Presidente da ANDAP, Rodrigo Carneiro é o novo CEO do MercadoCar

Oportunidade de conhecer melhor o comportamento do consumidor final foi decisiva para que executivo aceitasse novo desafio, seu primeiro no varejo (na foto, o executivo Rodrigo Carneiro)

 

Por Lucas Torres ([email protected])

Com faturamento anual estimado em R$ 1 bilhão gerado por cinco lojas na cidade de São Paulo (SP), uma em Guarulhos (SP) e outra em Santo André (SP), o MercadoCar é um dos principais varejos do segmento de autopeças do país.

A empresa, fundada no ano de 1971, tem, nos últimos anos, intensificado esforços para se expandir ainda mais. Um dos exemplos dessa fase ‘expansionista’ tomou forma no investimento de R$ 60 milhões que deu origem à sua mais nova unidade, localizada na cidade de Santo André (SP), no conhecido ABC Paulista, unidade que tem mais de 15 mil metros quadrados de área construída e conta com um mix de produtos de cerca

de 130 mil itens entre peças mecânicas e acessórios – além área específica para a instalação de componentes e realização de pequenos reparos.

Desde o último mês de outubro, o MercadoCar deu mais um passo ousado nomeando o atual presidente da Andap (Associação Nacional dos Distribuidores de Autopeças), Rodrigo Carneiro, como seu novo CEO.

O executivo tem vasta experiência nos elos do atacado e da distribuição – além de longa trajetória no Grupo Comolatti, recentemente ocupou a posição de CEO da Barros Autopeças, empresa em que ainda exerce função de conselheiro – terá sua primeira passagem direta pelo varejo, o que considera um desafio grandioso, não apenas por se deparar com uma dinâmica de negócios que é muito diferente de suas experiências anteriores, mas pela magnitude da história e representatividade do MercadoCar na reposição automotiva brasileira.

“A empresa é um caso único do Brasil e na América do Sul – tanto quanto sabemos a maior venda por metro quadrado que se conhece no nosso mundo automotivo”, afirmou Carneiro, que elegeu a oportunidade de aprender mais sobre o comportamento do consumidor final como sua principal motivação para ter abraçado a novidade.

Questionado sobre o caráter cada vez mais fluido do aftermarket, que tem aumentado a competição entre distribuidor, varejo, indústria e reparador muitas vezes pelo mesmo cliente, o presidente da Andap e novo CEO do MercadoCar afirmou enxergar o cenário como ‘natural’, resultado das mudanças de postura de um consumidor impulsionado pelo desenvolvimento tecnológico. “Essa discussão não é nova e não vai parar por aqui. Existem e continuará a haver diversos modelos a exemplo do que acontece em outros mercados”.

O anúncio oficial de Rodrigo Carneiro como o novo CEO do MercadoCar foi feito no último dia 22 de abril, durante a cerimônia oficial de abertura da Automec 2019 e pegou boa parte dos presentes de surpresa.

A entrevista a seguir é, portanto, um dos primeiros pronunciamentos do presidente da Andap em seu primeiro desafio no varejo.

Novo Varejo – As fronteiras da cadeia de reposição estão ficando cada vez mais fluidas, com centro automotivo comprando direto de distribuidores, varejo se preparando para fazer pequenos reparos e a indústria criando seus próprios canais de venda. Você concorda com essa visão?

Rodrigo Carneiro – Sim, com certeza. Mas essa discussão não é nova e não vai parar por aqui. Existem e continuará a haver diversos modelos, a exemplo do que acontece em outros mercados. Não resta dúvida que o dinamismo do setor de aftermarket a partir de uma pressão debaixo para cima – ou seja, do consumidor final para todos os elos da cadeia –promoverá reacomodações no nosso mercado. A verdade é que hoje, se olharmos bem, os mais diversos mercados são dinâmicos – de forma geral, em razão do desenvolvimento tecnológico e das mudanças que esse desenvolvimento promove nos consumidores finais, o que vêm exigindo um reposicionamento de toda a cadeia.

NV – Sua trajetória no segmento de distribuição de autopeças é bastante significativa, sendo, inclusive, o atual presidente da Andap. Qual foi a motivação para aceitar o desafio de assumir o posto de CEO de um dos maiores varejos de autopeças do Brasil?

