Aumento de mulheres com CNH se opõe à escassa diversidade de gênero no balcão de autopeças

Por Lucas Torres

Nas grandes cidades do país, a simples observação do trânsito é capaz de identificar o grande número de mulheres que dirigem seus próprios carros – impressão que é confirmada por números do Denatran, que apontam que cerca de 35% dos motoristas habilitados brasileiros são do sexo feminino. A bem da verdade, a presença das mulheres habilitadas nas ruas do país já é tão cotidiana que tratar o fato como ‘notícia’ em pleno 2019 seria uma aberração.

Acontece, no entanto, que se realizarmos o mesmo ‘teste de observação’ nas lojas de autopeças certamente não encontraremos a mesma pluralidade de gênero. De acordo com o diretor do Instituto Brasileiro de Vendas (IBVendas), Mário Rodrigues, o predomínio de vendedores e balconistas homens acaba diminuindo a capacidade do varejo de autopeças de estabelecer um processo de empatia imediato com suas consumidoras. “Não há a menor dúvida que o processo de empatia de pessoas do mesmo gênero é muito maior e facilita a primeira comunicação”, afirma Rodrigues.

O especialista aponta que, nas vendas, a empatia nada mais é do que a capacidade do vendedor de se colocar na posição do cliente – e deste segundo ‘se identificar’ com a procura da solução por parte de quem o atende. “É preciso compreender que o comprador, quando se dirige a uma loja, não está apenas fazendo uma transação. Está buscando a solução para uma necessidade particular, ainda que esteja ali representando uma empresa. Naturalmente, quanto maior a relação de empatia do cliente com o vendedor, mais à vontade ele estará para expor problemas, ser franco e, com isso, encontrar uma solução que lhe dê conforto e segurança na decisão de compra, algo que não só impactará positivamente a taxa de conversão, mas aumentará a satisfação do cliente e, por conseguinte, sua fidelidade”.

Um dos maiores símbolos do ‘empoderamento’ das mulheres no setor automotivo, a fundadora do ‘Lady Driver’, aplicativo de transporte direcionado ao público feminino, Gabryella Corrêa, relembra os tempos em atuou no balcão de autopeças da loja de seu pai, em Araraquara (SP), para corroborar o ponto de vista de Rodrigues. “Quando trabalhava como balconista, havia uma série de clientes mulheres que vinham à loja falar diretamente comigo. Eu percebia que o simples fato da minha presença feminina naquele ambiente altamente masculino as deixava mais confortáveis”, conta Gabryella.

A empreendedora, porém, faz uma ressalva aos donos e gestores de varejos de autopeças, afirmando que não basta contratar balconistas mulheres sem criar um ambiente favorável ao melhor desempenho de suas funções. “Por ainda estarmos em um processo inicial de inclusão das mulheres nas lojas de autopeças e centros automotivos, é preciso um esforço consciente para criar condições favoráveis a essas profissionais – a começar por uma cultura de respeito dentro do ambiente de trabalho e, claro, investimento em treinamento técnico especializado. Lembro que quando fiz curso de mecânica no Senai, só havia eu e outra menina em uma turma grande. É uma questão cultural que precisa de incentivo para ser modificada”.