Recuperação veio para ficar

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Crescimento do consumo das famílias, aliado ao lançamento do programa Avança Varejo, reforça bom momento do setor varejista no país

Lucas Torres

jornalismo@novomeio.com.br

Os últimos dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) a respeito do varejo brasileiro – bem como da economia do país como um todo – têm gerado uma importante dosagem de otimismo no empresariado.

Tal perspectiva, que tem como base o crescimento do consumo das famílias, pôde ser observada durante o maior evento de varejo do Brasil – o LATAM Retail Show, realizado em agosto, em São Paulo (SP) – veja cobertura nesta edição.

Soma-se a essa conjuntura favorável o anúncio do governo federal, em parceria com a Confederação Nacional dos Lojistas (CNDL), sobre a criação de um programa voltado integralmente para o setor varejista.

Batizado de Avança Varejo (AV), a iniciativa pretende disponibilizar nada menos que R$ 1 bilhão para que pequenas, médias e grandes empresas de varejo possam ter mais acesso a capital de giro, crédito rotativo e financiamento.

A fim de discutir detalhes do AV e da sustentabilidade do atual cenário da economia nacional, conversamos com o assessor econômico da Fecomercio-SP, Guilherme Dietze, e com o superintendente da CNDL e doutor em economia, Éverton Correia. Os executivos traçam, a seguir, um panorama sobre o que o empresário varejista deve encontrar pela frente nos próximos meses.

Novo Varejo – De acordo com dados do IBGE, as vendas e a receita no varejo cresceram substancialmente em junho em relação ao mesmo período no ano passado. No Varejo Ampliado, que contempla veículos, motos, partes e peças, a comparação do período revela um crescimento de 4,4% no volume e 3,5% na receita das vendas. A que você atribui esse crescimento? Já podemos falar em recuperação sem receio de precipitação?

Guilherme Dietze – Os números expressivos de crescimento são provenientes de uma base muito fraca de comparação. Dois exemplos disso são as métricas de juros e inflação. O primeiro estava em 14,25% no ano passado e hoje se encontra na casa dos 9%, enquanto a inflação que era de dois dígitos hoje não chega a 5%. Esses dois fatores – juros controlados e taxa de inflação lá embaixo – provocam um efeito imediato na renda, ao passo que o reajuste do salário mínimo foi feito com base na inflação passada. Somam-se a isso os saques do FGTS no primeiro semestre e temos essa recuperação expressiva. Todo esse conjunto de fatores nos dá a perspectiva de recuperação das vendas do varejo e da economia como um todo. Acredito que esse novo cenário veio para ficar.

NV – Dados mais recentes, como os divulgados pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo, contrastam o avanço do varejo com um pequeno recuo de 0,3% no Índice de Confiança do Empresário do Comércio de julho para agosto. As incertezas políticas têm segurado a retomada definitiva da economia nacional ou essa pequena queda/estabilização é uma variação comum de uma economia que ainda tem fresca na memória sua maior crise?

GD – O que pode haver é um pouco mais de negociação nesse momento, acho que esse é o único efeito. Na época da conversa gravada com a JBS o mercado se assustou de fato, mas agora – após a primeira denúncia ao presidente na Câmara –, o mercado já sentiu que não sofrerá um grande abalo em caso de nova denúncia.

Isso gera um pouco mais de clareza ao empresariado sobre o que irá acontecer e mostra, sobretudo, um descolamento da economia em relação à política. Ao passo que as reformas que o governo vem fazendo representam uma pauta não só da Presidência, mas de toda uma equipe disposta a colocar o país em ordem.

 

NV – Falando em reformas, a da Previdência, que é considerada pela equipe do governo um dos pilares do ajuste das contas públicas, parece ter saído da pauta do Congresso. O quanto isso pode impactar na recuperação econômica em curto prazo?

GD – A reforma da Previdência é fundamental para o cumprimento do primeiro dos pilares do tripé econômico composto por conta pública estabilizada, câmbio flutuante e meta de inflação. Os dois últimos já foram ajustados, mas se não ajustarmos o primeiro é claro que a economia vai patinar. Mas acredito que a reforma será aprovada em médio prazo, diria que até o final do ano isso será solucionado.

