Economista revisita previsões pré-governo Bolsonaro diante de primeiro semestre conturbado

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Confiante, Jason Vieira afirma que segundo semestre deve ser de maior harmonia entre Executivo e Legislativo em prol da aprovação de reformas fundamentais

Por Lucas Torres ([email protected])

A eleição de Jair Bolsonaro, acompanhada da posse de Paulo Guedes como ministro da Economia, encheu empresários e economistas da ala liberal de otimismo e esperança de que uma economia mais aberta ao capital estrangeiro e com menos amarras estatais poderia impulsionar a tão esperada retomada.

Seis meses depois da posse do novo governo, no entanto, o otimismo inicial em muitos casos deu lugar à incerteza, motivada especialmente pelo atraso nas negociações para aprovação das reformas – especialmente a da Previdência – devido à dificuldade de alinhamento dos poderes Executivo e Legislativo e à paralisação do já tímido processo de recuperação econômica experimentado durante o governo Michel Temer. O que vimos foi, na verdade, um inesperado cenário de estagnação e preocupação quanto à volta de uma recessão, agravado pelo resultado negativo em 0,2% do Produto Interno Bruto no primeiro trimestre de 2019.

Diante desta conjuntura, convidamos o economista-chefe da Infinity Asset, Jason Vieira, para revisitar os apontamentos compartilhados por ele com as principais lideranças da reposição automotiva no último mês de dezembro, durante a cerimônia de entrega do Prêmio Inova 2018.

Na ocasião, Vieira – bem como os demais participantes do debate, o deputado federal eleito Alexis Fonteyne e Rodrigo Carneiro, presidente da Andap – mostrou confiança de que Governo e Congresso seriam capazes de trabalhar de forma harmoniosa para a aprovação de pautas de interesse comum e projetou um crescimento mínimo de 2,5% da economia nacional durante 2019.

A previsão, aliás, estava em sintonia com boa parte dos economistas, do mercado financeiro e do próprio governo. No entanto, ao longo dos primeiros seis meses do ano as expectativas encolheram. O relatório Focus do Banco Central divulgado no dia 10 de junho apontava para a 15ª revisão para baixo consecutiva, estimando o crescimento do PIB em 1% para 2019.

Afinal, o que fez com que as perspectivas mudassem para pior? A partir das expectativas apuradas em dezembro do ano passado durante o Debate Inova, Jason Vieira responde.

Novo Varejo – Durante sua participação no Prêmio Inova 2018, no último mês de dezembro, a expectativa era que o processo de abertura econômica proposto pelo programa de governo do presidente Jair Bolsonaro seria fundamental para a recuperação de nossa economia.

Entrando no sexto mês do mandato de Bolsonaro, em que estágio você vê esse processo?

Jason Vieira – Não existe ainda, pois há a necessidade de aprovação da reforma da Previdência e, posteriormente, tributária, de modo a dar suporte para tal abertura.

NV – A pauta da desburocratização também foi considerada chave em sua apresentação na cerimônia em homenagem às indústrias de autopeças eleitas pelos varejistas de autopeças. De lá para cá, o governo já deu uma sinalização importante promovendo, por exemplo, a ‘descartorização’. Tramita também na Câmara uma proposta do Legislativo para reforma tributária.

Sobre ela – e as outras questões que envolvem a agenda da desburocratização no país – você considera que estamos, finalmente, em uma direção correta?

JV – Estamos na direção correta da agenda de desburocratização, em especial com a MP da liberdade econômica e outras ações, não tão visíveis aos olhos, que ocorrem em partes fora do âmbito congressual.

NV – Analisando com boas expectativas a capacidade de Executivo e Legislativo trabalharem de maneira conjunta para a aprovação de reformas – sobretudo a da Previdência – você levantava em dezembro a possibilidade de que as perspectivas favoráveis para 2019 poderiam levar o Brasil a pelo menos o dobro do crescimento apresentado no ano de 2018 – esperando, portanto, um crescimento mínimo de 2,5% para o primeiro ano do governo Bolsonaro.