RC – Primeiro quero salientar que ainda sou membro do conselho Barros Autopeças. Segundo, agora respondendo sua pergunta, o que mais me motivou a vir para o MercadoCar é o desafio de entender o comportamento do consumidor final –que, como fabricante e ou distribuidor, eu não consigo mapear. No nosso caso, 98% da venda são destinados ao consumidor final e eu espero estar de fato aprendendo muito a respeito dessa área em específico.

 

NV – Como você pretende aplicar os conhecimentos adquiridos nos outros elos na gestão do MercadoCar?

RC – À medida que eu vou fechando o circuito, com o conhecimento adquirido na distribuição, no atacado e múltiplos canais de venda – somado agora ao entendimento do comportamento do consumidor final – acredito que posso agregar valor a eventuais novas definições de modelos de negócio que o MercadoCar irá implementar futuramente. Mas existe toda uma curva de aprendizado – de novo, sobre o comportamento do consumidor, que pretendo realizar antes de dar esse passo.

NV – Atuando agora com uma visão de executivo da distribuição e do varejo, em qual elo a rentabilidade está mais comprometida e em qual é possível buscar mais ganhos em rentabilidade?

RC – Pelos indicadores disponíveis no mercado o elo mais comprometido é o da distribuição pura, em que a compensação ocorre pela escala nas vendas, para quem as tem. Por outro lado, há que se considerar que toda a cadeia vem sofrendo os efeitos da comoditização da oferta e desagregação de valor. O ambiente tributário x suas derivações também contribuem fortemente para a perda de valor.

NV – Há no mercado quem tenha algumas dúvidas quanto ao posicionamento do MercadoCar nos elos da cadeia do aftermarket. Afinal, como você define a empresa?

RC – Na minha visão o MercadoCar é varejo. 100% varejo.

NV – Qual é o tamanho do desafio de ser o novo CEO de um dos principais varejos do país?

RC – Certamente é um desafio grandioso pela história do MercadoCar, pelo que a empresa representa e, principalmente, pela dinâmica de negócios que é muito diferente de minhas experiencias anteriores. O MercadoCar é um caso único do Brasil e na América do Sul – tanto quanto sabemos, a maior venda por metro quadrado que se conhece no nosso mundo automotivo. A empresa vem experimentando um crescimento acentuado nos últimos anos, crescimento esse que temos o desafio de manter e acelerar seu desenvolvimento a partir da instalação de novos pontos de

venda.

NV – Como ‘benchmark’ do varejo de autopeças, qual é a importância da MercadoCar como ‘desbravador’ de novas tecnologias e processos que possam indicar caminhos para o varejo como um todo?

RC – Nós não temos a pretensão de determinar padrões ou apontar nossos caminhos como ‘fórmula’ a ser seguida pelo mercado. Ao longo dos últimos 48 anos o MercadoCar desenvolve estratégias e modelos de negócio que vêm satisfazendo as nossas expectativas de forma particular. Mas admitimos a existência de outros modelos de negócio, também de sucesso, que se encaixam em outras regiões do país e que têm muitas características particulares de seus fundadores e clientes.

NV – Quais são as soluções já aplicadas ao MercadoCar que podem ser utilizadas pelo varejo de autopeças tradicional no Brasil?

RC – Nós nos propomos a, por exemplo, fazer pequenos e rápidos serviços no sentido de auxiliar nosso cliente em pequenos reparos para facilitar sua ‘jornada de manutenção’. Ao mesmo tempo, não pretendemos, de fato, desenvolver tecnologia de reparação de veículos. E vamos continuar nessa linha. Como varejo, não temos vocação e não entendemos que seja nosso papel uma reparação mais técnica e mais mecânica de veículos.

NV – Como uma empresa modelo e referência no Brasil, o MercadoCar tende a despertar a atenção de empresas em processo de expansão. É possível resistir a este assédio, considerando especialmente que os fundos de investimento têm se interessado e atuado no aftermarket brasileiro?

RC – O Roberto Gandra, que é o fundador e acionista controlador da empresa, tem resistido bravamente a esse assédio que, verdade, é muito intenso. Hoje, devido às decisões desse acionista controlador e de seus futuros sucessores – somado ao fato de que ainda temos uma definição e uma perspectiva clara de crescimento – acreditamos não haver nenhuma razão para buscarmos esse tipo de associação. Portanto, reafirmando, a decisão clara e manifesta do controlador é por continuar a perseguir decisões estratégicas de expansão a partir de um modelo de negócios projetado e definido nos moldes do MercadoCar.