 

NV – Ainda no âmbito do ajuste de contas, a Fecomercio-SP vê o programa de privatizações anunciado como uma maneira saudável de desonerar o estado e preservar recursos?

GD – Vemos de forma muito positiva. Obviamente a conversa ainda está em um nível bastante embrionário se considerarmos que ainda haverá todo um processo de aprovação no Congresso. Mas essa simples sinalização de tirar algumas atividades da ineficiência do estado e levar para o setor privado, já oferece uma expectativa de redução da burocracia e do peso do estado que, por conseguinte, irá diminuir o peso sobre o contribuinte brasileiro em relação aos impostos. A privatização dos aeroportos, por exemplo, oferece a possibilidade de investidores externos virem ao Brasil, aumentando nosso potencial de geração de renda e emprego, dando ao governo federal a capacidade de aumentar investimento em áreas prioritárias como saúde, segurança e educação. Evidentemente o país passará por um período de difícil transição pelo fato de ter de realocar os funcionários públicos desses locais que serão privatizados, pela questão da estabilidade. Mas, passado esse primeiro momento, as contas públicas terão um grande alívio e o governo terá maior flexibilidade e capacidade para alocar seus recursos.

 

NV – A reforma trabalhista foi muito criticada pelos que defendem que o texto retira alguns dos direitos adquiridos pelos trabalhadores brasileiros na CLT. Não ignorando essas críticas por completo, quais benefícios esse novo regime poderá trazer para o empresário do varejo, sobretudo o varejo de pequeno porte que há muito necessita de uma flexibilização dos encargos de contratação e da burocracia?

GD – A reforma é fundamental para dar a flexibilidade ao empresário a fim de que ele possa planejar a contratação de acordo com suas demandas. Para casos em que a empresa precise que o funcionário trabalhe até quinta, por exemplo. Ou em momentos em que o funcionário quer fragmentar suas férias em três e não em dois períodos. Negociação bilateral de horas mínimas. Tudo isso facilita a vida do empresário em todos os níveis e beneficia o país com o aumento do emprego de maneira geral.

 

NV – Em 17 de agosto a Caixa Econômica Federal e a Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) anunciaram o programa Avança Varejo, que engloba linhas de capital de giro, crédito rotativo, investimento e financiamento. O programa pretende disponibilizar R$ 1 bilhão para o setor varejista, entre pequenas médias e pequenas empresas. Que impacto ele poderá produzir no setor?

Everton Correia – O Avança Varejo atende a uma demanda dos lojistas com relação a obtenção de crédito para financiamento. Este programa, além de oferecer um custo do financiamento menor e uma taxa de juros bastante atrativa, tem um processo simplificado na tomada do crédito. Por isso ele vem ao encontro do que os lojistas desejam. Com relação ao impacto, o financiamento é um dos principais fatores de crescimento de uma empresa, principalmente das micro e pequenas, que têm dificuldade de acesso ao crédito. Nossa expectativa é que haverá impacto na geração de emprego e renda, no crescimento das micro e pequenas empresas.

 

NV – Quanto tempo leva para uma iniciativa como essa produzir efeitos reais na economia nacional como um todo e, especificamente, no setor varejista?

EC – Isso vai depender sempre da velocidade inicial da aprovação do crédito. O Avança Varejo tem um processo de tomada de crédito simplificada, todavia a aprovação do crédito depende da empresa estar com toda sua conformidade adequada. Ou seja, vai depender do nível de organização do nosso setor. Além disso, imaginamos que o dinheiro seja liberado entre 30 a 40 dias. Ele deverá ser investido também entre 30 e 40 dias. Portanto, a partir do terceiro mês de programa a nossa expectativa é que esse impacto se torne mais visível.

 

NV – Esse programa pode representar uma espécie de marco ao demonstrar maior compromisso do Governo Federal com o varejo, muitas vezes negligenciado, mesmo sendo o setor que mais emprega no Brasil?

EC – Com certeza. Há uma orientação estratégica do governo federal que olha para o setor varejista de uma forma menos burocrática e mais inovadora. Isso representa uma nova postura do governo diante do setor privado produtivo, notadamente do setor de comércio e serviços. Esse programa tem um processo bastante simplificado na demanda de crédito.

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