Um semestre depois, as previsões vêm sendo sistematicamente revistas para baixo. A que você atribuiu essa frustração de expectativa?

JV – Infelizmente, os problemas no primeiro trimestre – em especial o envolvimento externo de pessoas não ligadas diretamente ao governo – levaram a atrasos fundamentais na relação com o Congresso, resultando fortemente numa contração das perspectivas de avanço, afetando a confiança de consumidores e investidores, relegando o crescimento a um contexto mais afável em termos políticos. O segundo trimestre já deu sinais mais positivos e a aprovação da reforma da Previdência, com o contexto político mais estável, pode reverter algumas projeções mais pessimistas; porém, infelizmente, não atingiremos as metas do ano passado.

NV – Em outro ‘take’ durante sua apresentação, você afirmou que em 2019 poderíamos passar o ano todo com a Taxa Selic em 6,5% ao ano. Estamos exatamente nesse patamar. Ao mesmo tempo, você alertou para o fato de que somente a manutenção da taxa de juros não seria suficiente para baratear o crédito no país, devido à concentração bancária existente em nosso território. Nesse sentido, o Banco Central tem feito um esforço para impulsionar a competitividade bancária por meio do apoio às chamadas Fintechs. Como você vê essa estratégia e seus impactos em médio prazo?

JV – O Banco Central tem tomado uma série de atitudes no sentido de incrementar a oferta de crédito via canais alternativos, como o ‘banqueiro individual’ e ações de fomento às fintechs, o que já tem surtido efeito nos juros na ponta do consumidor (pessoa física e jurídica). Ainda assim, o spread continua elevado e ações adicionais, como abertura do mercado financeiro local e incentivo à competição bancária, devem ser implantados em breve, de forma a elevar ainda mais a oferta e reduzir os custos.

NV – Na mesma apresentação, ainda em dezembro, você afirmou esperar que a inflação se mantivesse sob controle durante o primeiro ano do novo governo. Segundo o IPEA, a inflação não deve extrapolar a meta anual de 4,25%. Ao mesmo tempo, existe em algumas regiões do país um descontentamento quanto ao aumento do preço de produtos como gás de cozinha e combustíveis a base de petróleo – bem como de serviços como energia elétrica. Como você avalia a atual conjuntura atual da inflação no país? E a que você atribuiu esse quadro?

JV – Continuamos com dois fatores importantes, conforme citei ano passado, para o contexto inflacionário. O primeiro é a demanda reprimida, com o hiato do produto ainda elevado e dando espaço para um crescimento relativamente longevo da demanda, mantendo a matriz de preços controlada; e o outro são núcleos relativamente comportados (excluindo energia e alimentos), sem impacto tanto de intempereis climáticas, quanto do dólar.

NV – Ainda no evento do Prêmio Inova, você fez uma declaração interessante sobre o Brasil nunca ter experimentado, de fato, um liberalismo econômico, bem como nunca ter se configurado em um país capitalista. Na mesma fala, você afirmou ter a expectativa de que o Governo Bolsonaro pudesse representar uma agenda ‘liberalizante’, na qual o Estado deixa de ser empecilho ao empreendedorismo. Você acredita que os sinais apresentados até aqui apontam nessa direção?

JV – Todos os sinais do governo até este momento continuam confluentes com o prometido durante a campanha, maior liberdade econômica e redução do peso do Estado. Há objeções, principalmente de um parlamento que passou muito tempo acostumado com um Estado grande, patrono e inchado; porém, as perspectivas no sentido do Estado deixar de ser um dificultador e se tornar um facilitador da economia estão corretas.

NV – Olhando para esse primeiro semestre do novo Governo, levando em conta as fissuras e os atritos já vivenciados junto ao poder Legislativo, como você projeta o segundo semestre do ano?

JV – Acredito num contexto mais positivo em razão dos recentes avanços nas votações e no meio político. A reforma da Previdência tende a ser um ponto importante de virada do atual cenário, e para o lado positivo.

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