Brasil vive realidade em que o bolso não explica mais a cabeça dos consumidores

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Especialista em consumo, Renato Meirelles detalhou as mudanças que impactam a sociedade brasileira

Mudanças na estrutura social do país e o risco dos estereótipos trazem grandes desafios de adequação às empresas

Claudio Milan

claudio@novomeio.com.br

Nas últimas três décadas o brasileiro saiu de um cenário de hiperinflação, passou pela estabilidade econômica, viveu a expansão da classe média e agora tenta superar uma das maiores recessões já enfrentadas pelo país. Tantas mudanças impactaram profundamente a cabeça dos consumidores. Porém, em muitos casos, as empresas continuam trabalhando com valores que já não se aplicam mais nos dias de hoje.

O perfil dos novos consumidores foi traçado pelo expert em hábitos de consumo e presidente do Instituto Locomotiva, Renato Meirelles, em sua apresentação no Seminário da Reposição Automotiva 2017, realizado em 10 de outubro em São Paulo. “A montanha russa do consumo fez com que hoje tivéssemos 53 milhões de internautas a mais do que na última década e 9,6 milhões de pessoas com nível superior a mais do que há 10 anos. Tivemos uma velocidade tão grande no crescimento do nível educacional, acesso a internet e democratização do consumo que o que valia lá atrás para entender o cliente hoje não vale mais”, introduziu o especialista.

Meirelles apontou que a renda dos 25% mais pobres cresceu bem mais do que a renda dos 25% mais ricos. “Esse movimento fez com que o Brasil deixasse de ser um país com estrutura de pirâmide social com mais gente na base e virasse um país com estrutura de losango social, com mais gente na classe C, aquilo que se convencionou chamar de nova classe média brasileira. Isso é tão forte que, atualmente, 50% dos donos de carro no Brasil pertencem à classe C”. Uma das consequências, segundo o palestrante, é que as pessoas passaram a ter dificuldade em se classificar. “Todo mundo se considera classe média”.

A verdade, no entanto, é que ainda existem disparidades significativas. “Metade das famílias brasileiras tem renda total menor do que 2.300 reais e os 10% mais ricos têm renda que começa em 6.750 reais – ou seja, 90% das famílias brasileiras têm renda inferior a 6.750 reais”, ilustrou.

A conclusão, de acordo com Renato Meirelles, é que num país desigual como o Brasil, o desenvolvimento de estratégias de negócios nunca foi tão importante. “As mudanças que fizeram surgir a classe C, a nova classe media brasileira, acabaram não jogando luz para outro movimento, que foi o surgimento das novas classes A e B, os 25% mais ricos. Estou falando daquele cidadão que há 10 anos erguia uma laje na casa em que morava, foi morar na parte de cima, abriu uma distribuidora de água e hoje ganha 50 mil reais por mês. Do dono de uma padaria no Jardim Anália Franco que ganha 200 mil reais por mês. De milhões de brasileiros que têm bolso de Classe A e cabeça de classe C. A velocidade das mudanças no consumo foi tão grande que o capital econômico deixou de conversar com o capital cultural. Temos na classe A o dono de um boteco em Ermelino Matarazzo e o vice-presidente de marketing de uma multinacional. Por outro lado, temos na classe C um professor do ensino médio, que muitas vezes tem mestrado, e um operário da construção civil”.

Trata-se, portanto, de uma realidade em que o bolso não explica mais a cabeça dos consumidores – e grande desafio das empresas é entender como essas pessoas pensam.

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