primário, extrativista, mas quando vem para baixo ele não enxerga valor.

A importância da manutenção automotiva acaba sendo subestimada pela sociedade, impactando nas ações do governo e no comportamento do consumidor, ou seja, ele conhece bem o que é carro novo, conhece alguns direitos dele, sabe sobre a garantia, mas, depois, é um desastre total. A manutenção não está contemplada. E o governo não oferece o menor estímulo para prevenir acidentes. Você cria uma cultura que acaba incorporada pela tragédia perpetrada pelo prefeito anterior de São Paulo, desestimulando uma cultura que estava sendo construída de manutenção preventiva com a inspeção que foi jogada no chão. E aí volta aquela rotina de calibrar pneu e encher o tanque. A gente tem uma sociedade que não enxerga direito o pós-venda como um todo e o governo também tem uma percepção muito baixa e quase não nos envolve nas questões estruturais do país quanto ao pós-venda.

 

ANTONIO FIOLA – Esse é o assunto que toca o nosso dia a dia na gestão da entidade e dos negócios. Quem tem mais de 40 anos lembra que o consumidor morria de medo de ficar sem carro e ele mesmo programava a manutenção junto à concessionária ou sua oficina de confiança. Com o passar do tempo, graças à evolução tecnológica dos veículos e a uma série de compromissos que esse consumidor passou a ter no orçamento mensal – celular, TV a cabo, seguro – ele deixou de dar a mesma atenção para o veículo. Se o carro quebrar e estiver segurado, ele usa o celular e chama o guincho. Tudo aquilo que ele não tinha antes e passou a ter faz com que ele se acomode e gaste mais para corrigir do que gastaria se fizesse a prevenção. A gente vem tentando, através do nosso grupo da manutenção e do Carro 100%, conscientizar esse consumidor sobre a importância da prevenção. Mas é claro que o poder público poderia nos dar uma mão e inspecionar esse veículo. Quando há um acidente de grandes proporções sempre se pergunta se faltou manutenção naquele caminhão. E aí você vai responsabilizar a quem? A transportadora pode dizer que não foi avisada da manutenção ou não tem conhecimento técnico para tal. O motorista diz que o patrão não quis pagar o reparo. A oficina alega que ele quis fazer só o necessário ou inadiável. Enquanto isso todos os dias perdem-se vidas no transito sem que haja um responsável; na verdade, o grande responsável é o poder público, que não inspecionou. A partir do momento em que o poder público inspecionar e disser que aquele veículo não está apto a rodar, quem colocar esse carro na rua estará transgredindo a lei ou a norma.

 

ELIAS MUFAREJ – O aftermarket tem sido frequentemente maltratado pelos órgãos públicos, desde Detrans e Denatran até o Ministério da Indústria e Comércio. Não há reconhecimento claro da importância deste setor para a economia nacional e a segurança de tráfego, que é intimamente ligada à saúde pública. Temos feitos diversas gestões junto a órgãos do governo e entidades do setor. Recentemente a Fenabrave apoiou os pleitos que temos feito junto à Prefeitura de São Paulo acerca do retorno da inspeção ambiental. Temos que continuar unidos para que os órgãos públicos tenham todos os argumentos possíveis para decidir pelo controle da nossa frota pelo estado.

 

RENATO GIANNINI – A inspeção veicular não dá voto, muito pelo contrário; então o governo não tem interesse em desenvolver a inspeção.

 

ANTONIO FIOLA – O país subdesenvolvido tem sempre o apelo social. A pessoa que usa para trabalhar um carro muito antigo mal cuidado pode colocar vidas em risco, mas você não pode tirar o carro de circulação. Acho que o apelo social acaba se sobrepondo à importância do programa. A inspeção não vai trazer voto para ninguém e quando ela foi ceifada em São Paulo, por mais que a gente percebesse que a sociedade tivesse aceitado, existia uma comemoração por parte do consumidor, que não precisava mais fazer a inspeção.  Numa cidade como São Paulo, o número de remoções de veículos pela CET – Companhia de Engenharia de Tráfego diminuiu quase 30% na época da inspeção – e olha que a inspeção era de emissões, só que isso fez com que as pessoas olhassem mais para o automóvel. Quando a inspeção acabou, o ar piorou e o número de remoções cresceu.

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