Modernização do sistema financeiro mudará forma da relação do varejo com bancos e clientes

Por Lucas Torres

Durante um dos mais importantes eventos anuais de varejo do Brasil, o Fórum Lide, executivos das principais empresas varejistas em operação em nosso território reservaram mais de uma hora e meia do cronograma de atividades para discutir aquilo que chamaram de ‘revolução nos meios de pagamentos e na aquisição de créditos’.

Seis meses após o Fórum, realizado no mês de março no Guarujá (SP), o tema segue ganhando força graças a um esforço contínuo do Banco Central para modernizar o sistema brasileira por meio do incentivo às Fintechs.

Isso tem provocado um abalo significativo na estrutura de monopólio dos bancos tradicionais ao aumentar a competitividade no setor, o que para o varejo tem resultado em condições menos abusivas na hora de buscar crédito.

A ‘revolução’, no entanto, não para por aí e impactará fortemente as relações de pagamento entre as lojas e seus consumidores, exigindo das primeiras uma adaptação ao jeito ‘digital’ de fazer comércio.

Para aprofundar o tema, que deve ser tão ou mais disruptivo do que a introdução das ‘maquininhas de cartão’, convidamos para a entrevista deste mês Carlos Netto, CEO da Matera, empresa de transformação digital nos ramos financeiro e de varejo.

Novo Varejo – Quais são as ações que o Banco Central tem adotado para modernizar o sistema financeiro brasileiro e tira-lo do modelo de concentração bancária que há décadas vigora no país?

Carlos Netto – São muitas ações. Destaco a Lei nº 12.865, de 9 de outubro de 2013, que criou, entre outras coisas, as Instituições de Pagamento. Este tipo de empresa tirou do banco o monopólio da conta corrente de usuários. Com isso, o próprio varejista pode guardar o salário do seu cliente no lugar do banco. Infelizmente demorou muito para a sociedade alcançar o poder desta lei e só agora ela está sendo explorada plenamente. Empresas como o Mercado Pago, que existia antes da lei, conseguiram tirar vantagem desta legislação em parte por não terem criado limitações inexistentes às possibilidades legais. Recentemente o Banco Central lançou o projeto dos Pagamentos Instantâneos, que entra no ar em novembro de 2020. Ele resolveu um último problema que as contas das Instituições de Pagamento tinham: interoperabilidade. É quase impossível um supermercado aceitar o QR Code de todas as Fintechs do Brasil, pois cada QR Code tem um padrão, o que levaria inevitavelmente à concentração em Wallets. O Pagamento Instantâneo vai padronizar dois QR Codes: um de apresentação, onde o pagador mostra sua tela como acontece no embarque em um voo – que pode funcionar até mesmo sem Internet – e outro em que o pagador lê o QR Code do lojista, que pode ser estático ou dinâmico. O QR Code de apresentação tem várias vantagens para lojistas médios e grandes: todo cliente é bem-vindo, mesmo o que não tem internet. Do lado do lojista, basta um leitor de QR Code, que pode ser na verdade o próprio leitor de código de barras usado para capturar os códigos dos produtos, desde que suporte códigos 2D. A operadora de caixa tem uma ação muito parecida com a atual quando os usuários pagam com Apple Pay, Google Pay e similares. O pagador aproxima o celular e o caixa da operadora apresenta “transação aprovada”.

NV – Qual dessas soluções atende com mais eficiência as pequenas lojas?

CN – O QR Code de leitura é mais adequado para lojas menores, que podem usar um simples pedaço de papel com o QR Code estático, ou lojas que tenham alguma tela acessória no caixa para apresentar um QR Code dinâmico (como o Walmart tem nos Estados Unidos). No caso do QR Code de leitura, o tempo da fila do supermercado vai depender da qualidade de internet dos pagadores. Também será possível cobrar clientes sem uso do boleto, pedindo que transfiram o pagamento usando como “número de conta” simplesmente o CNPJ ou um e-mail da loja. Isso pode ser interessante para condomínios, escolas, academias e outras empresas que cobram via boleto hoje em dia.

NV – De que maneira essa mudança de diretriz pode impactar o setor varejista como um todo?

CN – Muita gente que hoje não tem conta corrente nem cartão de crédito vai ter acesso a uma conta corrente digital provida por alguma fintech. Isso vai reduzir todo custo associado ao numerário e o tempo de checkout. Além disso, as pessoas que ganharem uma conta digital passam a entrar no mercado digital de crédito, podendo receber limites rotativos de crédito ou mesmo empréstimos pessoais pontuais diretamente na conta, em geral com juros menores, pois teremos menos custos operacionais e menor probabilidade de inadimplência. Com mais crédito e menos juros, é esperado que o varejo venda mais. Por fim, neste modelo não vai existir mais a figura da adquirente. O lojista vai usar o próprio banco ou fintech em que ele tem a conta para receber o QR Code. As taxas devem ser muito menores. O melhor: o pagamento vai ser sempre a vista. Não no mesmo dia, mas no mesmo segundo. No fechamento de caixa será possível medir o total de numerário recebido bem como o total de pagamentos instantâneos recebidos, já em conta.

NV – Nesse contexto de transição, os pequenos e médios varejos brasileiros estão preparados? Como fazê-lo?

