Acesso ao crédito desafia gestores das pequenas e médias empresas

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Magaly Albuquerque, gerente-adjunta de Serviços Financeiros do Sebrae Nacional, analisa os desafios de acesso ao crédito empresarial

 

O crédito para o incentivo ao empreendedorismo e fomento às empresas tem sido tema recorrente na agenda econômica e política do Brasil nos últimos anos. Para facilitar o acesso aos recursos necessários para a gestão ou expansão dos negócios, o Governo Federal criou mecanismos como o Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), em tese o principal canal para disponibilizar recursos para a atividade empresarial.

Na prática, entretanto, o acesso aos recursos do BNDES não têm sido tão fácil como desejam os brasileiros, especialmente no que se refere às micro e pequenas empresas – muitas vezes vemos notícias sobre grandes corporações se beneficiando dos empréstimos, porém é sempre importante destacar que os micro e pequenos negócios respondem por 54% dos empregos com carteira assinada, 27% do PIB nacional e 98,5% do total de empresas formais no Brasil.

De acordo com a gerente-adjunta de Serviços Financeiros no Sebrae Nacional, Magaly Albuquerque, desiludidos com o atual quadro, 83% dos donos de pequenos negócios sequer tentaram obter um empréstimo em 2016. Quadro que preocupa o Governo Federal.

Pensando nisso, a Ministério do Planejamento anunciou nos últimos dias um programa de concessão de créditos que irá destinar R$ 15 bilhões para empresas que faturam anualmente até R$ 90 milhões.

Embora esse valor limite já enquadre por osmose as micro e pequenas empresas, para Magaly é preciso criar estratégias específicas para a concessão de créditos para empresas que se enquadram no teto do Simples, de R$ 3,6 milhões ao ano e, mais ainda, para as microempresas, aquelas que faturam até R$ 360 mil.

Para compreender e debater soluções sobre o novo programa de concessão de créditos do BNDES, além outros temas relacionados à facilitação de recursos para o empresariado de pequeno porte, conversamos com a gerente do Sebrae Nacional.

Novo Varejo – Os empresários brasileiros que buscam crédito se queixam da burocracia e da alta taxa de juros cobrada pelas instituições. Qual é a visão do Sebrae?

Magaly Albuquerque – Esse cenário mudou muito pouco, ainda é difícil abrir um negócio, mantê-lo e pegar crédito em banco. O que estamos fazendo é abrir caminhos para derrubar essas barreiras de burocracia, acesso a crédito e à internacionalização. Para isso, estamos em permanente intercâmbio com órgãos governamentais, não governamentais e da iniciativa privada. Posso citar, entre os principais, o Senhor Orientador, que faz parte de um grande projeto de crédito orientado, em parceria com o Banco do Brasil, em que aposentados do sistema bancário usam sua experiência para prestar consultoria financeira a pequenos negócios; também estamos preparando um convênio com o BNDES para simplificar o acesso dos pequenos negócios a recursos que o banco de desenvolvimento atualmente não consegue liberar por meio de sua rede de parceiros. Estamos, ainda, trabalhando no acesso ao comércio exterior pelos pequenos negócios, dialogando com órgãos anuentes (RFB, Secex/MDIC, Mapa e Anvisa, entre outros) para a adoção de medidas que reduzam a burocracia. E firmamos um convênio de cooperação técnica com a Apex que prevê ações conjuntas na promoção e preparação dos pequenos negócios para o comércio internacional.

NV – Qual a real demanda dos empresários por crédito, tanto no que diz respeito a capital de giro, quanto para investimentos em ampliações e modernizações do negócio?

MA – Os pequenos negócios têm mais dificuldades para acessar o crédito do que as grandes empresas. Cientes da maratona que teriam de encarar, 83% dos donos de pequenos negócios sequer tentaram obter um empréstimo em 2016. Em razão desses empecilhos, 52% dos financiamentos obtidos pelas micro e pequenas empresas são com os fornecedores, mediante pagamento a prazo das compras realizadas. Só 15% usam financiamento bancário. O Sebrae se coloca a serviço dos pequenos negócios para reverter esse quadro.

 

NV – Como o programa de crédito para pequenas empresas com recursos do BNDES anunciado pelo Ministério do Planejamento pode impactar o atual cenário de concessão de crédito?

