Protagonismo do empresariado e grito de liberdade é tônica entre varejistas

João Doria cobra engajamento da classe empresarial

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A cidade de São Paulo elegeu em 2016 o outsider João Dória como prefeito. Tal acontecimento parece ter pavimentado o caminho para que outros empresários busquem espaço no protagonismo dos rumos do país. No 5º Fórum Nacional do Varejo essa nova postura ficou evidente. Em rápida participação, o próprio Dória cobrou de forma entusiasmada mais atitude da classe empresarial. “Não fiquem em silêncio. O Brasil não é um país de entidades sindicais ou coisas do tipo. O setor produtivo tem que se manifestar, pois nós movemos o país. É possível já perceber o impacto que nosso maior engajamento causa, estamos espalhando uma onda de otimismo e levando as coisas para frente, com a ajuda e empolgação da juventude que cansou de um estado burocratizado”, convocou.

O discurso foi complementado por outros nomes importantes do varejo, como o presidente da Riachuelo, Flávio Rocha, e o presidente do conselho de administração da Raia Drogasil S. A, Antônio Carlos Pipponzi. Para Rocha, é fundamental que os empresários de varejos e serviços passem a ocupar os cargos mais importantes da República devido à mudança de postura do cidadão brasileiro. “O brasileiro tem se transformado a cada dia em ‘cidadão-consumidor’. Tem visto o estado como um prestador de serviços que recebe sua contribuição mensal via imposto para lhe atender da melhor forma possível, tirando o espaço para gasto público desmedido e ineficiente. Nossa população amadureceu”, analisou. “Somente o grande juiz, o livre mercado, tem a capacidade de criar o ambiente propício para o empreendedorismo que precisamos. É inadmissível que continuemos pagando juros abusivos, sofrendo sanções e bloqueios de investimento e convivendo com a burocracia do tamanho da nossa. O jogo virou, é hora de exigirmos o que é nosso”, convocou.

Na mesma linha, Pipponzi disse que é hora do empresariado responder à demanda da ‘geração de valor’ e se unir a ela em busca de mudanças urgentes. “O grande desafio é não nos perdermos nas demandas do dia a dia e acabarmos esquecendo a ‘big-picture’. Nosso objetivo final tem que ser sempre priorizado. Vocês já pararam pra pensar que apenas nos últimos 12 meses tivemos 13 mil novas regras tributárias? Esse ambiente mina qualquer iniciativa empreendedora”.

Sempre se referindo ao substantivo ‘empresário’ com termos plurais e coletivos, Pipponzi afirmou que o momento é de união da classe. “É claro que o mercado é baseado na competição. Mas não a desleal em que um concorrente que falir a empresa do outro, mas sim aquela em que um contribui para o crescimento do outro”.

Híbrido de varejo e serviço pode ser tendência

Manuel Correia apresentou estratégia da Telhanorte

 O presidente da Telhanorte, braço do grupo francês Saint-Gobain, Manuel Corrêa, relatou no painel ‘Soluções Inovadoras’ a transformação de suas lojas em uma espécie de híbrido de varejo e serviço. Ele contou que a empresa tem buscado facilitar o trabalho do consumidor e, ao mesmo, proteger a reputação dos produtos vendidos contra erros de aplicações oferecendo serviços de instalação próprios. “Os instaladores próprios vão à casa do cliente colocar, por exemplo, o piso, que é um produto de grande valor agregado. Também fazemos nossos orçamentos ancorados nos custos de mão de obra de instaladores parceiros, que indicamos ao cliente sem que, no entanto, possuam vínculo empregatício”, afirma.

Para o empresário, embora represente uma evolução do modelo antigo, as opções oferecidas hoje estão longe do ideal e devem seguir sendo atualizadas. “Nosso objetivo é ter instaladores próprios que possam dar conta da reforma toda. Só assim poderemos alcançar o ‘overdelivering’ e garantir que nosso produto esteja sendo tratado da maneira ideal”.

O modelo ambicionado pela Telhanorte já é realidade em varejos de autopeças da região nordeste brasileira e, no que depender do presidente do Sincopeças Nacional, Ranieri Leitão, deve se espalhar para todo o país.