CN – Vejo aí uma potencial aliança muito grande com as empresas de tecnologia que oferecem os frentes de caixa. Estes softwares em geral dependem dos TEFs para transacionar com cartões de crédito, dada a complexidade. Com o Open Banking e a economia das APIs, o frente de caixa pode acionar o banco do lojista diretamente, sem intermediários. Neste cenário, o próprio TEF pode ser desnecessário. Como o pagamento é a vista e não tem o chamado “chargeback”, não serão necessários conciliadores de créditos futuros para vendas de hoje. No fechamento de caixa o total vendido será confrontado com o saldo da conta daquele frente de caixa. Isso é uma ótima oportunidade para as empresas de tecnologia que atendem o varejo. Estas empresas capturam a transação, a encaminham para as adquirentes e não recebem nada por isso. As empresas de frente de caixa (PDVs) podem assumir um papel muito mais relevante.

NV – No mundo dos negócios, costuma-se dizer que empresas de menor porte são mais fáceis de ‘modificar e atualizar’ processos em comparação com as grandes companhias – inclusive se usa a analogia de que é mais fácil manobrar um carro popular do que um avião cargueiro. Você concorda com essa análise? Isso pode significar uma vantagem competitiva para os pequenos e médios varejos nesse período de mudanças no sistema financeiro?

CN – Em geral isso é verdade. Mas a mudança no frente de caixa é tão pequena que um grande varejista, com milhares de pontos de checkout, só precisa que seu provedor de frente de caixa o ajude, que seu banco ofereça a API e que o leitor de código de barras seja trocado. Não é necessário trocar aquele leitor de mesa, que é caríssimo, mas o de mão, que a operadora usa para produtos menores. É um investimento pequeno que vai se pagar rapidamente com as economias em taxas. Aqui vai valer mais se os grandes bancos vão oferecer as APIs para os PDVs mais rapidamente que as Fintechs. O benefício é muito grande e o varejo tem que usar a instituição financeira ou de pagamento que mais rapidamente se alinhar com seu provedor de PDV.

NV – De que maneiras as Fintechs podem facilitar/baratear a aquisição de crédito por parte do varejistas?

CN – Hoje cada limite de crédito fica associado a um cartão. Se eu quero ter 10 provedores de crédito, preciso de 10 cartões. É um limitador. Se o varejista em seu próprio aplicativo de pagamento (como faz o Starbucks), é possível ligar até dezenas de financeiras no App. O varejista pode circular os dados do cliente por todas as financeiras (se o cliente autorizar) e ver quem oferece a melhor condição de crédito. Ao baratear o crédito, o consumidor pode comprar mais. Um grande benefício tanto para o cliente como para o próprio varejista.

NV – Muito se falar e muma tilização cada vez menor do dinheiro físico – seja ele em cédula ou até cartão de crédito/débito. Qual é, hoje, o custo da implementação de meios de pagamento mais tecnológicos como QR Code e outros?

CN – O QR Code vai ser padronizado pelo Banco Central. Isso por si só já é uma ótima notícia, pois há muitas iniciativas redundantes no mercado. A interoperabilidade promovida pelo Banco Central para que todo QR Code pague em qualquer lugar vai ser fundamental. Implementar a leitura do QR Code no lojista não custa muito. O próprio leitor de código de barras usado para ler código dos produtos pode ser um QR Code e cobrar o pagador, desde que use um leitor 2D, que é só um pouco mais caro que o leitor 1D. O maior custo seria mesmo a infraestrutura para os pagadores conseguirem usar a Internet, pois boa parte da população tem SmartPhone mas não tem plano de dados ou o sinal de celular na loja é fraco. A falta da internet tipicamente inviabiliza o QR Code e o investimento para corrigir isso é enorme. Entretanto, o QR Code de apresentação que o Banco Central vai padronizar funcionará sem internet, anulando nossa fraqueza como país. Isso vai reduzir enormemente o custo para implantar o QR Code, bastando os lojistas terem um leitor adequado e os bancos e/ou fintechs gerarem este QR Code no aplicativo; a internet será dispensável.

NV – Qual o potencial desses novos meios de pagamento em termos de melhora da experiência do consumidor?

CN – Para viajar de Metrô, preciso primeiro comprar o bilhete para depois entrar na catraca. Ou preciso ter um cartão que tem que ser carregado de tempos em tempos. Com o QR Code, eu posso encostar o App do meu banco no leitor da catraca e entrar no Metrô. O dinheiro vai sair diretamente da conta do viajante para a conta do operador de sistema, sem intermediários e sem ficar parado em lugar algum. O usuário vai descer a escada e entrar na catraca diretamente, sem precisar comprar nada antes. Para sacar um dinheiro no caixa eletrônico, hoje é preciso inserir cartão, digitar senhas, validar biometrias, etc. Isso demora minutos. Com o QR Code, o usuários já chega ao caixa eletrônico com um QR Code de R$ 100,00 e pega o numerário 8 segundos depois. Já existem caixas eletrônicos que sequer possuem teclado ou leitor de cartão.

NV – Como CEO de uma empresa que trabalha diretamente com varejo e tecnologia do mercado financeiro ao mesmo tempo, você considera que estamos, de fato, vivendo uma espécie de revolução que vai impactar de maneira global os modelos de negócio em um futuro mais próximo do que se imagina?

CN – Tenho certeza disso.

NV – Qual sua percepção sobre o nível de consciência e preocupação dos empresários varejistas brasileiros diante desse cenário?

CN – Sempre comparo isso ao Neo, de Matrix, quando ele descobre o que é o mundo real. Há um período grande de adaptação cultural. Dinheiro sempre ficou em banco. Alguns varejistas já perceberam a mudança e estão muito avançados, como a B2W com o AmeDigital. Outros ficam surpresos e congelam, sem avançar nem desistir, totalmente inseguros com esta novidade, simplesmente por não terem conquistado a consciência necessária para avançar. Mas vejo esta consciência avançando fortemente e podemos viver um ‘tsunami’ de conscientização; isso vai ser a revolução da pergunta anterior.