Com aporte de R$ 1 bi por ano, Rota 2030 vai atualizar setor automotivo

Por Lucas Torres

No último dia 20 de setembro o Governo Federal anunciou os coordenadores dos Programas Prioritários (PPs) do Rota 2030, a política brasileira para o setor automotivo que substituiu o InovarAuto na promoção do desenvolvimento do setor no país.

Os coordenadores terão a missão de aplicar um valor de R$ 1 bilhão anuais durante um período de cinco anos para auxiliar as empresas locais na tarefa de se prepararem para atender as novas demandas de um mercado que experimenta uma enxurrada de mudanças tecnológicas, entre as quais se incluem a consolidação dos motores híbridos e elétricos e a busca por maior conectividade e autonomia dos veículos.

Uma das protagonistas nesse processo será a Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii), organização criada pelo poder público para apoiar instituições de pesquisa tecnológica no fomento à inovação na indústria brasileira.

De acordo com o diretor de Planejamento e Gestão do órgão, José Luis Gordon, boa parcela da conhecida falta de competitividade da indústria automotiva advém da falta de investimento em pesquisa e tecnologia.

Na entrevista exclusiva concedida ao Novo Varejo, o diretor apontou o caminho que as empresas interessadas em promover projetos em parceria com os 42 Centros de Pesquisa credenciados pela Embrapii devem percorrer, bem como detalhou de que maneira o aporte financeiro oferecido pelo Rota 2030 será aplicado nesses projetos.

Com uma vasta rede de pesquisadores, a Embrapii auxiliará empresas em áreas como TI e comunicação; material; química; biotecnologia; novos motores e ferramentaria.

Novo Varejo – Selecionada como uma das coordenadoras dos Programas Prioritários do Rota 2030, quais serão as funções e as prioridades da Embrapii?

José Luis Gordon – Nossa prioridade é impulsionar ainda mais o que já fazemos em nosso cronograma cotidiano: ajudar o setor industrial na capacidade de promover inovação e, assim, ganhar competitividade. No Rota 2030 faremos o link do setor automotivo, sobretudo da cadeia de fornecedores, com os 42 Centros de Pesquisa credenciados pela Embrapii, todos muito bem preparados para atender a demanda empresarial nas mais diversas áreas, desde biocombustíveis até novos materiais. No mundo de hoje, a inovação deixou de ser luxo e se tornou elemento indispensável para a sobrevivência das empresas.

NV – O mundo caminha na direção de adotar veículos com motores híbridos e elétricos. É possível evoluirmos no âmbito da pesquisa e tecnologia a ponto de produzi-los internamente ou seremos importadores nesse processo?

JLG – Essa área ainda não tem uma ‘tecnologia vencedora’ e, pelo que converso com o pessoal do setor automotivo, não haverá uma tecnologia que vai prevalecer sobre todas as outras, como foi o caso do motor à combustão. O que teremos é uma co-ocorrência de tecnologias. E o Brasil tem o potencial de ser um player importante no modelo híbrido devido a nossa experiência com o etanol. Existe, sim, uma janela de oportunidades nesse mercado para que o Brasil entre e dispute em boas condições.

NV – Como será feita a distribuição dos investimentos nos projetos de inovação apoiados pela Embrapii no Rota 2030?

JLG – Quando o projeto envolve uma empresa de médio e/ou grande porte, arcaremos com 33% de seu custo. Para projetos que envolvam pelo menos duas empresas de pequeno porte – com faturamento bruto anual igual ou menor que R$ 90 milhões – arcamos com 50%. A ideia por trás de oferecer subsídio maior para empresas de menor porte visa a incentivar o aparecimento e a consolidação de startups, novos fornecedores e redes integradas de pequenas empresas. Além disso, o fato de não arcarmos com todo o custo, aumenta o grau de comprometimento dos players no projeto. Acrescento ainda que por trás dessa política de financiamento compartilhado existe uma política pública de impulsionamento dos investimentos do setor privado, algo que acreditamos ser um dos principais gaps de nosso país em relação às nações mais desenvolvidas. Aqui, nosso gasto público é tão grande ou até maior do que nesses lugares, mas o volume de investimento privado fica muito aquém.

NV – De que maneiras as empresas podem contatar a Embrapii para iniciar um projeto de inovação?

