Economia patina e transforma otimismo em frustração

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Para economistas, queda na confiança de empresários e cidadãos quanto à capacidade do Executivo aprovar reformas cria ambiente de negatividade

Por Lucas Torres ([email protected])

A divulgação da queda de 0,2% do PIB brasileiro no primeiro semestre de 2019 marcou o primeiro decréscimo de nossa economia desde o ano de 2016. O resultado ligou o sinal de alerta dos analistas que, em sua maioria, esperavam que a ‘excitação’ pela eleição de Jair Bolsonaro para a Presidência da República e a expectativa de uma agenda liberalizante a ser implementada pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, pudessem dar início a um círculo virtuoso no ambiente de negócios.

A expectativa de aceleração do ritmo lento de crescimento econômico experimentado durante a administração de Michel Temer tem se transformado em apreensão justificada pelos que temem a volta da recessão.

O respeitado Relatório Focus, que compila as expectativas das instituições financeiras a respeito do resultado do PIB do final do ano, por exemplo, derrubou a previsão de crescimento pela 15ª semana consecutiva no último dia 10 de junho, projetando uma alta de apenas 1% em 2019 – no final do ano passado as previsões mais otimistas apontavam para algo entre 2,5% e 3%.

De acordo com o economista Everton Carneiro, da RC Consultores, os resultados têm de ser considerados um revés efetivo para a nova gestão do país, não apenas pela queda do PIB em si, mas também por outros fatores tão importantes quanto o índice. “A queda do PIB foi o golpe final, mas o Governo vem perdendo a batalha da confiança desde o primeiro dia. Assim que assumiu, em primeiro de janeiro, a confiança dos empresários estava em alta e o Governo jogou fora essa vantagem que tinha, principalmente pelos seus próprios erros”, analisa Carneiro.

Em confluência com o colega, Felipe Souza, economista-chefe da Lafis Consultoria, afirma que os resultados desse primeiro semestre se devem majoritariamente ao que chamou de abrupta queda da confiança dos agentes, em especial dos empresários, dada a frustração destes com a condução da agenda econômica e da articulação junto ao Congresso por parte do Executivo. “No início do ano, os empresários esperavam que emergisse um novo modelo de gestão pública aliado à consolidação de uma agenda econômica definida que melhorasse o ambiente de negócios ao flexibilizar e abrandar as regras de contratação e taxação das pessoas físicas e jurídicas. Essa expectativa não se materializou. Ao contrário, o que se viu até então foi um movimento de fragmentação do Congresso e da própria base aliada diante da pauta”.

Questionados sobre a possibilidade das 15 quedas consecutivas da previsão do PIB divulgada semanalmente pelo Relatório Focus se estenderem, os economistas ouvidos por nossa reportagem mostraram preocupação quanto à direção em que a política institucional está se encaminhando. Para Carneiro as semanas consecutivas de queda mostram que há, naturalmente, espaço para mais revisões para baixo, sobretudo se considerarmos o fato de que o governo eleito em 2018 não sofreu nenhuma crise de grandes proporções e, ainda assim, em diferentes ocasiões enfrentou dificuldades na negociação com o Congresso. “Temer enfrentou a greve dos caminhoneiros e a divulgação da gravação de Joesley Batista. Dilma, a crise do impeachment. O governo Bolsonaro ainda não enfrentou nenhuma crise que não tenha sido produzida por ele mesmo”.

Uma mudança de entendimento que aos poucos tem ganhado força entre analistas e empresários pode se apresentar como fator a ser considerado no esforço em prol da retomada econômica. Isso porque, segundo Felipe Souza, a tese que via na reforma da Previdência um instrumento de elevação da confiança e do ‘espírito empreendedor’ dos empresários tem sido questionada. “Muitos economistas já alegam que a reforma não é a ‘bala de prata’ anunciada e que ela por si só pouco influenciará na retomada do crescimento”, analisa o economista-chefe da Lafis.