O futuro não é ficção científica

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Monzani é diretora geral da TecAlliance do Brasi

Em entrevista ao Novo Varejo, Heloísa Monzani, diretora geral da TecAlliance do Brasil, fala sobre as transformações do mercado a partir dos carros conectados, a importância do acesso às informações desses veículos por parte do mercado independente e a perspectiva de implantação de uma plataforma como o Caruso no país.

Qual foi a motivação para a criação da plataforma Caruso?

Já existe uma tecnologia que permite aos veículos emitir informações sobre manutenção, reparação, forma de condução, GPS, entre muitas outras. Na Europa teve início um questionamento sobre a propriedade desse conteúdo. Obviamente as montadoras queriam receber e tratar essa informação elas mesmas, indicando os prazos e procedimentos de manutenção nos concessionários de cada marca. Mas lá é tudo mais organizado e melhor legislado, a União Europeia dá uma importância muito grande ao mercado de reposição e entende que a informação não pode ficar nas mãos de apenas uma empresa ou segmento. Quem desenvolveu essa tecnologia queria ser o dono da informação, o Google ou a Apple também queriam, e é isso que ainda está sendo discutido na Europa. Caruso é uma plataforma capaz de receber os dados dos carros inteligentes. Tem vários acionistas, um deles é a TecAlliance, que pertence aos fabricantes de autopeças. As associações europeias de distribuidores também têm participação, assim como Google, Apple e outras empresas de nuvem de informação e tecnologia digital, empresas de seguro, frotas, enfim, está aberta à participação de outros segmentos.

 

Em que estágio está se encontra a ferramenta?

A empresa Caruso foi criada em março deste ano e está trabalhando em agregar expertise de todos os segmentos participantes e criar um banco de dados para recolher as informações e vender para todos esses atores e quem mais queira comprar. Mas isso está em andamento, é preciso aguardar uma legislação oficial europeia. A empresa está constituída, já tem equipes técnicas trabalhando na organização e padronização das informações. Não estamos mais falando de OBD, mas de uma tecnologia mais avançada. E, como isso varia de carro para carro, cada informação diferente vai entrar na base de dados e sair na outra ponta em um mesmo formato, que é um pouco o que a TecAlliance faz com peças, padronizamos a informação de diversas fontes. No caso do Caruso, estamos falando da informação que vem do carro, do proprietário do veículo, do entorno em que ele se encontra, das condições de tráfego, enfim, todo o conteúdo enviado pelo automóvel.

 

Como o carro se comunica com a plataforma Caruso?

Hoje os carros conectados já se comunicam via satélite ou Wi-Fi até uma central que recolhe essas informações. A montadora já tem acesso a esse conteúdo, mesmo aqui no Brasil há carros que informam, por exemplo, que está chegando o momento da revisão ou que o nível do óleo está baixo. Antes essa informação ficava no carro, hoje, por via digital, ela vai para algum lugar – por enquanto, esse lugar ainda é a montadora ou o fabricante do sistema. É preciso legislar para que essa informação seja enviada à plataforma também.

 

Na Europa e nos Estados Unidos já existe uma cultura de legislar sobre o compartilhamento das informações veiculares. A proposta do Caruso é chegar também ao Brasil, onde o cenário é diferente. Como resolver isso?

Primeiro nós teríamos que criar uma regulamentação da informação mais simples, como as referências originais e as informações técnicas que estão concentradas nas mãos das montadoras. E isso é um trabalho que tem que ser feito não só a partir do governo – que não vai fazer –, mas também através das associações e da indústria para fomentar essa solução. Uma vez que isso exista, é mais fácil implantar a plataforma Caruso no Brasil. Na Automec nosso CEO disse que estamos abertos aos interessados, mas é claro que há pré-requisitos, como viabilizar a disponibilidade da informação para todo o mercado. Que é o propósito do Caruso.

 

Qual será exatamente a informação que o Caruso pretende disponibilizar ao mercado de reposição?

Depende do que o interessado quiser comprar. Se for, por exemplo, uma oficina, pode receber informações sobre a frota do bairro em que ela está, quais são os carros, qual é o trajeto médio que aqueles veículos fazem, pode ser informada que um carro X precisa trocar a peça Y. O reparador pode comprar essa informação, avisar o dono do carro e convidá-lo para tomar um café na oficina enquanto a manutenção é feita. Já uma companhia de seguro pode monitorar como o carro está sendo dirigido ou se está indo a algum lugar perigoso e, com isso, fazer uma cotação mais adequada do valor do seguro. Um distribuidor de autopeças pode comprar a informação sobre o perfil da frota na região de uma filial, qual a quilometragem média que cada veículo roda, o tipo de percurso, as peças com maior potencial de desgaste e criar estratégias para vender mais esses produtos.

 

Considerando que as informações oferecidas pelo Caruso podem chegar ao detalhamento de cada carro monitorado, quais seriam as aplicações práticas do sistema para o varejo de autopeças?

O varejista consegue saber quantos carros existem em sua zona de influência, conhecer o perfil da frota, quais modelos estão mais próximos de suas oficinas clientes e, com isso, direcionar ações específicas para essas oficinas. Pode, também, saber quais veículos vão às concessionárias e fazer, em parceria com as oficinas, um trabalho para aqueles que já estão fora da garantia. Quanto mais informação você tem, mais você afina aquilo que vai oferecer a seu mercado.

 

Qual é a real perspectiva de implantar uma ferramenta como o Caruso no mercado brasileiro?

A ideia é mostrar para o Brasil que existe um futuro, e que ainda não chegamos, no país, a um nível avançado de compartilhamento de informações, mas que há empresas, entre elas a TecAlliance, trabalhando para trazer as soluções num curto prazo, não é ficção científica. O carro conectado já está na rua e existe a preocupação de como nós vamos coletar, padronizar e compartilhar essa informação com o mercado. Isso é utópico no Brasil? Não. Vai demorar um pouco mais, mas o carro conectado também está aqui, então nós vamos esperar 20 anos para ter o Caruso ou começar a pensar já em como essa informação pode nos ajudar e desenvolver as ações para que ele chegue? O TecDoc existe na Europa há 23 anos, aqui no Brasil são dois anos e ainda há desconhecimento do mercado. Precisamos mudar nossa mentalidade, em 23 anos muita coisa mudou, não podemos ficar para trás.