JLG – O processo é muito simples e desburocratizado. A empresa que quer iniciar um projeto de inovação tem de procurar uma unidade Embrapii para que possamos encaminha-la a um de nossos 42 Centros de Pesquisa credenciados a fim de que eles auxiliem nessa fase de estudo inicial para dar ou não o start ao projeto. É sabido que toda a atividade de inovação envolve um grau significativo de risco, algo que nossos centros são altamente capacitados para avaliar junto da empresa. Temos casos de projetos que já foram aprovados em quatro dias e a média da entrada da solicitação até a aprovação gira em torno de dois a três meses. É tudo muito rápido. Salientamos às empresas que os centros mencionados estão preparados para atendê-las nas mais diversas áreas, incluindo TI e Comunicação; material; química; biotecnologia; novos motores e ferramentaria.

NV – Dentro do Rota 2030, haverá uma cadeia colaborativa entre os coordenadores: Embrapii; Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES); Financiadora de Estudos e Projetos (Finep); Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai); e Fundação de Desenvolvimento da Pesquisa de Minas Gerais (Fundep) a fim de estabelecer uma agenda comum para o desenvolvimento amplo e coordenado do setor automotivo brasileiro?

JLG – Quando apresentamos nossa candidatura ao Rota 2030, o fizemos de maneira conjunta com Senai e BNDES a fim de nos dividirmos no cuidado com cada momento do processo de inovação. O Senai ficou incumbido de produzir mão de obra qualificada, o BNDES da aplicação prática do projeto e a Embrapii do chamado ‘Vale da Morte’, que é a etapa mais crítica do processo, aquela que ultrapassou a parte da ideia inicial, e que agora necessita ser desenvolvida em todos os seus detalhes e ser submetida a diversos testes. A ideia do Rota 2030 é oferecer ferramentas para que o setor automotivo nacional se desenvolva em todas as suas facetas, pois uma sustenta a outra no objetivo final, que é torna-lo mais moderno e competitivo. É exatamente pensando nisso que foram selecionadas diversas instituições coordenadoras, com diferentes especialidades e experiências. Com certeza faremos um trabalho conjunto, essa era a ideia desde o início.

NV – Um dos pilares do Rota 2030 para a indústria de autopeças é o incentivo à pesquisa e desenvolvimento. Na medida em que os automóveis ficam tecnologicamente mais complexos – o que vem efetivamente ocorrendo – os fornecedores nacionais ficam distantes destas demandas. Qual é a real possibilidade de as indústrias nacionais suprirem essas demandas altamente tecnológicas?

JLG – Nossas possibilidades são as melhores possíveis. O que precisamos é fazer um esforço coordenado na área de inovação. Nossa cadeia de fornecedores já conta com uma base robusta, com infraestrutura. É necessário agora acrescentar à essa base uma mentalidade de inovação – e, quando menciono o termo, não estou falando daquela inovação ‘disruptiva’, que muda o curso da cadeia em relação ao que é feito ao redor do mundo. Me refiro à inovação incremental, aquela que melhora processos e altera questões pontuais daquilo que já fazemos.

NV – O trade que envolve a fabricação do automóvel obedece a diversos padrões de qualidade. No entanto, quando esse carro passa para o mercado de reposição, não há o mesmo controle; não há, por exemplo, uma inspeção técnica veicular. Todo o investimento em qualidade feito até a fabricação do veículo se perde um pouco quando o carro sai da concessionária. Como equacionar essa contradição visto que as políticas automotivas nunca contemplam o mercado de reposição?

JLG – Honestamente, não sei como responder a essa questão. O que eu posso dizer para você é que se tiver algo relacionado à tecnologia, à melhora de processos e outras questões relacionadas à área de inovação a Embrapii está preparada para contribuir com o mercado de reposição.

NV – A indústria brasileira sofre, por diferentes razões, de um sério déficit de competitividade não apenas em relação ao chamado primeiro mundo, mas também em comparação a parceiros como o México. Qual pode ser o impacto para a indústria nacional dos inúmeros acordos comerciais que vêm sendo efetivados ou desenhados pelo novo governo e tendem a acirrar a concorrência com produtos globais?

JLG – Precisamos que a nossa indústria seja mais competitiva. Esse é o ponto principal. E só seremos mais competitivos por meio da inovação. Nesse sentido, eu acho que o Rota 2030 vai desempenhar um papel fundamental, principalmente em relação à cadeia de fornecedores. O foco é esse. O Governo Federal está dando uma série de recursos, que podem chegar ao montante de R$ 1 bilhão anuais por um período de 5 anos, com essa mensagem: “vão lá e inovem, se atualizem”. Não é por acaso que hoje os principais países têm investido pesadamente em tecnologia. Aliás, olhando aqui mesmo, internamente, temos o exemplo do setor agro. Um segmento cheio de commodities que tem investido em tecnologia e pesquisa por meio da Embrapa com o objetivo de ser mais produtivo. Não existe outro caminho para a competitividade. E acredito que, com o Rota 2030, o setor automotivo está no caminho certo.