Brasileiros: Gurgel BR-800, o primeiro 100% nacional

Por Bruno Núñez

A indústria automobilística está presente no Brasil desde 1956, quando teve início a fabricação do Romi-Isetta, em Santa Bárbara d’Oeste (SP). Muitas montadoras nacionais passaram e nenhuma conseguiu fabricar um automóvel genuinamente brasileiro, já que normalmente possuíam mecânicas de veículos Volkswagen, como os modelos da Miura e da Puma. Apenas em 1988, João Augusto do Amaral Gurgel – engenheiro e fundador da Gurgel Motores – conseguiu lograr esse marco, depois de anos tentando alcançar esse objetivo. O pequeno BR-800 foi o primeiro carro 100% brasileiro.

“O BR-800 veio de um sonho do João Augusto do Amaral Gurgel. Ele sempre quis fazer um carro nacional econômico popular, algo que pudesse ser acessível para toda população brasileira. Um desejo que veio desde os tempos que fez faculdade, uma época em que os automóveis americanos grandes tomavam as ruas”, conta Thiago Moreno, jornalista de 33 anos que é proprietário desse Gurgel desde 2011.

Inicialmente, o BR-800, antes de sair do papel, era chamado de CENA (Carro Econômico Nacional), mas problemas com a família de Ayrton Senna por conta do nome similar ao do piloto fizeram o projeto ser rebatizado. Outro nome do conceito era 280-M. O sonho de Gurgel finalmente foi realizado em 1988.

Fotos da matéria: Drausio Rangel

“Depois de muito tempo, ele colocou o sonho dele em prática. Carro pequenininho, acessível, nacional, ideal para as condições dos brasileiros. Até por isso que o BR-800 é de fibra, já que se o Brasil inteiro mora na praia, porque ele faria um carro de chapa que vai enferrujar?”, explica Thiago.

“Ele é um carro que não tem vários equipamentos. Esse era a filosofia do Gurgel, ‘se não tem, não quebra’. O vidro da janela não é de manivela, é de correr para o lado. O BR-800 foi feito para ser simples, não quebrar, atender o público, ser barato para todo mundo poder ter. Na época, ele tinha um preço mais em conta que o Uno Mille”, diz o jornalista. Quando começou a ser produzido em série, o veículo foi agraciado com benefício fiscal sobre o IPI, tendo sido o verdadeiro pioneiro no segmento “popular”.

O “vanguardismo” do BR-800 em ser 100% nacional é por conta do chassi tubular com a carroceria de fibra, uma prática costumeira dos modelos da Gurgel, e do motor próprio, o Enertron, todos produzidos na fábrica da marca, em Rio Claro, no interior de São Paulo.

“O Enertron é um motor de 800 cm³, dois cilíndros contrapostos, 35 cavalos e aproximadamente 6,5 kg de torque. Não é meio motor de Fusca, se você quiser deixar um dono de BR-800 irritado é só falar isso (risos). Apesar disso, ele utilizava algumas peças do modelo da Volkswagen, como pistão, medida de biela e o comando de válvula”, explica Thiago.

O motor próprio da montadora brasileira era inédito, mas ele veio com um problema causado por um erro de tradução: “O comando de válvula parecido com o do Fusca 1600 deu trabalho para a Gurgel na primeira série de produção, já que essas peças vinham com a letra ‘A’ escrita em um dos lados. Isso causou uma confusão, porque as pessoas que montaram o veículo acharam que era a válvula de admissão. O carro saiu da fábrica fervendo e ninguém sabia qual era o problema. Depois descobriram que o ‘A’ era do alemão aussteigen, que significava saída, ou seja, era a válvula de escape. Após perceberem isso, lançaram uma segunda série do Enertron sem esse erro”.

O BR-800 tem quatro marchas, tração traseira e uma velocidade máxima de aproximadamente 120 km/h. Além disso, pesa 648 kg, divididos igualmente, 324 kg na frente e 324 kg na traseira. Foram fabricados cerca de 7.100 unidades do primeiro carro 100% nacional. Produzido entre 1988 e 1991, com alguns montados no começo de 1992, o Gurgel do Thiago é um dos últimos, saído da fábrica de Rio Claro (SP) no dia 29 de fevereiro de 1992.

Super Luxo

Nas laterais do carro de Thiago é possível ver a inscrição BR-800 SL, sigla para Super Luxo. O modelo da Gurgel veio com duas versões. A normal não tinha a tampa do porta-luva e o tampão do porta-malas não abria. Depois, João Augusto do Amaral Gurgel ofereceu o veículo SL com essas “regalias” para quem comprasse o veículo com ações da empresa. Outro item exclusivo era a ventilação zenital, um item único no pequeno carro brasileiro.

“É uma ventarola que fica no zênite do carro. Quando você abre, puxa o vento para dentro. Como esse carro não tem ventilação, quando você abre isso é o único meio de jogar vento para dentro. Só que lá pra uns 80 km/h ele já sopra vento demais e você tem que fechar”, conta Thiago.

Para completar, o Gurgel tem um molho de chaves extenso, já que cada uma delas têm uma função, uma liga o carro, outra abre o porta-malas, porta-luva e etc.

O mínimo necessário

Desde 2011 com o Gurgel BR-800, Thiago Moreno ama o modelo da marca brasileira, tanto que comparece aos encontros do Gurgel Clube de São Paulo, no bairro da Lapa. “Eu comprei sem precisar, porque eu queria. E é um carro que eu pretendo manter sem precisar porque eu quero. O que o Gurgel me ensinou é que você não precisa de muito para ter um carro, se você só quer um carro é isso, você precisa de quatro rodas, um motor que não quebre e não te dê dor de cabeça”, explica.

Jornalista de profissão, Thiago testa carros para um portal automotivo, fazendo análises dos novos lançamentos do mercado. Mesmo assim, não troca seu BR-800 por nada. “Tem dia que eu estou com um Land Rover, um Jaguar, aí eu pego ele para sentir a diferença. Essa noção de que você não precisa de muita coisa é algo que se perdeu na indústria. Hoje um carro que não tem airbag e central multimídia é considerado um carro pelado. Ele é um carro pelado. Ele é o carro que você precisa, não o que você quer. Talvez por isso não deu certo, né?”, relata. E termina com uma frase que resume o modelo sonhado por João Augusto do Amaral Gurgel: “ele é o mínimo necessário”.

Confira o vídeo da reportagem: