Redefinição de papéis é desafio crescente para montadoras e setor automotivo como um todo

Negócios de mobilidade habilitados digitalmente podem superar em até dez vezes valor gerado pela venda ou o financiamento de veículos

Por Claudio Milan ([email protected])

Se no nosso dia a dia o processo de disrupção no setor automotivo ainda pode aparecer uma realidade distante, para as corporações gigantes que trabalham com perspectivas de longo prazo o cenário é bem diferente.

Os veículos elétricos e autônomos e a mobilidade como um serviço já desafiam a própria sobrevivência das empresas. Segundo a pesquisa “A hora é agora: você é um simples fabricante ou um especialista em mobilidade e conectividade?” (The time is now: are you a metalsmith or gridmaster?), divulgada recentemente pela KPMG, os negócios impulsionados por produtos e serviços habilitados digitalmente podem tornar o valor gerado pela mobilidade dos automóveis até dez vezes maior que a venda ou o financiamento de veículos particulares.

“As montadoras, que implementaram um modelo de negócio consistente por cem anos, estão atravessando um período de transformações sem precedentes. Como a mobilidade pessoal é muito mais ampla que o fornecimento de um veículo, muitas delas planejam se tornar prestadoras de serviços. No entanto, o tempo para criar novas oportunidades está pressionando cada vez mais os líderes dessas empresas”, afirma o líder do Setor Automotivo da KPMG no Brasil, Ricardo Bacellar.

O resultado deste admirável mundo novo é que, de acordo com o estudo, dois modelos de negócios distintos e vencedores devem ser implementados. Algumas montadoras permanecerão fabricando veículos e dando suportes a carros cada vez mais sofisticados, mas cedendo ao cliente a interface de serviços de mobilidade. Outras evoluirão para o desenvolvimento de plataformas direcionadas para uma variedade de serviços de mobilidade.

“Dada a escala da mudança para novos modelos de negócios de mobilidade, a complexidade de trabalhar com os sistemas e estruturas legados e os desafios financeiros enfrentados, é improvável que as montadoras consigam lidar com as lacunas de capacidade inteiramente por meio de uma abordagem de ‘compra ou construção’. ‘Alugar ou colaborar’ se tornará a nova norma, pois as parcerias serão cada vez mais importantes para entregar o novo modelo de negócios. Em particular, as parcerias com os players focados digitalmente fazem mais sentidos, uma vez que a maioria das lacunas de capacidade das montadoras está no software e no lado digital. Essas parcerias também devem ajudar as empresas a operarem na velocidade necessária para o sucesso, à medida que novos players de tecnologia e startups acelerem o ritmo das inovações e mudanças em todo o ecossistema de mobilidade’’, pontua o estudo da KPMG.

O imenso desafio para as montadoras agora é redefinir os papéis que vão desempenhar nesse novo ecossistema e tomar decisões estratégicas sobre seus futuros modelos de negócio. Ao mesmo tempo, precisam proteger os parceiros que permitirão a elas preencher as lacunas de novas competências. Enquanto isso, a roda continua girando em todo o mundo. Na Noruega, por exemplo, as vendas de carros elétricos e híbridos excederam as dos motores de combustão interna (ICEs) pela primeira vez em 2018. Já na China, 580 mil veículos elétricos foram vendidos em 2017 (2,2% das vendas nacionais).

Produtos perdem espaço para a oferta de novos serviços

De acordo com a pesquisa da KPMG, o desafio atual está na adoção em massa de serviços de mobilidade, o que representa uma mudança fundamental no mercado e no relacionamento com o cliente. Os fabricantes precisam identificar oportunidades de negócio em escala e integrar essas novas proposições com a oferta como parte de uma estratégia de mobilidade futura.

“Projetar e executar novos modelos de negócios exigirá um conjunto de habilidades atualizado que demandará engajamento direto dos consumidores, fornecimento de soluções flexíveis, gerenciamento de interface de usuário digital, monetização das novas formas de relacionamento com clientes, controles de dados e segurança cibernética”, analisa Ricardo Bacellar.

Novas abordagens de mobilidade, como sistemas coletivos de transporte e de propriedade compartilhada, devem reduzir parte da população que possui um carro. Isso diminuirá as vendas de veículos unitários e também reduzirá acentuadamente o número de fabricantes. A pesquisa também destacou que o modo de deslocamento das pessoas está acelerando a transformação do setor. Entre as razões, estão a crescente preocupação com a questão ambiental e medidas públicas de governos para diminuir as emissões de gás carbônicos com as soluções mais limpas e ecológicas.