Leitão conta que o modelo começou a ganhar força quando os distribuidores nacionais chegaram em peso ao nordeste, diminuindo o mercado dos regionais. “Com menos espaço, as empresas locais acabaram entrando no varejo ocasionando um inchaço. Com menos lucratividade, os varejistas já estabelecidos encontraram no híbrido varejo-serviço uma forma de ganhar novo fôlego. Essas particularidades fizeram com que o varejo descobrisse rapidamente que com a estratégia de vender e também instalar a peça ele ganha tanto na venda do produto como também dos serviços. É uma questão de tempo para que isso se espalhe, não vejo obstáculo para que aconteça, pelo contrário, é um novo momento que o varejo está passando”, complementa.

 

Varejistas de autopeças contabilizam resultados com serviços

O modelo descrito pelo presidente do Sincopeças Nacional é robusto na região nordeste. Proprietário da Autopeças Campina Grande, de Fortaleza (CE), André Magalhães conta que sua empresa, fundada em 1970, adotou o modelo híbrido em 2009.

“Começamos com o autocenter atendendo veículos leves e utilitários e, após dois anos, instalamos um truckcenter para as linhas pesadas”, conta.

Também com mudança de modelo recente, Valdir Júnior e Evaldo Parente, das cearenses Rodoceará e Evaldo Autopeças, destacam que a mudança foi realizada por necessidade e que hoje já sentem os benefícios de se tornar um ‘híbrido’. “Um dos principais é agregar valor e expandir nosso faturamento”, afirma Júnior. Já Parente destaca o aumento no fluxo de clientes pessoas físicas e jurídicas, a ampliação das linhas de produtos e as novas oportunidades de negócio como principais ganhos.

Além dos benefícios citados, os varejistas afirmam que ter o serviço garante certeza de que as peças estão sendo aplicadas da maneira correta, diminuindo radicalmente os problemas com garantias.

Mas há obstáculos a vencer: além das questões estratégicas envolvendo a concorrência com os próprios clientes, a complexidade dos carros eleva e muito o custo de implantação de uma oficina ou box de serviços.

Segundo André Magalhães, da Campina Grande, o investimento inicial depende do quanto a área física a ser utilizada já faz parte do terreno da loja e quão equipada será a oficina. “Começamos com uma área de 750 m² e uma rampa de alinhamento, uma balanceadora, uma desmontadora de pneus e oito elevadores. Esses equipamentos giraram em torno de 130 mil reais”, conta. Já Parente, da Evaldo Autopeças, projeta um investimento inicial de pelo menos 80 mil reais, devido à necessidade de se obter também ferramentas como scanner, máquina de limpeza de bico e multímetro.

Aquele varejo que não possui espaço nem tampouco capacidade de investimento para expandir o negócio agregando serviços pode se associar a uma oficina próxima à sua loja propondo uma cooperação estreita.

 

A realidade paulista

De La Tôrre não vê conflito nos serviços rápidos

“Existem vários Brasis dentro do Brasil”. A máxima é clichê na cultura popular e quase sempre verdadeira. Nem tudo o que se aplica a uma região é viável em outra. Em São Paulo, por exemplo, sempre houve certa resistência ao modelo híbrido no varejo de autopeças. Nossa reportagem ouviu a opinião de uma das principais lideranças do setor no estado, Francisco De La Tôrre, presidente do Sincopeças-SP.

 Até que ponto agregar serviços à loja pode ser uma tendência para o varejo de autopeças?

O mercado vai se remodelando conforme a necessidade, esse é mais um modelo que ganha força, mas também há de se considerar as características de cada região. Em São Paulo, já existem lojas que oferecem serviços há muito tempo e são bem sucedidas.

Que benefícios e conflitos esse modelo pode trazer às lojas?

O benefício é agregar valor do produto com o serviço, acredito que não haja conflito porque são serviços rápidos de instalação e alguns componentes, como troca de lâmpadas, bateria, palhetas, pneus, som, acessórios por exemplo. Já os reparos mais complexos e a manutenção do veículo vão continuar sendo executados nas oficinas até porque é preciso deter conhecimento técnico, mão de obra capacitada, ferramental e espaço físico. Neste caso, estamos falando de um novo negócio que envolve muito investimento.

Os varejistas de São Paulo são receptivos a essa ideia?

Acho que a maioria dos varejistas está focada em atender bem a demanda e ter a peça que o cliente necessita, uma das maiores dificuldades. A gestão do varejo vem se tornando mais complexa, por isso, acredito que agregar serviços rápidos nas lojas depende da visão de cada empresário.