MA – Serão priorizadas empresas que faturam até R$ 90 milhões por ano. Mas o nosso entendimento é que é preciso priorizar as que se enquadram no teto do Simples, de R$ 3,6 milhões ao ano e, mais ainda, as microempresas, que faturam até R$ 360 mil, pois estas representam mais de 98% dos pequenos negócios brasileiros e são as que mais têm dificuldades de acesso ao crédito bancário. O BNDES não opera diretamente com o público, mas com parceiros no sistema bancário que oferecem os seus produtos. Da forma como funciona atualmente, o crédito não chega ao micro e pequeno empresário, pois os bancos assumem todos os riscos na operação. Além de incentivar o uso do Fampe, fundo de aval do Sebrae, e das Sociedades Garantidoras de Crédito para dar garantias adicionais a quem precisa de crédito, vamos sugerir a participação ou a criação de uma fintech específica para desobstruir o escoamento desses recursos que, como bem falou o ministro, estão parados no BNDES.

 

NV – Ainda sobre o programa do BNDES, a expectativa é que a taxa de juros fique acima da Selic e um pouco abaixo do juro mais caro de mercado. Nesses moldes, o programa irá surtir efeito ou os juros continuarão afastando o empresário?

MA – Não é o ideal, mas é muito melhor do que a maioria das taxas oferecidas atualmente, que estão em bem mais de 9,25% ao ano. O importante é chegar a um modelo que conjugue juros acessíveis, prazos de carência e de amortização do pagamento.

                                       Especialista destaca importância do planejamento financeiro

NV – Embora o PIB tenha apresentado resultado positivo no primeiro trimestre, o consumo das famílias, talvez principal indicador em termos de impacto no varejo, ainda não se solidificou. Em face desse panorama ainda incerto, o empresário varejista deve ter cautela na aquisição de crédito para não enfrentar um endividamento?

MA – O planejamento financeiro é o primeiro passo para o empresário, Em primeiro lugar, avaliar sua real necessidade de crédito e sua capacidade de pagamento. Essa é a essência do projeto Senhor Orientador. Os gerentes de banco aposentados, selecionados por nós para prestar essa consultoria financeira, têm a experiência de dar crédito olho no olho e podem fazer um raio-X da situação da empresa, a partir de dados fornecidos pelos empresários, e serem agentes de crédito orientado, sustentável e competitivo. O empresário precisa ver no crédito um aliado para o seu crescimento e estar ciente de que crédito é crédito enquanto está no banco. Uma vez que chega à empresa, torna-se dívida que precisa ser honrada.

 

NV – Além do Senhor Orientador, o Sebrae promove outras consultorias que podem auxiliar o pequeno empresário nessa decisão?

MA – O Sebrae oferece cursos a distância em seu portal (www.ead.sebrae.com.br) com conteúdos que contemplam apoio para a gestão do negócio, entre outras ferramentas. E há uma agenda anual de seminários de crédito, que cobre praticamente todos os cerca de 600 pontos de atendimento do Sebrae no país, uma parceria com o BNDES em que especialistas apresentam a empresários os produtos do banco de desenvolvimento voltados à micro e pequena empresa. Entre eles, estão o Cartão BNDES e a linha Progeren Capital de Giro.

 

NV – A decisão da equipe econômica do Governo Federal em impulsionar o crédito para as pequenas empresas é um passo importante para tirar o Brasil da crise?

MA – As micro e pequenas empresas representam 54% dos empregos de carteira assinada, 27% do PIB nacional e 98,5% do total de empresas formais no Brasil. Ou seja, são elas que giram a economia e sustentam o mercado de trabalho no país. Precisam muito mais de incentivo em momentos de crise, pois pela própria natureza são negócios com menos fôlego financeiro para esperar o turbilhão passar.

 

NV – Instituições como o Sebrae têm um papel importante no desenvolvimento da atividade empreendedora do país e, devido ao convívio diário com os pequenos e médios empresários, são donas de uma base de dados única a respeito de seus anseios e necessidades. O Sebrae foi consultado a respeito desse programa de concessão de crédito arquitetado pelo Ministério do Planejamento?

MA – O BNDES recebeu do presidente Michel Temer a missão de dar mais atenção e direcionar mais recursos às micro e pequenas empresas e a equipe do banco convidou o Sebrae para contribuir na elaboração de iniciativas. O Canal do Desenvolvedor MPME, lançado há pouco pelo BNDES, teve contribuição do Sebrae na sua elaboração e, inclusive, participamos de seu lançamento. O programa anunciado oficializa o que já vem sendo conversado pelas duas instituições e que pretendemos, em breve, transformar em um convênio de cooperação técnica.

 

NV – Quais outras sugestões o Sebrae daria para o Governo Federal para facilitar e incentivar a atividade das pequenas empresas brasileiras?

MA – Independentemente do governo, o Sebrae tem como prioridade melhorar o ambiente de negócios do país para as micro e pequenas empresas. Isso é a tônica do trabalho da nossa equipe técnica, que está sempre realizando projetos e parcerias com ministérios e órgãos governamentais, com quem mantemos abertos os canais de diálogo e negociação.

 

Por Lucas Torres

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